Opinião

A minha amiga genial

"Já que é tão simples reconhecermos o mérito do outro, deveríamos reconhecer o nosso sem hesitações"

Carolina Cerqueira Cruz*
01/09/20 às 17h45

O relógio já aponta outro dia e sigo tentando organizar a minha estante. Eis que encaro a tetralogia Napolitana , escrita por Elena Ferrante (pseudônimo usado pela autora de identidade desconhecida). Sou uma apaixonada pela ficção aqui citada.  Aliás, quem me conhece já sabe, sou movida por paixões.

A narração gira em torno dos dias de duas amigas, Lila e Lenu. Mulheres que carregam a vivência do bairro em que cresceram, o subúrbio de Nápoles. A história tem o seu início na infância.  Partindo desse ponto acompanhamos conquistas, medos, tropeços, amores, trabalhos, erros, acertos, conflitos familiares, miséria, abusos, mudanças, comemorações, descobertas e violências.

O pano de fundo é um mundo em transformação, pairado por revoltas sociais, mudanças comportamentais e novos movimentos políticos.

Foto: Arquivo pessoal

São inúmeros os momentos em que elas se amam e se odeiam. Um ponto que acabou de roubar a minha atenção foi no tocante ao reconhecimento do outro. Por mais que elas não verbalizassem, é possível observar (sob meu olhar - já que cada um interpreta a sua maneira) que uma sempre via méritos maiores na outra.  Quem era a amiga genial? O título, A Amiga Genial, dado para o romance de abertura, não poderia ser mais acertado.

Foi automático o deslocamento do meu pensamento para os ensinamentos da minha prima Artieli. Ela sempre trouxe à tona o fato de nos vermos no reflexo do outro, tanto nas qualidades, quanto nos defeitos. Apontamos o que é ruim e enaltecemos as qualidades. Por outro lado, temos dificuldade de enxergar isso tudo em nós. Já que é tão simples reconhecermos o mérito do outro, deveríamos reconhecer o nosso sem hesitações.

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Fez tanto sentido que assustei. De uns tempos pra cá, tenho aceitado vários elogios e ouvido pessoas dizendo que me admiram. Isso já acontecia dentro de outro paradigma. Ali atrás, no passado, não seria comum aceitar de pronto que tudo de incrível dito realmente dizia respeito a minha pessoa. Ficava feliz com o reconhecimento, mas sempre pensava que poderia ser mais, que fiz pouco.  Usava uma métrica injusta. Citando um exemplo, me comparava a pesquisadores com doutorado no currículo.

O pensamento, por momentos, dava aquela rasteira, me fazendo questionar se seria mesmo merecedora de tanto. Respondia aos elogios recebidos com um “você”. Agora posso continuar respondendo da mesma forma, mas aprendi que somos. Finalmente me tornei a minha amiga genial.

É lindo aplaudir as conquistas de quem amamos, mas que isso não nos impeça de estarmos felizes com as nossas. Tenho me enxergado do tamanho que sou e acreditado no meu potencial. Não há nada de arrogante nisso. A sensação é incrível, descolada de julgamentos que menosprezam. Reconheça amigas geniais, mas não deixe de enxergar a que existe aí dentro.

Poderia ficar horas escrevendo sobre as várias vertentes da tetralogia que tanto me encantou. Mas preciso terminar a minha organização.  Encerro dizendo que não importa se identificar mais com a Lila ou com a Lenu. Ambas tiveram trajetórias admiráveis. Tal qual os caminhos, que nós, protagonistas das nossas histórias, trilhamos aqui na vida real.

Foto: Arquivo pessoal

*Carolina Cerqueira Cruz, um coração que dança no mundo, historiadora, advogada e uma das fundadoras do clube do livro “Entre nós; extremos”, de Araçatuba.

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