Sem dúvida, o assunto mais comentado hodiernamente é a pandemia que tomou conta de grande parte do planeta, em alguns lugares com maior e em outros com menor destaque e proporções.
Nesse momento, assistimos técnicos, especialistas, governantes, cada qual com seu viés de interesse, apontando qual a extensão da pandemia e quais os cuidados devem ou não ser tomados para que tal evento não tenha desfecho pior que o esperado nas mais diversas esferas de conhecimento, mormente em relação à saúde pública e a economia.
No entanto, além de questões centrais como as acima apontadas, a necessidade ou ainda, a obrigatoriedade de um isolamento social comumente chamado de quarentena, acabou por trazer à baila algo que talvez os envolvidos ainda não tivessem se dado conta de terem perdido em algum momento de suas vidas.
Em um passado não tão distante, não era raro que pessoas da mesma família se reunissem para em um momento em que aproveitavam para trocar experiências, saberem umas das outras, falarem e serem ouvidas.
Com o passar do tempo e a chegada de novas tecnologias, era dado início a um distanciamento natural de pessoas, o que se agravou com o surgimento dos smartphones, os quais permitiram ao homem uma conexão nunca vista anteriormente com o restante do mundo, tendo todas as informações possíveis em fração de segundos.
No entanto, essa vantagem incontestável de se ter o mundo na palma das mãos também trouxe um efeito colateral, que chegou de maneira imperceptível: o distanciamento entre as pessoas. Tal fenômeno é encontrado em todas as searas, de crianças a idosos, de ambiente familiar ao de trabalho.
Observa-se que a pandemia que preocupa grande parte do mundo, obrigando pessoas a permanecerem em suas casas, deixando seus trabalhos, escolas, lazeres, trouxe de volta a convivência antes deixada de lado. Além de aproximar as pessoas, a pandemia, o risco da própria morte ou ainda de se perder um ente próximo fizeram aflorar valores até então deixados de lado, como amor ao próximo e a percepção de que bens tangíveis são dispensáveis.
No romance escrito por Érico Verissimo em 1971, intitulado “Incidente em Antares” é narrada a história de uma cidade (Antares) na qual é assolada por uma greve geral, englobando, inclusive, os coveiros.
Assim, com o falecimento, de forma inesperada de sete pessoas e sem ter como serem enterradas, os mortos adquirem nova “vida” e passam a perambular pela cidade entre amigos e parentes “vivos” buscando seus enterros, mas, agora, sem o freio moral característico em todas as pessoas que pretendem viver em sociedade.
A atemporalidade do romance mostra que, embora escrito há décadas, ainda apresenta vários pontos convergentes com a nossa atual realidade, destacados três.
O primeiro deles, é a crítica à politica brasileira à época, que pode ser facilmente transportada para nossos dias, já que o romance faz referência a dois grupos políticos na cidade, representados por duas famílias rivais (os Campolargo e os Vacarianos), sendo que esses dois grupos, mesmo diante de suas rivalidades, unem-se a partir do temor do que chamam de ameaça “comunista”, trazida pela classe de trabalhadores da cidade.
O segundo momento está no fato de que parte dos mortos que voltam ao convívio com os vivos, percebem que seus atos e vontades durante a vida nada valem quando da morte, como o caso de uma senhora, matriarca de uma família, que ao retornar, joga as joias que desejava ver consigo enterradas, no vaso sanitário após ver sua família brigando por tais objetos. Ou ainda como outro defunto, frequentador de bares, daí ser conhecido por pudim de cachaça, o qual em vida maltratava sua esposa, agredindo-a ao chegar em casa embriagado e apenas quando de seu retorno como morto/vivo, resolve agracia-la com uma serenata.
Em arremate, entre as diversas reflexões que o texto nos leva está o valor que acaba sendo dado a determinados momentos e bens na vida em detrimento de tantos outros que apenas percebemos a importância quando já não há mais tempo pra tanto.
Por sorte, a ficção nos mostra que alguns valores foram resgatados pelas personagens apenas após a morte enquanto o isolamento social vivido nesse momento nos permite a reflexão e a oportunidade de serem resgatados os valores deixados de lado, ainda em vida.
(Foto: arquivo pessoal)
*Valdir Garcia dos Santos Júnior é advogado e professor universitário. Pós-graduado em direito processual, docência no ensino superior e direito do trabalho. Mestre em direito.
** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
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