Um motoboy de 30 anos, morador no bairro Santana, em Araçatuba (SP), confessou à polícia ter emprestado duas contas bancárias ao amigo, um morador no bairro Concórdia 2 que foi preso na manhã de quarta-feira (3), acusado de furtar cerca de R$ 500 mil de um banco digital.
O investigado é acusado de liderar um esquema no qual usa o nome de pessoas que se cadastram com ele para investir em biticoin, abrir contas nesse banco, com sede em São Paulo, e sacar o dinheiro do limite dessas contas.
A investigação é feita pela Delegacia do Idoso de São Paulo, que com a ajuda do banco, identificou 258 pessoas que tiveram os dados usados irregularmente para abrir contas. Essas pessoas não tiveram prejuízo, que foi apenas do banco.
O motoboy foi levado para a delegacia na quarta-feira para ser ouvido e teve o carro apreendido (Foto: Hojemais Araçatuba)
Amigo
Durante o cumprimento dos mandados judiciais de busca e apreensão na quarta-feira, o motoboy também foi levado para a delegacia.
Ele confirmou em depoimento ter emprestado contas bancárias ao homem preso e disse que recebeu 10% do valor movimentado, dinheiro que usou para comprar um Jeep Renegade, celulares, relógios e até viagem.
O motoboy contou que conheceu o amigo em meados de 2018, por meio de pessoas em comum no Facebook. Alegou ainda que ao ver anúncios de investimentos em bitcoins ficou interessado.
Ele disse que falou com o indiciado, que lhe ofereceu 10% dos valores obtidos nas captações de investimentos na moeda virtual apenas para emprestar a conta bancária para receber o dinheiro obtido com as negociações.
Ele concordou com a proposta e entregou ao amigo os cartões bancários com as respectivas senhas de duas contas. Cabia ao indiciado sacar o dinheiro depositado e repassar a porcentagem combinada a ele.
4 Meses
De acordo com o motoboy, os dois cartões deles foram utilizados por aproximadamente quatro meses, entre janeiro e abril deste ano, período em que foram movimentados R$ 900 mil nas contas.
Ele disse ter recebido cerca de R$ 90 mil, que usou para comprar um veículo de R$ 63 mil, em uma loja de São José do Rio Preto; um celular Samsung S10 Plus, 512GB, R$ 7 mil; um notebook de R$ 4 mil; uma geladeira de R$ 5 mil; um relógio de R$ 1,3 mil; outro relógio de R$ 1,5 mil; e outro celular de R$ 1 mil.
Sobre o restante do dinheiro, disse gastou em compras diversas de mercado e em uma viagem para Maresias, no litoral paulista, entre outras despesas pessoais.
Bem-sucedido
O motoboy alegou à polícia que não tinha motivos para desconfiar do amigo, que era pessoa bem sucedida nos negócios com investimentos em bitcoins.
Justificou ainda ter pensado que o indiciado queria apenas esconder dinheiro da esposa dele, para não ter que arcar com alguma divisão de bens futuramente, sem imaginar que esse dinheiro fosse obtido de forma ilícita.
Esposa
A esposa do indiciado também é investigada por ter se favorecido do dinheiro obtido de forma fraudulenta.
Ela também foi ouvida e alegou nunca ter desconfiado que o marido dela era envolvido em crimes, apesar dos boletins de ocorrência registrados contra ele dos mandados de busca cumpridos na residência do casal.
A investigada contou que é casada com o indiciado há 19 anos e o casal tem duas filhas, uma com 9 e outra com 10 anos de idade.
Declarou que a renda dela vem do comércio de roupas, atividade que iniciou em 2009, oferecendo mercadorias de casa em casa. Ela falou que em 2011 abriu uma loja na rua Porangaba, que foi transferida para a rua General Osório em 2016.
A investigada disse não se lembrar o número do prédio, mas que possui faturamento bruto mensal de R$ 25 mil a R$ 28 mil, dos quais, R$ 19 mil seria o faturamento líquido.
Bitcoin
Ainda de acordo com a investigada, em 2015 o marido dela começou a trabalhar com Marketing Digital Multinível, associado a uma empresa. Ele aplicava cerca de R$ 1 mil e em 6 meses obtinha um lucro de 100% em cima do investimento inicial.
Segundo a polícia, a investigação apontou que o indiciado também usava a conta da mulher dele para fazer os depósitos. Quando o banco bloqueou as contas dos dois, eles abriram contas nos nomes das duas crianças, para as quais o dinheiro passou a ser repassado.
A mulher negou as acusações e disse não saber o motivo dos créditos da conta dela terem sido interrompidos e a conta bloqueada em 9 de março. Sobre as contas para as filhas, disse que foram abertas devido os depósitos dela e do marido terem excedido o limite diário para depósito.
Carro
Um dos carros apreendidos durante a operação, um AUDI Q3, foi adquirido com dinheiro das fraudes, segundo a polícia.
A investigada disse que comprou o veículo em fevereiro junto com o marido, por R$ 92 mil, quem foram pagos em espécie também em Rio Preto, cidade onde o motoboy comprou o carro dele.
Segundo a mulher, a mãe dela lhe emprestou R$ 14 mil para complementar o valor.
Cunhado
O outro investigado tem 28 anos e reside em Santo Antônio do Aracanguá, onde também foram realizadas buscas. Ele é casado com a irmã do indiciado e trabalha em uma usina.
Ao ser ouvido pela polícia, ele disse que foi procurado pelo cunhado, que falou que precisava utilizar a conta dele para depositar alguns valores referente ao marketing multinível.
O rapaz alegou que emprestou uma conta e recebeu um depósito R$ 17 mil. Desse montante, sacou R$ 7,5 mil e entregou em mãos ao cunhado e transferiu outros R$ 8 mil para uma conta dele.
O restante do valor recebido seria o pagamento por ter emprestado a conta, mas disse que ao tentar fazer o pagamento da fatura do cartão de crédito com o dinheiro R$ 500,00 que havia sobrado, descobriu que a conta havia sido bloqueada.
Outra conta
O indiciado informou que após o bloqueio da conta, o cunhado ele propos que abrisse outra conta em outro banco para depositar os créditos de bitcoins. Ele chegou a fazer a solicitação, mas o pedido teria sido recusado pelo banco.
Apesar da versão apresentada em depoimento, a polícia apurou que ele pagou R$ 25 mil em dinheiro em um veículo Peugeot 208, que está registrado no nome da sogra dele.
O carro chegou a ser levado para o plantão policial na quarta-feira, mas o rapaz alegou que o dinheiro usado na aquisição do veículo era proveniente de acertos trabalhistas, de cinco meses de seguro desemprego e da venda de um veículo VW Golf por R$ 8 mil.
Por fim, ele contou que o cunhado dele não trabalha formalmente há aproximadamente 16 anos, mas mantém o padrão de vida elevado apenas atuando com marketing multinível.
Inquérito
O delegado Fabio Daré, responsável pela investigação, informou que a polícia irá aguardar os laudos da perícia feita em computadores, celulares e documentos apreendidos com os investigados durante os cumprimentos de mandados para dar sequência ao inquérito.
O acusado de liderar o esquema foi preso temporariamente por cinco dias e prestaria depoimento em São Paulo, cidade onde os crimes foram cometidos. O
Hojemais Araçatuba
apurou neste sábado (6) que a prisão foi prorrogada por mais 5 dias.