Acordei, tudo escuro ... senti-me sufocado e não entendi o porquê. Consegui ver através de uma fenda a passagem de luz, que vinha não sei de onde. De imediato, não soube onde me encontrava. Tentei mexer o corpo e não consegui. Percebi que estava de “barriga para cima” e sobre mim entulhos.
Estava preso ... apesar disso, conseguia respirar, felizmente. Lembrei que momentos antes, à tarde, estava em casa com minha mãe - que esquentava o resto de uma sopa, e com minha irmã menor, Luíza, que brincava com uma boneca pelada.
No quintal estava Peralta, nosso cachorro, já velho, com a sua coceira crônica. De repente, tudo começou a tremer, paredes trincaram, panelas caíram da mesa, ouvi gritos de minha mãe e sirenes da cidade soaram.
Em seguida, como numa cena de filme, o chão da casa começou a abrir e tentei segurar minha mãe e minha irmã, que se abraçavam em desespero, mas elas caíram no vão gigante que se abriu na cozinha. Agora, minutos depois de acordar, entendi que estou soterrado, só, sem saber se minha mãe, Luíza e Peralta estão vivos ou mortos.
Gritei em alguns momentos, mas, acredito, que não fui ouvido; parei de gritar para guardar forças e oxigênio. Não sei exatamente quanto tempo passou depois que acordei, talvez horas, e adormeci novamente.
Acordei com o bater do sino da igreja da cidade, que fica a dois quilômetros de casa. Rezei por várias vezes para Deus me tirar dali, e salvar com vida a minha família e o meu cão. Vi também caído ao meu lado o cordão que ganhei da minha mãe, com a foto da família. Isso me confortou, de certa maneira.
Meu corpo doía, mas parecia que nada estava quebrado. Passei a sentir sede, frio e fome; o pó cobria meus lábios tornando a sede maior. Passei a gritar novamente, mas não houve resposta. Momentos depois, percebi que pelo buraco que entrava a luz do sol surgiram olhos que vinham em minha direção; inicialmente, eu não consegui saber a distância entre mim e eles (olhos).
Gritei por socorro ao ver tais olhos se aproximando. Mas, percebi que o buraco era muito estreito para a passagem de uma pessoa. Isso me deixou aflito. Os olhos se aproximavam ... foi quando o “detentor dos olhos” saiu do buraco. Pensei até, por um momento, que poderia ser pesadelo, diante das circunstâncias, mas logo percebi ser real: era um rato bem grande!
Achei, no desespero: “vou ser comido por ele”, já que sequer as mãos eu podia mexer. Senti, no entanto, algo de diferente no animal. Ele se aproximou e me olhou de forma afetuosa, como minha mãe. Só sei que depois desse olhar peculiar senti paz e adormeci.
Talvez o leitor incrédulo duvide do que vou relatar agora: quando acordei vi o rato com o cordão no pescoço! O animal, sem se incomodar com o objeto, olhou-me, ao que me pareceu, feliz, com tal enfeite, e foi rumo ao buraco.
Senti algo de bom naquele momento, porém, fiquei triste ao mesmo tempo com a partida do animal, que retornou pelo mesmo buraco, arrastando o cordão e a foto. Permaneci, então, só, novamente, com Deus. E, pensei, desanimado: “morreria ali, soterrado, com fome, frio e sede, sem a companhia de ninguém, ainda que fosse a de um rato”.
Só sei que dormi novamente e acordei ao ouvir em tom baixo, vozes de pessoas. Meu coração se encheu de esperança e pensei: “Deus me salvou”! Passei a gritar e responderam. As vozes das pessoas se intensificaram e ficaram mais próximas; em seguida ouvi barulhos de máquinas.
Depois de horas de escavação, socorristas me encontraram! Colocaram-me numa maca e fizeram os primeiros socorros. As pessoas festejaram ao me encontrarem. Chorei muito ... me acharem vivo nessas circunstâncias, foi milagre! Ao me levarem à ambulância, vi o mesmo rato próximo aos escombros, a me observar, como numa despedida. Não haveria dois ratos com aquele olhar generoso ...
Durante o trajeto da ambulância ao hospital, ouvi o socorrista-chefe falar ao rádio com um colega, sobre o motivo da busca ter se iniciado por aquele buraco (onde fui encontrado), apesar da existência de tantos outros: “um rato saiu do buraco arrastando pelo pescoço um cordão e a foto de uma família”.
