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Celulose transforma carreiras e amplia oportunidades além das fábricas em Três Lagoas

Após mais de 15 anos de industrialização, ações do Governo Riedel reúnem trabalhadores e pequenos fornecedores.

Redação - Hojemais - Três Lagoas 
09/09/26 às 13h47
(Foto: Eugenio Dias - Imagem: Divulgação)

Quando entrou em um processo seletivo do Senai, Eugênio Dias enxergava poucas possibilidades de construir uma carreira em Três Lagoas. O comércio parecia ser praticamente a única alternativa disponível. O curso técnico de seis meses mudou esse horizonte e abriu a porta para uma trajetória profissional que já dura 16 anos.

“Entrei na empresa em 2010, quando ainda era a antiga Fibria. Antes disso, participei de uma seleção no Senai, passei na prova e fiz um curso técnico de seis meses. Depois fui contratado para a área florestal e, mais tarde, passei em outro processo seletivo para a área industrial, onde estou até hoje”, relembra.

Atualmente, aos 42 anos, Eugênio trabalha como operador na área de secagem de celulose da Suzano. Foi em Três Lagoas que formou sua família: a esposa é do município e os dois filhos, um casal, nasceram na cidade.

“Estou neste ramo há 16 anos e, sem sombra de dúvida, foi uma das melhores escolhas que fiz na vida: entrar nessa empresa e fazer parte dessa história. Espero permanecer por mais 16 anos”, afirma.

A estabilidade conquistada no setor permitiu que ele planejasse a vida, ampliasse a renda e construísse uma carreira que não imaginava quando começou a procurar trabalho.

“O crescimento financeiro foi muito importante para mim. Não posso ser hipócrita e dizer que tudo o que tenho hoje não é devido ao ramo da celulose”, diz.

A experiência de Eugênio ajuda a traduzir uma transformação que já não cabe apenas dentro das grandes unidades industriais. Depois de mais de 15 anos de produção de celulose, Três Lagoas passou a reunir transportadoras, oficinas, empresas de engenharia, alimentação, tecnologia, automação, laboratórios e prestadores de serviços especializados.

A indústria alterou o perfil econômico do município e abriu novas possibilidades profissionais para trabalhadores que, como Eugênio, antes enxergavam um mercado mais restrito.

“Com a vinda dessas indústrias de celulose para Três Lagoas, sem sombra de dúvida, tivemos uma perspectiva de vida muito melhor, tanto em relação aos salários quanto ao desenvolvimento profissional”, afirma.

“Antes, a única coisa que eu enxergava era trabalhar no comércio. Hoje existe uma mão de obra qualificada que atua nesse ramo, e isso mudou completamente a realidade da cidade.”

É essa economia formada ao redor das fábricas que o Governo de Mato Grosso do Sul, sob a gestão de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, busca aprofundar.

Mais do que atrair grandes investimentos, o desafio agora é fazer com que os trabalhadores locais ocupem as vagas mais qualificadas e que empresas sul-mato-grossenses participem dos contratos gerados pela atividade industrial.

Quando a indústria ultrapassa os portões

A primeira unidade da atual Suzano entrou em operação em Três Lagoas em 2009. A Eldorado Brasil iniciou a produção em 2012, e a segunda linha da Suzano foi inaugurada em 2017.

Juntas, as plantas instaladas no município têm capacidade para produzir mais de cinco milhões de toneladas de celulose por ano.

A escala da produção ajuda a explicar por que o setor influencia atividades que estão fora do chão de fábrica. As unidades industriais precisam de manutenção, segurança, limpeza, transporte, recursos humanos, tecnologia, alimentação, peças e serviços ambientais.

Quanto maior a participação de empresas locais nesses contratos, maior a parcela da riqueza que permanece circulando em Três Lagoas.

Em 2025, 532 pequenas e médias empresas sediadas no município forneceram produtos ou serviços à Suzano. Segundo a companhia, os negócios movimentaram R$ 1,7 bilhão.

O volume demonstra a dimensão alcançada pela cadeia. Seu impacto concreto, porém, aparece quando um contrato permite que uma oficina contrate funcionários, uma empresa de alimentação amplie a cozinha ou um prestador de serviço conquiste receita suficiente para investir e planejar os próximos anos.

Para uma pequena empresa, tornar-se fornecedora de uma grande indústria pode significar mais do que conquistar um cliente. As exigências de segurança, qualidade, regularidade fiscal e cumprimento de prazos obrigam o negócio a se profissionalizar e podem abrir portas para novos contratos.

O caminho, entretanto, não é simples. Falta de capital, documentação, estrutura administrativa e orientação ainda impede que parte dos empreendedores locais dispute essas oportunidades. Sem apoio, empresas instaladas no município podem perder espaço para fornecedores de outros estados.

