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Apenas 5% das crianças têm três doses contra covid

Brasil registrou mais de 1,1 mil internações e 25 mortes de crianças e adolescentes pela doença em 2026

Thais Constantino - Hojemais Três Lagoas
23/10/26 às 15h31
Apenas 5% das crianças têm três doses contra covid (Foto: Reprodução | Agência Brasil)

A covid-19 provocou mais de mil internações e 25 mortes entre crianças e adolescentes no Brasil em 2026 . Mesmo diante desse cenário, somente 5% das crianças pequenas do país estão protegidas com as três doses da vacina contra a doença, segundo dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde .

O diretor do PNI, Eder Gatti , afirma que o Brasil possui estoque de vacinas e contratos para garantir o abastecimento. Para ele, a baixa cobertura está relacionada, entre outros fatores, aos ataques contra os imunizantes ocorridos durante a pandemia, inclusive por integrantes do governo daquele período.

Desde 2024, a vacina contra a covid-19 faz parte do calendário básico de vacinação, com recomendação de aplicação aos 6, 7 e 9 meses de idade . As doses, porém, podem ser administradas antes dos 5 anos.

Apesar da recomendação, parte da população ainda opta por não vacinar as crianças devido a informações falsas sobre os imunizantes.

Como consequência, o Brasil continua registrando mortes por covid-19 entre o público infantil. Em 2026, mais de 1,1 mil crianças menores de 14 anos foram hospitalizadas por quadros respiratórios graves provocados pelo coronavírus . Das 25 mortes registradas, 15 ocorreram entre crianças com menos de 2 anos.

Em entrevista à Agência Brasil , Eder Gatti afirmou que a dificuldade para ampliar a vacinação infantil contra a covid-19 é enfrentada em diferentes países, principalmente devido à desinformação sobre as vacinas.

“Tem que pôr na conta de quem de fato deve. A gente compra as vacinas, distribui e cumpre nossa obrigação constitucional, só que há o desincentivo da população para se vacinar. Inclusive, qualquer vacina de covid que é perdida hoje, a culpa é do discurso antivacina. E essa cifra tem que ser colocada na mesa.”

O diretor também explica que a vacina destinada às crianças possui uma característica específica: os frascos são armazenados congelados e precisam ser descongelados antes da aplicação. Depois desse processo, a validade passa a ser de dez semanas . Caso não seja utilizada nesse período, a dose precisa ser descartada.

Vacina contra covid é monitorada

A vacinação infantil contra a covid-19 começou no Brasil em janeiro de 2022 , quase um mês depois de a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizar o imunizante e em meio a discussões entre entidades médicas e o governo federal.

Naquele período, o Ministério da Saúde chegou a propor que a aplicação dependesse de prescrição médica. O então presidente Jair Bolsonaro também declarou que não vacinaria sua filha Laura, de 11 anos, e questionou a necessidade da imunização diante de um suposto baixo número de mortes infantis pela doença.

Entre 2020 e 2022, os principais anos da pandemia, mais de 23 mil crianças de até 11 anos desenvolveram Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) provocada pela covid-19 , enquanto 1.067 morreram.

Em contrapartida, uma pesquisa da Universidade de São Paulo, baseada em dados de 24 cidades brasileiras, apontou que a vacinação reduziu em 97% os casos graves de covid-19 em crianças .

A doença também pode provocar em crianças a Síndrome Inflamatória Multissistêmica , uma reação inflamatória grave que compromete diferentes órgãos. Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou 2.115 casos e 142 mortes de crianças e adolescentes relacionados à síndrome.

Uma pesquisa do IBGE realizada em 2023 mostrou que, mesmo durante a emergência sanitária, 15% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos não haviam sido vacinados . Entre os responsáveis, 40% apontaram medo de reação adversa ou da injeção, 22% consideraram a vacina desnecessária e 18% disseram não confiar no imunizante.

Para Eder Gatti, esses receios não têm fundamento.

“De fato, a gente teve inovações com as plataformas de RNA mensageiro e vetor viral [tecnologias usadas nas vacinas de covid-19], mas todas as vacinas passaram pelos testes de fase um, dois e três, e, desde então, há uma série de estudos de fase quatro mostrando tanto a efetividade quanto a segurança.”

As vacinas utilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) passam por monitoramento contínuo. Suspeitas de reações graves são investigadas e podem levar a mudanças na estratégia de vacinação ou até à suspensão de determinado imunizante.

Entre as mais de 6 milhões de doses aplicadas em crianças durante a pandemia , não houve registro de óbito relacionado à vacinação. Segundo as informações apresentadas, 92% das reações notificadas foram leves e esperadas, como febre e dor no local da aplicação.

O Ministério da Saúde também destaca que eventos como miocardite e trombose ocorrem em proporções muito maiores entre pessoas infectadas pela covid-19 do que entre aquelas vacinadas.

“Se você procurar os trabalhos científicos sobre a vacina tríplice viral, que veio nos anos 80, você vai encontrar uns 5 mil. Se você pegar a vacina da febre amarela, que é da década de 30, vai ser a mesma coisa. Mas se você procurar sobre a vacina da covid, você vai ter 20 mil trabalhos científicos. A gente pode dizer que essa é a vacina mais estudada de todas”, enfatiza o diretor do PNI.

Como a maior parte da população adulta brasileira foi vacinada durante a pandemia, desde 2024 o governo federal passou a adotar uma estratégia direcionada principalmente às crianças e aos grupos vulneráveis , como idosos, imunocomprometidos e pessoas com deficiência, que devem receber reforços periódicos.

Cobertura de outras vacinas também avançou

Eder Gatti, que está à frente do PNI desde 2023, participou nesta semana da 28ª Jornada Nacional da Sociedade Brasileira de Imunizações , no Rio de Janeiro. Segundo ele, o orçamento do programa quase dobrou nos últimos anos, passando de R$ 5 bilhões para quase R$ 10 bilhões previstos para o próximo ano.

Apesar das dificuldades relacionadas à vacinação contra a covid-19, outras vacinas do calendário infantil apresentaram aumento na cobertura. Gatti atribui o avanço principalmente à regularização dos estoques e às ações de microplanejamento, que ajudam os municípios a utilizar melhor a estrutura disponível para vacinação.

Em 2022, durante a retomada dos serviços básicos de saúde após a pandemia, 12 das 16 vacinas oferecidas no primeiro ano de vida apresentavam cobertura inferior a 80% , e apenas uma alcançava a meta de 90%.

No ano passado, sete imunizantes ultrapassaram 90% de cobertura.

Ainda assim, duas vacinas permanecem com índices inferiores a 80%, enquanto outras sete registram cobertura entre 80% e 90%. Entre elas está a segunda dose da tríplice viral , que protege contra o sarampo, doença altamente infecciosa que vem provocando surtos em diversos países das Américas.

“A gente está falando não só de vidas salvas, mas de menos ocupação do sistema de saúde. O Programa Nacional de Imunização traz retorno à sociedade e deve ser muito preservado”, defendeu Gatti.

Outro resultado citado pelo diretor envolve a incorporação da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) para gestantes e do anticorpo monoclonal contra a doença para prematuros, realizada no ano passado. Desde então, os casos de bronquiolite em bebês menores de seis meses caíram mais de 50%.

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