Quando entrou em um processo seletivo do Senai, Eugênio Dias enxergava poucas possibilidades de construir uma carreira em Três Lagoas. O comércio parecia ser praticamente a única alternativa disponível. O curso técnico de seis meses mudou esse horizonte e abriu a porta para uma trajetória profissional que já dura 16 anos.
“Entrei na empresa em 2010, quando ainda era a antiga Fibria. Antes disso, participei de uma seleção no Senai, passei na prova e fiz um curso técnico de seis meses. Depois fui contratado para a área florestal e, mais tarde, passei em outro processo seletivo para a área industrial, onde estou até hoje”, relembra.
Atualmente, aos 42 anos, Eugênio trabalha como operador na área de secagem de celulose da Suzano. Foi em Três Lagoas que formou sua família: a esposa é do município e os dois filhos, um casal, nasceram na cidade.
“Estou neste ramo há 16 anos e, sem sombra de dúvida, foi uma das melhores escolhas que fiz na vida: entrar nessa empresa e fazer parte dessa história. Espero permanecer por mais 16 anos”, afirma.
A estabilidade conquistada no setor permitiu que ele planejasse a vida, ampliasse a renda e construísse uma carreira que não imaginava quando começou a procurar trabalho.
“O crescimento financeiro foi muito importante para mim. Não posso ser hipócrita e dizer que tudo o que tenho hoje não é devido ao ramo da celulose”, diz.
A experiência de Eugênio ajuda a traduzir uma transformação que já não cabe apenas dentro das grandes unidades industriais. Depois de mais de 15 anos de produção de celulose, Três Lagoas passou a reunir transportadoras, oficinas, empresas de engenharia, alimentação, tecnologia, automação, laboratórios e prestadores de serviços especializados.
A indústria alterou o perfil econômico do município e abriu novas possibilidades profissionais para trabalhadores que, como Eugênio, antes enxergavam um mercado mais restrito.
“Com a vinda dessas indústrias de celulose para Três Lagoas, sem sombra de dúvida, tivemos uma perspectiva de vida muito melhor, tanto em relação aos salários quanto ao desenvolvimento profissional”, afirma.
“Antes, a única coisa que eu enxergava era trabalhar no comércio. Hoje existe uma mão de obra qualificada que atua nesse ramo, e isso mudou completamente a realidade da cidade.”
É essa economia formada ao redor das fábricas que o Governo de Mato Grosso do Sul, sob a gestão de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, busca aprofundar.
Mais do que atrair grandes investimentos, o desafio agora é fazer com que os trabalhadores locais ocupem as vagas mais qualificadas e que empresas sul-mato-grossenses participem dos contratos gerados pela atividade industrial.
Quando a indústria ultrapassa os portões
A primeira unidade da atual Suzano entrou em operação em Três Lagoas em 2009. A Eldorado Brasil iniciou a produção em 2012, e a segunda linha da Suzano foi inaugurada em 2017.
Juntas, as plantas instaladas no município têm capacidade para produzir mais de cinco milhões de toneladas de celulose por ano.
A escala da produção ajuda a explicar por que o setor influencia atividades que estão fora do chão de fábrica. As unidades industriais precisam de manutenção, segurança, limpeza, transporte, recursos humanos, tecnologia, alimentação, peças e serviços ambientais.
Quanto maior a participação de empresas locais nesses contratos, maior a parcela da riqueza que permanece circulando em Três Lagoas.
Em 2025, 532 pequenas e médias empresas sediadas no município forneceram produtos ou serviços à Suzano. Segundo a companhia, os negócios movimentaram R$ 1,7 bilhão.
O volume demonstra a dimensão alcançada pela cadeia. Seu impacto concreto, porém, aparece quando um contrato permite que uma oficina contrate funcionários, uma empresa de alimentação amplie a cozinha ou um prestador de serviço conquiste receita suficiente para investir e planejar os próximos anos.
Para uma pequena empresa, tornar-se fornecedora de uma grande indústria pode significar mais do que conquistar um cliente. As exigências de segurança, qualidade, regularidade fiscal e cumprimento de prazos obrigam o negócio a se profissionalizar e podem abrir portas para novos contratos.
O caminho, entretanto, não é simples. Falta de capital, documentação, estrutura administrativa e orientação ainda impede que parte dos empreendedores locais dispute essas oportunidades. Sem apoio, empresas instaladas no município podem perder espaço para fornecedores de outros estados.
“O papel do Estado, nesse ponto, não se limita à atração das grandes fábricas. Inclui criar condições para que empresas locais se formalizem, ampliem sua capacidade e disputem parte dos contratos gerados pela industrialização”, afirma Riedel.
Segundo o governador, os resultados precisam ser avaliados para além dos valores produzidos e exportados.
“O resultado precisa ser medido não apenas pelo valor exportado, mas pelo número de fornecedores locais, pelos postos mantidos e pela renda que permanece circulando no município.”
