Justiça

Juiz aposentado gastou R$ 24 mil em boate antes de atropelar Thais Bonatti

Negou em audiência de instrução que estivesse embriagado e argumentou que curva onde aconteceu atropelamento seria problemática

Lázaro Jr. - Agência Trio Notícias
17/07/26 às 18h16
Thais foi atropelada na rotatória da Cobrac em Araçatuba (Foto: Reprodução)

O juiz aposentado Fernando Augusto Fontes Rodrigues Júnior, 61 anos, declarou à Justiça de Araçatuba (SP) que gastou R$ 24 mil na boate onde passou a noite anterior ao atropelamento que resultou na morte de Thaís Bonatti, 30, em 24 de julho de 2025.

A declaração foi feita durante depoimento em audiência de instrução do processo, realizada nesta sexta-feira (17). Ele negou, porém, que estivesse embriagado na ocasião e que estivesse sob efeito de medicamentos.

Além disso, justificou que a rotatória onde ocorreu o atropelamento seria “complicada” e que não teria sido o responsável pelo que chamou de acidente.

Conforme amplamente divulgado, Thais foi atropelada por volta das 11h, quando seguia de bicicleta pela rotatória da avenida Waldemar Alves com a João Arruda Brasil, na frente do setor de estoque do supermercado Rondon da Cobrac.

Ela seguia para o trabalho quando ocorreu o atropelamento e o réu, que conduzia uma caminhonete, trazia a corré Carolina Silva de Almeida, 25, como passageira, após passarem a noite juntos na boate. Em depoimento, Rodrigues Júnior confirmou que a levaria para a casa dela, localizada na zona leste da cidade.

Dormiu

Segundo o que foi apurado pela reportagem, em depoimento o réu declarou que teria chegado à boate por volta das 23h da noite anterior e, desse horário até pouco depois de 1h da madrugada seguinte, ingeriu o conteúdo de duas long neck e dois shots de tequila com limão.

Na versão dele, após ingerir as bebidas ele encostou e acabou dormindo, meio que de forma involuntária, pois já havia ido ao estabelecimento com a intenção de permanecer bastante tempo. Ainda segundo o juiz, ao acordar, já pela manhã, ele pagou a comanda e deixou o estabelecimento imediatamente em seguida, pouco depois das 10h, se sentindo bem, pois teria dormido bem.

Questionado sobre o valor cobrado pela estadia dele na boate, ele comentou que não poderia reclamar, pois ao entrar no estabelecimento teria sido informado que o consumo das mulheres seria cobrado dele, que acabou dormindo. Ele informou que atualmente recebe pouco mais de R$ 40 mil mensais, mas na época, recebia mais, devido algumas indenizações.

Sexo

O réu afirmou que ele dirigiu a caminhonete em todo o trajeto, desde a saída da boate até o local onde aconteceu o atropelamento, e negou que a passageira tivesse sentado no colo dele por qualquer momento. Disse ainda que permaneceu com as mãos na direção e com os pés nos pedais do acelerador, assumindo a responsabilidade pela condução do veículo.

E justificou que sequer ela caberia sentada no colo dele dentro da cabine do veículo, devido à circunferência abdominal que ele possui. Porém confirmou que parou a caminhonete antes da rotatória, respeitando a sinalização existente no local.

Cólica

Questionado sobre o motivo de ter permanecido por algum tempo parado na via nesse local, conforme mostram imagens de câmeras de monitoramento, o réu declarou que estaria sentindo cólica abdominal.

Ele disse que teria falado isso para a passageira do veículo, que teria se curvado na direção dele, ficando face a face com ele. Nesse momento, ela teria colocado as mãos no rosto dele e comentado que ele estaria suando frio.

Ainda de acordo com o juiz, ele chegou a perguntar a ela se ela sabia dirigir, por isso ela teria colocado as mãos no volante. Na versão dele, ela retirou as mãos do volante logo em seguida, se acomodou no banco dela, onde permaneceram parados por mais alguns instantes antes de ele sair conduzindo o veículo.

Os dois respondem a processo por homicídio com dolo eventual qualificado pelo emprego de meio que resultou em perigo comum e recurso que dificultou a defesa da vítima. 

