Cici Picoloto é um dos nomes mais icônicos da sociedade araçatubense. Nascida em Araçatuba em janeiro de 1930, ela conhece como ninguém os acontecimentos que se desenrolaram na cidade nos últimos 90 anos.
Durantes anos, Cici organizou grandes festas em sua icônica residencia, sendo uma das grandes anfitriãs araçatubense. Sempre vestindo grande grifes, seu nome é associado ao estilo e elegância. É quase improvável que algum estilista europeu tenha sido excluído do closet da pecuarista.
Irmã do ex-prefeito Waldir Felizola de Moraes e do médico Olair Felizola de Moraes, ela relembra com carinho da família, que assim como ela, sempre fora apaixonada por Araçatuba.
Solidária, ela auxiliou em diversas causas solidárias da cidade e região. É sempre lembrada com carinho pela maneira cordial como trata todos os que conhece e convive.
Em conversa ao Hojemais VIP , Cici contou um pouco de sua vida e sua relação com a sociedade de Araçatuba ao longo de seus 90 anos.
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Como foi sua infância?
Eu morava primeiro na fazenda. Logo depois eu estudei no colégio Nossa Senhora Aparecida. Isso foi em 1937, 1938. Estava começando o colégio, era uma casa simples.
E estava começando a lateral do colégio. Éramos em quatro internas, eu, a Ernestina Benes e duas da família Castilho. Eu era interna porque meus pais moravam na fazenda.
Naquela época, a criação era diferente de hoje. Os pais falavam e os filhos obedeciam. Por exemplo, na hora do almoço, os pais conversavam e os filhos só ouviam os pais conversarem.
Hoje o pessoal usa muito o celular, quase a família inteira. Antigamente, mesmo calados, a gente aprendia.
E o período de estudos fora?
Estudei em São Paulo, quando terminou a segunda grande guerra eu estava lá, no colégio Santa Inês. Estudei por uns quatro ou cinco anos lá. Contribuiu para o meu caráter.
Quando eu estava em São Paulo para estudos, vi os militares voltando da segunda grande guerra. O que mais me emocionou foi ver eles entrando e cantando o hino deles, que emociona. E os papeizinhos caindo na avenida São João, parecia prata.
Como a senhora conheceu seu esposo Clóvis Picoloto?
Eu conheci o Clóvis quando saí do internato. Moramos dois ou três anos em Campinas, mas sem deixar a casa de Araçatuba. Eu conheci o Clóvis jogando futebol. Naquela época os namoros eram de longe, namorava-se de longe.
Até que um dia ele conseguiu conversar com meu pai. Depois de um ano eu me casei com ele, em Araçatuba, no ano de 1951.
Ele era parceiro em tudo. Dentro de casa, nas festas. Ele me incentivava como mulher, então eu sempre era a mais bonita, a mais elegante. Além de me incentivar a ser uma mulher vanguardista.
A senhora foi a 2ª mulher a dirigir um carro em Araçatuba?
Foi sim, eu precisava levar as crianças para um passeio e o Clóvis falou para eu pegar o carro, já que eu sabia dirigir. Levei as crianças, nos divertimos, mas na época foi um escândalo, causou um alvoroço na minha família.
De onde vem essa elegância?
Criaram essa elegância. Eu não me acho elegante. Eu não sei onde é que sou elegante, educada e com modos eu tenho.
Algumas marcas que já usou?
Cavali, Prada, Gutti, Givenchy, Chanel, com as bolsas e sapatos, e o Ferragano. Quando eu era mocinha não tinha, mas depois sim.
Quando começou a cuidar dos negócios da família?
Começou 3 anos antes do meu marido falecer, meu pai falou que eu precisava trabalhar e cuidar das minhas coisas, ser uma mulher independente. Sigo até hoje. Vou todos os dias pro escritório.
Essa vitalidade vem do trabalho?
O trabalho enobrece a pessoa, ajuda a cabeça.