“O papel do Estado, nesse ponto, não se limita à atração das grandes fábricas. Inclui criar condições para que empresas locais se formalizem, ampliem sua capacidade e disputem parte dos contratos gerados pela industrialização”, afirma Riedel.

Segundo o governador, os resultados precisam ser avaliados para além dos valores produzidos e exportados.

 

“O resultado precisa ser medido não apenas pelo valor exportado, mas pelo número de fornecedores locais, pelos postos mantidos e pela renda que permanece circulando no município.”

(Foto: Empresa do Romulo Ogeda Diogo - Imagem: Divulgação)

O crescimento visto do pequeno negócio

O empresário Romulo Ojeda Diogo acompanha a transformação econômica de Três Lagoas desde 2011. Há mais de sete anos à frente de uma empresa instalada no município, ele também mantém uma filial em Inocência.

Seu negócio atua no comércio varejista e possui um centro de distribuição de utensílios para bares, lanchonetes e alojamentos. Esse tipo de atividade cresce junto com o aumento da população, das obras e da demanda por alimentação e hospedagem.

Segundo Romulo, a chegada da Eldorado Brasil e de outras empresas ao Distrito Industrial marcou o início de um novo ciclo.

“A gente acompanha esse crescimento desde 2011, com a implantação da Eldorado e de outras empresas. Foi quando começou esse grande desenvolvimento do setor de celulose, e desde então Três Lagoas segue evoluindo”, afirma.

Para o empresário, o crescimento industrial abriu espaço para novos empreendimentos e ampliou a circulação de renda.

“Praticamente todo ano a gente vê que Três Lagoas é o município que mais cresce dentro do Estado. É um desenvolvimento que vem acontecendo há bastante tempo e que cria novas oportunidades para quem empreende”, ressalta.

Romulo também relaciona a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados, a UFN3, à continuidade desse processo.

“A volta desse projeto vem ao encontro do que o município já oferece hoje. O crescimento gera demanda por moradias, comércio e serviços, fortalecendo toda a economia local”, afirma.

Os efeitos do ciclo industrial também aparecem em Inocência, onde o empresário abriu uma filial em 2023. A construção da fábrica de celulose da Arauco acelerou a movimentação econômica do município.

“Inocência também sente um impacto muito grande. A gente acompanha de perto essa evolução e percebe como os investimentos estão movimentando toda a região”, diz.

A trajetória da empresa mostra como a industrialização de Três Lagoas se conecta a outros municípios do chamado Vale da Celulose. A expansão não fica restrita às fábricas, mas alcança atividades comerciais, logísticas e de prestação de serviços distribuídas pelo leste de Mato Grosso do Sul.

Emprego precisa se transformar em carreira

Três Lagoas encerrou 2025 com 44.972 empregos formais e saldo positivo de 1.272 vagas. O setor de serviços respondeu por parte importante das oportunidades, reflexo de uma indústria que movimenta atividades muito além da produção direta de celulose.

Os dados também revelam um desafio para quem depende do salário para organizar a vida familiar. A taxa de rotatividade chegou a 66,4%, e o tempo médio de permanência no emprego ficou em 13,9 meses.

Para uma família, um vínculo curto pode dificultar a contratação de um financiamento, a organização das despesas domésticas e o planejamento da educação dos filhos.

Por isso, abrir vagas representa apenas a primeira etapa. O passo seguinte é criar condições para que o trabalhador permaneça empregado, se qualifique e avance para funções com melhores salários e maior estabilidade.

A trajetória de Eugênio mostra o que essa continuidade pode significar. Ele começou na área florestal, passou por outro processo seletivo e ingressou na operação industrial, onde permanece até hoje.

Na cadeia da celulose, as oportunidades envolvem operações florestais, transporte, química, mecânica, eletrotécnica, automação, logística, segurança do trabalho e controle de qualidade.

“É aí que entra a importância da qualificação profissional”, reforça Riedel.

O Senai ofereceu no município cursos técnicos em Mecânica, Automação Industrial, Celulose e Papel, Eletrotécnica, Logística e Química.

O MS Qualifica também levou formações relacionadas à produção de papel e às operações florestais. Em todo o Estado, o programa anunciou 88 turmas para 1.420 trabalhadores, com investimento próximo de R$ 3 milhões.

A oferta de cursos, no entanto, precisa funcionar como passagem para o emprego, e não apenas como entrega de certificados. Para medir o impacto, será necessário acompanhar quantos alunos foram contratados, em quais funções ingressaram e quantos permaneceram trabalhando depois de seis meses ou um ano.