Juiz nega que tenha dado causa ao atropelamento

O juiz aposentado Fernando Augusto Fontes Rodrigues Júnior negou em depoimento à Justiça que tivesse dado causa ao atropelamento que resultou na morte de Thais Bonatti. Ele afirmou que em momento algum passou pela cabeça dele que estaria causando risco de atropelar alguém quando saiu da boate naquela manhã, após passar a noite no estabelecimento.

Na versão dele à Justiça, após sair com a caminhonete depois de passar um período parado na via, ele sentiu que havia passado sobre alguma coisa e só descobriu que havia atropelado uma ciclista ao descer do veículo e vê-la caída no asfalto.

O réu declarou ainda que sempre permaneceu à direita da via, que seria a mão de segurança, e que ao descobrir que havia atropelado uma jovem naquela curva, ficou traumatizado e chateado, sem se inteirar do que realmente teria ocorrido.

Mal feita

Ele disse que seguia em baixa velocidade e que, ao consultar o Google Maps, seria possível notar que haveria um problema de delineamento da curva, que seria mal feita, com tendência de quem passa pelo local se movimentar.

Sem querer jogar a culpa na vítima, o juiz comentou que se ele fosse um ciclista, faria aquela curva do lado direito e não pela esquerda, como aconteceu, correndo o risco de ficar entre dois veículos. Argumentou ainda que é possível que Thaís já estivesse caída com a bicicleta no asfalto quando aconteceu o atropelamento, após ser atingida por outro veículo.

Não foi oferecido o bafômetro

Apesar de constar no boletim de ocorrência, o juiz negou que os policiais militares que registraram a ocorrência tenham oferecido o teste do bafômetro e que ele tenha recusado. Ele disse que após o atropelamento juntou muita gente no local, alguém deu um tapa no rosto dele e os policiais pediram para que ficasse dentro da viatura.

Depois disso, afirmou que foi levado para a Delegacia Seccional, onde foi registrada a ocorrência, quando ouviu os policiais afirmaram que haviam oferecido o bafômetro e ele teria recusado, o que negou. Ele também negou ter recusado a coleta de sangue para exame de dosagem alcoólica e confirmou que passou pelo exame clínico, tendo executado tudo o que foi pedido.

Aplicativo

Por fim, o réu negou ter falado com outra pessoa que não seja o dono da boate ao sair do estabelecimento, contrariando versão informada à polícia de que um motorista por aplicativo teria oferecido os serviços ao perceber que ele estaria supostamente embriagado.

Sobre ter trafegado por um trecho de via na contramão de direção após deixar a boate, o juiz alegou que só notou isso por meio do vídeo que foi divulgado, pois se recorda pouco dos itinerários. Ainda de acordo com ele, existe deficiência na sinalização no local, o que teria contribuído para que infringisse as leis de trânsito.

Ele afirmou ainda que com relação a uma quase colisão com um moto quando saía da boate, considera uma situação normal de trânsito, pois ao embicar a caminhonete para sair da vaga, viu apenas um caminhão ao longe. Na versão dele, quando a moto surge, os dois reduzem a velocidade e houve um impasse sobre quem passaria. 

Medicamentos

O juiz negou ainda que estivesse sob efeito de medicamentos na ocasião, explicando que o que quis dizer no depoimento à polícia, foi que ele costuma fazer uso de remédio controlado e que esses remédios estariam no organismo dele. Porém, contou que havia feito uso do medicamento pela última vez, entre as 12h e 13h do dia anterior.

O réu disse que teria ido à mesma boate umas duas vezes anteriormente e que teria conhecido a passageira da caminhonete naquela mesma noite. Questionado, ele alegou que não reparou se ela teria ficado seminua e ou levantado a saia enquanto estavam parados com a caminhonete.

Sobre a possibilidade de estar com o zíper da calça aberto quando desceu do veículo, o juiz disse que tem problema de circunferência abdominal e normalmente afrouxa o primeiro botão da calça quando viaja e quando está trabalhando em casa.

Ele negou ter tentado praticar sexo com a passageira na caminhonete e afirmou não entender porque ela também foi denunciada no processo, pois considera que ela não teria tido nenhuma influência no atropelamento.

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