A senhora teve 3 filhas, como foi a criação delas?
Não foi como a minha criação, já era bem mais livre, mas com certa rigidez.
Criação de neto é diferente de filho?
Avó é mãe duas vezes e faz tudo o que o neto quer, a gente deseduca.
Que legado que seu pai deixou pra senhora e pros seus irmão?
Caráter, honestidade e trabalho foi a melhor coisa que ele pode nos deixar.
Hoje a senhora tem bisnetos, como é o contato com eles?
É maravilhoso, porque na minha idade ter contato com uma criança é muito gratificante porque é alegria, inocência e me renova.
Com relação as festas, como era o carnaval no passado?
Era maravilhoso, tinha sorteio de mesas, vinham pessoas de fora, tinham blocos da própria sociedade, saímos na rua. Era uma coisa muito linda. Eu já fui até juíza de fantasia nas competições de blocos.
Sente falta desse
frisson
que tinha no passado?
Demais, porque hoje não tem nada disso, mudou tudo.
O que mais sente saudade?
Aqueles bailes maravilhosos de debutantes, baile da rainha da primavera. Tudo isso movimentava o comércio de Araçatuba, as pessoas. Isso me deixou saudades e marcou muito, principalmente as juninas que saímos na rua a caráter.
Nessa questão de envolvimento com a cidade, gostaria que me falasse sobre as famílias que viu chegar e até hoje são amigos de longa data.
A família Gotardi, que veio de Olímpia. A família Ribeiro, os Aguiar e muitas outras que chegaram e hoje fazem parte da nossa grande sociedade. A minha família também veio de fora, meu avô veio de Minas Gerais, em 1914.
A senhora conheceu muito bem Odette Costa, a colunista social que noticiava o acontecimento da sociedade araçatubense. Como ela era?
Demais, ela foi uma grande mulher e grande colunista. Ela descrevia as coisas e você conseguia ver o que ela escrevia. Além disso, ela fazia muitas dessas festas e ajudava também.
Existe alguma coisa que queria ter feito e não fez?
Muitas, mas agora não há mais tempo.
Viagens a senhora fez muitas, tem alguma que foi marcante?
A primeira vez que fui à Paris. É uma cidade maravilhosa e até hoje eu amo Paris. Quando eu posso eu vou lá.
Alguma outra que não se pode deixar de visitar?
Veneza! Eu amo Veneza porque é muito romântico. São incríveis aquelas casa sobre a água.
Não gostou de alguma viagem?
Saindo de casa, todas viagens são boas. De todas as coisas ruins, você sempre tira algo bom.
Tem tempo para os amigos?
Tenho, são poucas as reuniões porque a maior parte faleceu, mas sempre que possível nos reunimos.
Hoje em dia, quais são seus hobbies?
Gosto de antiguidades, sempre que eu posso faço uma visita em algum antiquário em São Paulo ou aqui mesmo.
A paixão pela arquitura e por móveis clássicos é algo que vem desde pequeno?
Sim, desde pequena. Hoje tem casas maravilhosas em Araçatuba e arquitetos como Sig Bergamin. Mas a minha preferência é Jorge Elias.
Falando em arquitetura, sua casa é um dos ícones arquitetônicos da cidade, quem fez o projeto? Naquela época o arquiteto era daqui mesmo, o José Nelson Tosta, e foi construída em 1971.
Soube que a senhora gosta de novela bíblica, é verdade?
Gosto demais e assisto todas que tem. Atualmente estou assistindo “O Rico e Lázaro”. Eu tenho muito apreço pelas novelas e muito amor a Deus e a Nossa Senhora. E assisto aquilo que aconteceu como está escrito na Bíblia, como “Os Dez mandamentos”.
A senhora tem instagram? Acompanha as redes sociais?
Vez ou outra pego pra mexer no Instagram, ver os amigos e me manter atualizada.
Que lição de vida deixaria para os mais jovens?
A vida vale a pena, lute por aquilo que gosta, porque você consegue.