Opinião

Teseu e o Minotauro: A dissolução do ego

"Podemos entendê-la, simbolicamente, como um compromisso com o novo, o novo eu, que surge após a dissolução do antigo ego, ignorante de sabedoria"

Kleber P. Medeiro*
07/07/22 às 20h00

A mitologia, com suas narrativas atemporais, consegue despertar curiosidade e encantamento por gerações. No mito, é possível encontrar, de forma simbólica, um lembrete de que existe uma realidade muito maior, que vai além dos nossos afazeres diários. 

Destarte, podemos também entender suas narrativas, como um importante guia, para nos ajudar a aprofundar nas ‘camadas do inconsciente’. Nesse sentido, existem muitas 'chaves' para compreender a mitologia. Portanto, a ótica discutida brevemente aqui, é um leve arranhão, nesse vasto universo oculto. 

Para iniciarmos nossa jornada, por esse fascinante mundo simbólico, escolhi o lendário mito de Teseu e o Minotauro. Mas antes de debruçamos sobre sua simbologia, devemos conhecer um pouco mais sobre ele.

Em síntese:

O rei de Creta, Minos, filho de Zeus e Europa, ganhou de Poseidon (Deus do Mar), um touro, com intuito de que o rei pudesse sacrificá-lo em nome de sua honra e gloria. Porém, Minos ignorou a ordem.  Como castigo, Poseidon fez a esposa de Minos, Pasífae, se apaixonar pelo touro. Dessa 'paixão', nasceu o Minotauro, animal mítico, metade homem e metade touro. O rei, então, pediu para Dédalo (célebre inventor) criar um labirinto para escondê-lo e confundir qualquer um que ousasse entrar. 

Logo depois, oráculo de Delfos, ordenou a Egeu, rei de Atenas, escolher todo ano, sete belas jovens e sete belos jovanes, para servir de alimento ao Minotauro, assim, pagando o seu débito, por mandar matar Androgeu, filho de Minos. No entanto, Teseu, filho de Egeu, disse ao pai que gostaria de enfrentar o temido monstro e combinou com ele que partiria rumo a Creta, e, em caso de vitória, retornaria para casa, mas dessa vez, com velas de seu barco hasteadas na cor branca (símbolo de vitória).

Quando Teseu chegou a Creta, Ariadne, filha do rei Minos, se apaixonou perdidamente por Teseu. Na tentativa de ajudá-lo, convenceu até mesmo o arquiteto do labirinto, Dédalo, no que lhe concerne, ofereceu um novelo de lã, para que Teseu pudesse usá-lo para marcar o caminho de volta e, finalmente, sair do labirinto. Conforme planejado, Teseu venceu o temido monstro e saiu são e salvo. O herói, então, embarcou de volta rumo a Atenas com sua amada.

Todavia, a deusa Atena visitou Teseu e o alertou, para deixasse Ariadne na ilha de Naxos, pois não poderia retornar para casa com ela. Desapontado, Teseu se esqueceu de içar a vela branca, como havia combinado com pai. Quando o barco se aproximou da cidade de Atenas, Egeu se desesperou quando mirou as velas negras (símbolo de luto). Conjecturando que o seu filho havia morrido em combate com o Minotauro, Egeu, então, comete suicídio, lançando-se ao mar, que hoje carrega o seu nome.

Afresco de Taurocatapsia, no Palacio de Cnosos. Considera-se que, o mito de Teseu e Minotauro, tenha sido inspirado no ritual religioso da civilização Minoica (Foto: Reprodução)

Agora que conhecemos sucintamente o mito de Teseu e o Minotauro, estamos aptos para mergulhar em seus mistérios, com auxilium da psicologia junguiana. O labirinto criado pelo artesão Dédalo, poderia representar em sua forma primordial, o inconsciente (camadas mais profundas da mente humana). 

São conteúdos reprimidos, como traumas, desilusões amorosas, problemas financeiros, ou até mesmo uma atitude perante a vida que ainda não foi revelado à luz da consciência. Em outras palavras, ainda não conseguimos enxergar nossas atitudes como comportamentos destrutíveis, como, por exemplo, o sentimento de inveja, ganância, ira etc.

Escultura em Mármore de Teseu lutando contra o Minotauro de 1826, de Étienne Jules Ramey (Foto: Reprodução)

Contudo, não adianta apenas ter consciência do problema, é preciso agir. Teseu, então, enfrenta o Minotauro, que possui a metade do seu corpo com a forma humana, a outra metade de animal (touro), representando sutilmente, o lado irracional que todos nós possuímos e, também, o próprio ego humano, isso é, os impulsos inconscientes que ainda exercem controle sobre nós. 

Entretanto, a mesma mente que aprisiona o sujeito, também possui as chaves para libertá-lo. É exatamente o que Teseu pretende fazer quando escolhe, vale ressaltar, por vontade própria, enfrentar a besta, assim, libertando o seu povo (sacrifício em prol de algo maior) do terrível destino que os aguardava. Dessa maneira, Teseu, encara o seu maior inimigo, o seu próprio eu (o ego).

Teseu e Minotauro. Gravura criada por Edward Burne Jones em 1861. Fonte: reprodução (Foto: Reprodução)

Majoritariamente, criamos personas (máscaras sociais), para esconder quem realmente somos. Elas podem ser tão bem estruturantes, que até mesmo o seu portador pode acabar acreditando nela e, terrivelmente, se torna uma personalidade rasa e conformista. Em vista disso, são necessárias coragem e determinação de herói, para adentrar no labirinto e encarar o Minotauro interior. 

Não o bastante, após encontrar a fera e vencê-la, também é necessário sair. Nesse sentindo, eis que entra a figura transcendente de Ariadne. Podemos entendê-la, simbolicamente, como um compromisso com o novo, o novo eu, que surge após a dissolução do antigo ego, ignorante de sabedoria. 

O amor da princesa pode ser entendido, no sentindo de autenticidade, lealdade, e também, como o eterno movimento de renovação, isso é, ser verdadeiro, não apenas consigo, mas também com o outrem.

Após sair do labirinto, Teseu é influenciado por Atenas para deixar Ariadne na ilha de Naxos. Ao traí-la, terríveis eventos que pareciam ser aleatórios, acontecem. Teseu se esquece de içar a vela branca e, tragicamente, o seu pai ‘paga’ com a própria vida pelo erro. Na ótica simbólica, Teseu sucumbe para sua antiga persona (antigos comportamentos do ego) traindo, assim, o amor de Ariadne (compromisso com o novo eu autentico), que foi quem ajudou a libertá-lo do temido labirinto interior.

Concluindo, podemos entender que o mito de Teseu como um importante lembrete; não basta vencer o Minotauro interior (o ego), mas também devemos agir com sabedoria e prudência, vigiando constantemente as nossas ações, inclusive, escolhendo novos caminhos, para não esbarrondar em velhos hábitos ultrapassados e nocivos, isso é, no labirinto do Minotauro.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Kleber P. Medeiro é graduando em psicologia pelo Unisalesiano e estudioso junguiano. 

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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