Com mais de 12 países visitados, 40 cidades espalhadas pelo Brasil e mundo, e mais de 50 cemitérios percorridos, o projeto Escaping from life (ou Fugindo da Vida, em português), dos fotógrafos araçatubenses Clayton Khan, 36 anos, e Duda Maués, 23 anos, ganha um canal na plataforma de compartilhamento de vídeos, o Youtube.
A iniciativa surgiu há três anos e meio, com o objetivo de quebrar tabus sobre a morte e sepultamentos, revelando como cada cultura lida e constitui a atmosfera de morada eterna. Por meio de fotografias autorais, os profissionais revelam a luz que garantem sobejar em cemitérios de todo mundo.
Além das imagens, o projeto passa a contar, a partir deste sábado (18), com um canal para divulgar webvídeos que retratam os ensinamentos sobre a diversidade e riqueza nos ambientes de sepultamento percorridos nas viagens. Além disso, Maués e Khan contam que querem consolidar o trabalho realizado como manifestação artística e preservação do patrimônio histórico, cultural e familiar.
O acesso aos vídeos poderá ser feito de duas maneiras; pelo site do projeto ou por meio do próprio canal, que leva o nome da iniciativa.
“A morte é natural para nós e para todos – é a nossa única certeza. Vivemos correndo dela, mas sabemos que ela virá”, destaca Maués. “As pessoas não querem dialogar sobre esse assunto. Estamos sempre tentando evitá-lo de alguma forma. Para amenizar esse tabu, propomos uma reflexão com delicadeza e respeito sobre esse momento implacável na vida de qualquer ser humano”, comenta Khan.
A ideia de lançar webvídeos veio para contar um pouco do dia a dia dos fotógrafos e matar a curiosidade das pessoas que o questionavam sobre as viagens. “Ao longo do projeto, percebemos que as pessoas têm muita curiosidade sobre as viagens e até mesmo sobre a dinâmica de passar um dia no cemitério, onde comer, beber água, descansar. Não é incomum ouvirmos ‘nossa, mas você bebe água de cemitério? E tem gosto de defunto?’”, relata Khan.
Estreia chilena
O vídeo de estreia retrata a experiência mais recente da dupla, que foi a expedição em alguns pontos pelo Chile. De acordo com Maués, um dos pontos altos da viagem, e que é mostrado por meio de vídeo, foi a experiência no Cemitério General, que fica em Santiago. É considero um dos maiores da América do Sul, com cerca de dois milhões de enterros.
O que chamou a atenção da dupla foi que o local desenvolve visitas guiadas, organizadas por atores caracterizados de personalidades que estão enterradas ali. Eles fazem um papel de guia, porém encenando para contar histórias de políticos, artistas, entre outros, que foram importantes para o país.
“São dezenas de personagens. Tem as visitas durante o dia e à noite. É uma maneira de atrair turistas e contar história de forma lúdica, que é bem interessante. Fizemos a visita à noite e tem as partes que a gente passa uns sustos”, lembra Khan.
Após divulgar o trabalho no Chile, eles querem soltar outros episódios sobre os demais países já visitados, como México, Inglaterra, Itália, Peru, Bolívia, entre outros.
Múmias
Um dos vídeos que entrará no ar mostrará um dos lugares mais curiosos e diferentes que visitaram, que foi o cemitério de Chauchilla, localizado em um deserto a 30 quilômetros de Nazca, no Peru.
O local é conhecido por ser uma necrópole pré-incaica com múmias e restos arqueológicos. Khan explica que até então tinham visitado apenas locais mais tradicionais de sepultamento e naquele momento eles tiveram o primeiro contato com corpos mumificados há mais de 2 mil anos.
“É um dos poucos lugares no mundo onde é possível ver múmias que foram originalmente enterradas. Elas eram enterradas em posição fetal, viradas para o leste, direção em que o sol nasce, pois estas civilizações acreditavam que as pessoas deveriam ir para o mundo dos mortos na mesma posição que vieram a este e retornando à vida com o sol nascente”, conta Duda.
Eles ressaltam que a ambição é visitar os cinco continentes. Os locais que mais inspiram são Japão, China, Índia, Nepal, Mongólia, África e Egito.
Dificuldades
Khan e Maués viajam no estilo mochilão e custeiam a viagem por meio dos cursos que ministram na área de fotografia e com a venda de produtos com a marca Escaping from life, como bonés e camisetas. Também buscam patrocínio para ajudar nos custos.
Por trás de cada clique ou take, há muitas aventuras e também dificuldades. Eles lembram de uma viagem que fizeram em um ônibus malconservado, numa noite com temperatura muito baixa, atravessando a Bolívia. Como as mochilas de ambos ficaram no bagageiro, acabaram passando muito frio.
“Já enfrentamos lugares de difícil acesso, já percorremos a pé 15 quilômetros com o mochilão nas costas, sendo que a água acabou no meio desse percurso. Já tivemos que ficar sem banho dois dias, dormindo entre terminais rodoviários e aeroportos”, completa Maué.
O material do projeto também está disponível no perfil no Instagram (@escapingfromlife) e na página no Facebook.