Polícia

Professor de spinning acusa médico de injúria racial em Araçatuba

Caso teria ocorrido no final de dezembro e culminado no desligamento do instrutor por parte do clube onde ele trabalhava

Manu Zambon* - Hojemais Araçatuba
13/01/23 às 09h40

Um professor de spinning, cuja identidade será preservada, de 27 anos, afirma ter sofrido injúria racial de um médico de 57 anos. Ambos residem em Araçatbua (SP) e o caso ocorreu no dia 27 de dezembro, em um clube da cidade.

Dois boletins de ocorrência foram registrados na delegacia; um pelo professor, que acusa o médico de injúria racial e lesão corporal leve; e outro pelo médico, por ameaça.

A reportagem teve acesso aos dois documentos, conversou com a advogada do professor, Letícia Mendes, e tentou contato com o médico, que por sua vez estaria em uma viagem internacional e retornaria apenas em fevereiro.

Som

De acordo com o profissional de educação física, que conversou com a reportagem na presença da advogada, naquele dia ele estava ministrando aula de spinning nesse clube da cidade, onde o médico é sócio.

Segundo o professor, o médico teria invadido a aula, exaltado, pedindo que o som fosse abaixado. Ele teria explicado que a sessão estava acabando e que ele aguardasse. A vítima, nesse caso, ressalta que nas aulas dessa modalidade as músicas geralmente são executadas em um volume alto e a sala tinha proteção acústica.

Explicou

O instrutor ainda conta que depois que a aula terminou, procurou o sócio para explicar que não poderia abaixar o som, pois faz parte da atividade, e o orientou a conversar diretamente com a diretoria do clube.

Para a polícia e para a reportagem, o professor contou que o médico, mesmo na presença de outros associados, começou a empurrá-lo e dar chutes, xingando-o de “preto, palhaço, quem era ele, que era só um funcionário”. Teria dito ainda outras ofensas que constam no BO.

Versão do médico

A reportagem ligou para o local onde o médico atende em Araçatuba, mas foi informada que ele estava em viagem e não havia autorização para passar telefone e e-mail particulares. Portanto, a versão do médico foi baseada apenas no BO registrado no dia 27 por ele, que acusa o professor de ameaçá-lo.

Para a polícia, ele contou que estava na academia fazendo musculação e se sentiu incomodado com o ‘som ensurdecedor’ que vinha da sala de spinning. Que mesmo com o reforço acústico, o volume da música estava alto e tirando a concentração de todos que estavam no espaço.

O médico contou que foi até à sala duas vezes e disse ao instrutor que o som estava causando desconforto. Ele relata que na primeira vez foi ignorado e que na segunda, o instrutor disse que a aula estava terminando.

O sócio disse no BO que voltou para a aula de musculação, mas teria sido interrompido pelo professor, que teria apontado o dedo para a face dele, dizendo que se tivesse alguma reclamação, que fosse feita para a diretoria, para não atrapalhar a aula dele.

O declarante disse que não esboçou reação, somente ouviu o que o professor estava dizendo e fez um gesto para que o professor retirasse o dedo apontado. Ele conta que acabou ocorrendo um desentendimento entre eles e o instrutor falou: “isso não vai ficar assim, você vai ver o que vai lhe acontecer”.

Trabalho

O professor conta que além da injúria e lesão, sofreu com danos trabalhistas provocados pela situação. Para a reportagem, ele e a advogada disseram que o instrutor pediu um posicionamento da empresa, pois ele estava com medo de voltar a frequentar o ambiente, e foi dito a ele para esperar até o dia 30 de dezembro.

No dia 29, o administrativo do clube entrou em contato por mensagem de aplicativo, perguntando quando o profissional voltaria. Ele respondeu no dia 30, pedindo uma posição e contou que havia ficado sabendo que o clube estava procurando outro professor.

(Foto: Reprodução)

O clube não respondeu, retornou apenas no dia 2 de janeiro, perguntando novamente se ele não retornaria. O professor respondeu a mensagem, afirmando que não teve resposta do clube sobre sua situação e explicou novamente sobre o que conversaram no dia 27 (conforme print da conversa na imagem) e que aguardava a posição do clube. Novamente nada foi dito sobre o posicionamento que ele pediu. 

No dia 3, sem resposta, ele foi orientado pela advogada a registrar o BO para se resguardar e voltar ao trabalho. A profissional conta que entrou em contato com o administrador do clube, explicando que teve que fazer BO contra o sócio e quis saber se o professor poderia voltar ao trabalho. A resposta, segundo ela, é que essa não era uma opção.

O responsável pelo clube, que conversou com a advogada, disse que a diretoria estava viajando e quando voltasse resolveria essa situação. “Eu disse que esperaria até fevereiro, sem problemas, mas perguntei se eles pagariam o salário dele. Ele disse que não. O meu cliente trabalha como MEI. Já tinham descontado o salário dele nos dias que ele não foi. O salário dele é verba de subsistência, a noiva dele está desempregada. Pensamos em ir à Justiça trabalhista agora”.

Letícia ainda completa que “a ideia do cliente com o BO não era levantar pauta e sim protegê-lo. Ele não foi mandado embora até agora, só não pode ir lá. Minha ideia é resguardar o meu cliente”.

Clube

A reportagem entrou em contato com o clube e enviou questões por e-mail, para que a diretoria respondesse aos apontamentos. Foi perguntado se a empresa estava acompanhando o caso do professor e o que estava sendo feito. A resposta foi apenas de que estavam acompanhando. Também disseram que no local não tem câmeras, por isso não forneceram as imagens ao prestador de serviço.

O clube ainda afirma que o instrutor não foi desligado, mas se desligou espontaneamente, já que não retornou mais ao local de aula. A diretoria reforçou que não houve “qualquer injuria racial por parte do clube, associados e funcionários”.

A reportagem perguntou ainda sobre o sócio, se ele é integrante da diretoria, e a resposta foi de que ele não faz parte do grupo de responsáveis.

Lula sanciona lei que equipara crime de injúria racial ao racismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou nesta quarta-feira (11) uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que equipara o crime de injúria racial ao de racismo e amplia as penas. A partir de agora, a injúria racial pode ser punida com reclusão de dois a cinco anos. Antes, a pena era de um a três anos.

Caso o crime for cometido por duas ou mais pessoas, a pena será dobrada. Também haverá aumento da pena se o crime de injúria racial for praticado em eventos esportivos ou culturais e para finalidade humorística.

A nova legislação se alinha ao entendimento do Supremo Tribunal Federal que, em outubro do ano passado, equiparou a injúria racial ao racismo e, por isso, tornou a injúria, assim como o racismo, um crime inafiançável e imprescritível.

Diferença

A injúria racial é a ofensa a alguém, um indivíduo, em razão da raça, cor, etnia ou origem. E o racismo é quando uma discriminação atinge toda uma coletividade ao, por exemplo, impedir que uma pessoa negra assuma uma função, emprego ou entre em um estabelecimento por causa da cor da pele.

*Com informações da Agência Brasil

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
  08/07/26 às 16h40
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM POLÍCIA
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.