Opinião

A 'demonização' da cultura oriental

Novamente, a imprensa brasileira reporta, de maneira tendenciosa, uma obra japonesa

Marlon Ferri*
20/10/21 às 21h00

No último domingo (17), o programa Domingo Espetacular, da Record TV, dedicou mais de 10 minutos do ar em uma reportagem sobre a cultura oriental. O que poderia ser algo bom, onde enalteceria as criações do outro lado do globo, não passou de algo tendencioso e até sem sentido algum. 

Soube da reportagem por meio do Twitter, já que a obra Death Note estava no primeiro lugar de assuntos no País no dia seguinte da reportagem - já falei sobre aqui . Imaginei que fosse alguma nova história ou até mesmo a tal falada continuação da horrível adaptação da Netflix. Mas em uma rápida busca no Google, entendi porque a obra que tem mais de 18 anos estava de volta aos assuntos.

Conhecendo a forma como a emissora trabalha e aborda seus assuntos da maneira que lhe convém, resolvi não perder o meu precioso tempo, pois pelo que pesquisei, entendi que não havia tido o mínimo de apuração na reportagem ou descrição correta do mangá/anime. O que é uma pena, pois já que a emissora gosta de pender para um lado, teria o maior retorno dos apoiadores do governo, já que um dos temas de Death Note é “bandido bom é bandido morto”.

O que me surpreende nisso tudo não é fato de até hoje o ocidente não entender que o oriente não possui raízes cristãs. Logo, demônios, monstros e outros seres do imaginário e da crença popular são tratados de forma diferente lá. O que me traz interrogações é o motivo do anime ter sido pauta, anos depois do seu sucesso e criação. Death Note não está nem entre os mais assistidos nas plataformas onde o anime está. O que só me resta uma conclusão: a falta de assunto relevante para um dos principais – se não principal – programa de jornalismo/entretenimento da emissora.

É que o País não passa por “n” situações, como aumento do preço dos alimentos, da carne, do combustível, do gás de cozinha, as mais de 600 mil vidas perdidas para uma doença onde o principal representante do País debocha e não quer se imunizar. É mais importante ficar discutindo sobre “desenho japonês”. 

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que a imprensa brasileira debocha e relincha sobre animes. No início dos anos 2000, o então apresentador da Band, Gilberto Barros, dedicou horas e horas do seu programa para falar das “cartinhas dos demônios” de Yu-Gi-Oh!. Engraçado que nesta mesma época, a emissora marcava expressivos pontos na audiência com outros animes, como Drangon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco e tantos outros clássicos. Aqui, o “real problema” era outro: atacar a concorrente. No caso, a Rede Globo, que exibia a animação sobre o card game de monstros de duelo. 

Retornando para o “auê” da Record, chega a ser hipócrita e desrespeitoso com a história da própria emissora falar mal de qualquer obra japonesa. Vide que há mais de 20 anos, eles ganhavam o ibope nas manhãs com a febre que foi Pokémon. Na época, a Globo teve que gastar muito dinheiro para trazer um concorrente a altura, o Digimon. Fora que a Record também exibiu outros  obras orientais que se tornaram clássico no Brasil, como Jaspion, Changeman e outros. Quem assistiu, sabe os nomes que eram ditos nestes shows, e nem por isso essas séries influenciaram crianças satânicas ou algo similar. 

Aliás, esse papo de influência na violência vai colar até quando? No auge de Pokémon, ninguém saiu fazendo rinha de animais. Eu não me tornei um herói colorido quando aconteceu a febre de Power Rangers. No máximo, gasto meu dinheiro até hoje comprando os bonecos. Essa sim é a influência que as obras da cultura pop exercem nas crianças, adolescentes e adultos: consumir seus produtos, já que o show em si não passa de uma longa propaganda de 20 minutos. 

Há animes para todos os assuntos e gostos, a informação está ao alcance de todos. Um bom início são as obras do Estúdio Ghibli, que retrata com delicadeza assuntos como amizade, amadurecimento e responsabilidade. Mas o importante é falar do anime que tem entre os personagens, os Deuses da Morte, afinal, é isso que dá audiência. 

Está na hora de vermos cada cultura com os devidos olhos que elas merecem. Pois, da mesma forma que não gostamos do estigma que o Brasil é só “bunda e carnaval”, lá fora também não há só coisas relacionadas a monstros e criaturas. 

Tudo isso realça o que escrevi aqui no portal no início do ano, que Death Note continua atual. Infelizmente, não foi reportado de maneira digna e inteligente. 

(Foto: Divulgação)

*Marlon Ferri é jornalista em São José do Rio Preto (SP), músico, escritor, e apaixonado pela cultura pop/nerd desde a infância

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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