As hepatites virais podem passar anos sem provocar sintomas aparentes e, mesmo assim, causar danos progressivos ao fígado. Durante o Julho Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção e o controle dessas infecções, especialistas reforçam a importância da testagem, da vacinação e do acompanhamento médico para evitar complicações como fibrose, cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado.
De acordo com o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 826.292 casos confirmados de hepatites virais entre 2000 e 2024. Em Mato Grosso do Sul, foram 10.199 casos no mesmo período. O levantamento aponta ainda que, em 2024, o Estado registrou 173 casos de hepatite A, 91 de hepatite B e 178 de hepatite C.
O boletim também traz um recorte específico sobre Campo Grande. Em 2024, a Capital apresentou taxa de incidência de hepatite A de 17,2 casos por 100 mil habitantes, cerca de 2,9 vezes superior à taxa estadual, que foi de 6,0 casos por 100 mil habitantes. Além disso, dados da Secretaria de Estado de Saúde mostram que Mato Grosso do Sul realizou mais de 355,4 mil testes rápidos para hepatites B e C em 2024.
Segundo a gastroenterologista e hepatologista Dra. Paula Ferreira Lacerda, do Hospital do Coração MS, o caráter silencioso das hepatites está relacionado à forma como o fígado reage à inflamação.
“O fígado é um órgão que não dói quando está inflamado. Por isso, as hepatites virais podem passar anos sem dar nenhum sintoma aparente. A pessoa se sente bem e saudável, enquanto o vírus age silenciosamente e o fígado vai sendo danificado aos poucos”, explica.
A médica destaca que, justamente por essa característica, os exames de rotina são fundamentais para detectar a infecção antes que ela provoque danos mais avançados. “Realizar exames de rotina é a única forma segura de descobrir a doença precocemente”, afirma.
As hepatites virais são infecções que atingem o fígado e podem ser causadas por diferentes vírus. A hepatite A é transmitida principalmente por água e alimentos contaminados e, na maioria das vezes, não se torna crônica. Já a hepatite B pode ser transmitida por relações sexuais sem preservativo, contato com sangue contaminado e da mãe para o bebê durante o parto, podendo evoluir para a forma crônica.
A hepatite C é transmitida principalmente pelo contato com sangue contaminado, como em situações de compartilhamento de agulhas, seringas ou materiais perfurocortantes sem esterilização adequada. A hepatite D ocorre apenas em pessoas que já têm hepatite B e é considerada uma forma mais agressiva de inflamação do fígado. A hepatite E, por sua vez, também está relacionada ao consumo de água e alimentos contaminados e exige atenção especial em gestantes.
Quando a hepatite B ou C não é diagnosticada, a inflamação contínua pode provocar a formação de cicatrizes no tecido do fígado, processo chamado de fibrose. Com o passar dos anos, o órgão pode endurecer, desenvolver cirrose, perder capacidade de funcionamento e apresentar risco aumentado para câncer de fígado.
“A boa notícia é que tudo isso pode ser evitado com o diagnóstico feito a tempo”, reforça a especialista.
Entre as formas de prevenção estão manter a vacinação em dia, usar preservativo nas relações sexuais, lavar bem as mãos e os alimentos, consumir água filtrada ou tratada e não compartilhar escovas de dente, lâminas de barbear, alicates de unha, seringas ou qualquer objeto que possa ter contato com sangue. Também é importante observar a esterilização de materiais utilizados em procedimentos como tatuagens, piercings, manicure e pedicure.
A população também deve estar atenta a sinais, como cansaço excessivo sem motivo aparente, urina escura, pele ou olhos amarelados, fezes claras, dor ou desconforto no lado direito da barriga, enjoos frequentes e falta de apetite persistente. No entanto, a ausência desses sintomas não descarta a possibilidade de infecção.
Alguns grupos devem ter atenção redobrada e realizar exames com mais frequência. É o caso de pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1993, pessoas que usaram ou usam drogas injetáveis, quem fez tatuagem ou piercing em locais sem material descartável, pessoas com múltiplos parceiros sexuais sem uso de preservativo, filhos de mães com hepatite B ou C e pacientes em diálise renal.
