Opinião

Vem ser mulher

A alteração, que deveria soar como positiva, reflete o despreparo e número reduzido de efetivo

Jamilly Nicácio Nicolete - Hojemais Araçatuba 
03/06/19 às 11h07

O Observatório do Terceiro Setor divulgou no dia 21 de maio um número marcante, triste. São 88 casos de violência doméstica registrados diariamente em São Paulo neste ano. Crimes são cometidos por maridos, namorados ou ex-companheiros das vítimas. A média é de 3,6 casos por hora.

O levantamento, que foi realizado pelo G1 e pela Globonews, apontou que os casos de lesão corporal por violência doméstica aumentaram 14% nos últimos três anos no Estado de São Paulo. No primeiro trimestre de 2016, foram registrados 6.937 casos de lesões no âmbito da violência doméstica. Já nos primeiros três meses de 2019, foram 7.907 ocorrências.

Outro relatório, também produzido pelo G1, apontou que os casos de feminicídio aumentaram 76% no 1º trimestre de 2019, em São Paulo, em relação ao mesmo período do ano anterior. De janeiro a março de 2019, 37 mulheres foram vítimas desse crime. Em 2018, no período, foram 21 vítimas.

Os dados acima evidenciam uma violência crescente, mas não representam a realidade. Muitas mulheres acabam não denunciando seus agressores. Seja porque delegacia(s) da mulher funcionam até as 17h (enquanto o maior índice de violência é a partir das 18h), seja por dependência afetiva, financeira ou moral, seja porque ao chegarem às delegacias são desmotivadas por quem deveria encorajar e defender a honra e a segurança dessas mulheres.

Também em maio, o presidente Jair Bolsonaro sancionou mudanças na Lei Maria da Penha. A mudança permite que o agressor seja imediatamente afastado do lar, domicílio ou local de convivência, mesmo sem a determinação de um juiz. A alteração, que deveria soar como positiva, reflete o despreparo e número reduzido de efetivo. Como gênero é poder, precisaríamos, antes, pensar na capacitação profissional para o acolhimento humano àquelas que já são diariamente subjugadas pelas estruturas patriarcais.

Enquanto isso, Ziauddin Yousafzai, pai de Malala, a paquistanesa que sofreu violência em seu país por defender a educação para as meninas, desafiando as tradições para poder frequentar a escola, Nobel da Paz e, hoje, aluna da Universidade de Oxford, em entrevista recente, revela como criou uma garota poderosa em uma sociedade patriarcal: “Eu não cortei as asas dela”.

 

 

Jamilly Nicácio Nicolete é professora universitária, doutora em Educação, coordenadora do GEDEG (Grupo de Pesquisa em Diversidade, Educação e Gênero).

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