Na estratégia conduzida pelo Governo estadual, a indústria cria a demanda, enquanto a política pública precisa preparar quem já vive em Mato Grosso do Sul para ocupar as oportunidades.

Sem essa ponte, a economia pode crescer e, ainda assim, manter as vagas mais qualificadas fora do alcance de parte dos moradores locais.

Uma cidade ligada ao mercado mundial

Em 2025, Três Lagoas exportou US$ 3,05 bilhões. Mais de 90% desse valor veio da celulose, enviada principalmente para a China, além de mercados como Estados Unidos, Holanda, Itália e Argentina.

A força exportadora mostra a dimensão internacional alcançada pela atividade. Ao mesmo tempo, revela uma dependência elevada de um único produto.

Oscilações no preço internacional da celulose, no câmbio ou na demanda externa podem afetar uma parcela importante da economia local.

A saída não está em abandonar uma cadeia já consolidada, mas em aprofundá-la. Isso significa produzir no Estado uma parte maior das peças, dos equipamentos, dos componentes e dos serviços utilizados pelas fábricas.

Em maio, o Governo estadual assinou um protocolo de intenções com o grupo chinês Broad Wire, que estuda instalar em Três Lagoas uma fábrica de arames usados no enfardamento da celulose.

O projeto ainda precisa cumprir as etapas necessárias para se transformar em investimento efetivo, mas exemplifica a tentativa de atrair para perto das produtoras fornecedores que atualmente operam em outros estados ou países.

“A lógica é reduzir custos de transporte para as fábricas e, ao mesmo tempo, gerar novos empregos e atividades industriais no Estado”, afirma Riedel.

A instalação de empresas fornecedoras pode ampliar a variedade de vagas disponíveis e diminuir a dependência de um único tipo de operação.

Para o trabalhador, isso significa a possibilidade de mudar de emprego sem precisar deixar a cidade. Para o pequeno negócio, representa novos clientes e menor dependência de uma única companhia.

Crescimento também pressiona a cidade

Três Lagoas representa a etapa mais madura do Vale da Celulose, região formada por 12 municípios ligados à produção florestal, à indústria e à logística.

A experiência do município mostra que o crescimento econômico não resolve automaticamente todos os problemas urbanos.

A expansão aumenta a procura por moradia, pressiona o valor dos aluguéis, movimenta o trânsito e amplia a demanda sobre os serviços de saúde, educação e formação profissional.

Também demonstra que gerar empregos não significa, por si só, garantir estabilidade. Os dados de rotatividade indicam que muitos trabalhadores ainda permanecem pouco tempo nos postos ocupados.

Pequenos fornecedores precisam de apoio para ingressar na cadeia. Trabalhadores necessitam de cursos relacionados às vagas efetivamente existentes. O município precisa crescer sem transformar a oportunidade econômica em aumento descontrolado do custo de vida ou sobrecarga dos serviços públicos.

Para Riedel, o próximo passo é aprofundar os vínculos entre as grandes indústrias e a economia estadual, ampliando as compras locais, atraindo fornecedores e qualificando trabalhadores para funções mais especializadas.

A estratégia reconhece que os números das exportações e dos investimentos privados não bastam para demonstrar desenvolvimento. É necessário observar quanto da renda permanece na cidade, quantos empregos se tornam carreiras e quantos negócios locais conseguem crescer junto com a cadeia industrial.

Fazer a riqueza circular

Em Três Lagoas, a celulose já não é uma atividade restrita aos portões das fábricas. Ela está presente na oficina que realiza manutenção, no caminhão que transporta matéria-prima, no laboratório que analisa a produção, na sala de aula que forma técnicos e no pequeno comércio que atende trabalhadores e empresas.

A trajetória de Eugênio representa uma das possibilidades abertas por esse processo. O curso técnico conduziu ao primeiro emprego no setor, a experiência permitiu uma mudança de área e a permanência na indústria trouxe estabilidade para construir a família e planejar o futuro.

“Foi aqui que construí minha família”, afirma.

O desafio do próximo ciclo é fazer com que histórias como a dele deixem de ser exceção e se tornem parte de uma estrutura econômica capaz de oferecer qualificação, estabilidade e perspectivas duradouras.

Isso exige acompanhar não apenas o número de empresas atraídas ou o volume exportado, mas a participação dos fornecedores locais, a permanência dos trabalhadores nos empregos e a capacidade da cidade de responder às pressões provocadas pelo crescimento.

Depois de mais de 15 anos de industrialização, Três Lagoas já demonstrou que uma grande fábrica pode transformar a economia de um município. A próxima etapa é garantir que essa transformação se aprofunde e chegue, com maior estabilidade, a quem trabalha, empreende, paga aluguel e sustenta a família. .

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