Opinião

'A vida não é o que a gente viveu...'

"Sou suspeita para falar de leitura e ainda mais para falar de Gabriel García Márquez, mas é que quando tudo parecia fora do lugar, as flores e boa vontade foram crescendo e não víamos mais seres humanos"

Janaína Nascimento*
04/08/20 às 20h09

As coisas não vão tão bem aqui na terra; já não vão bem há tempos.

Lemos para ver o mundo de forma mais bonita, de forma que milagrosamente alguém salve toda a população em perigo, para que os apaixonados superem todos os desafios e consigam o “foram felizes para sempre”.

As amizades que superam os limites físicos do mapa mundi e salvam vida, são daqueles sinais que as almas enxergam quando não está olhando para dentro de si. Procuro aqui motivos para justificar o motivo para gostarmos de ler.

Sou suspeita para falar de leitura e ainda mais para falar de Gabriel García Márquez, mas é que quando tudo parecia fora do lugar, as flores e boa vontade foram crescendo e não víamos mais seres humanos.

Os céus, visto das pequenas criaturas aqui de baixo, parecia uma imensidão de sorte. Tinha criança dormindo na nuvem, tinha adulto rindo e tinha animais pulando e saltando entre as placas de: seja feliz. Havia estrelas tão brilhantes que alguns sortudos conseguiam pega-las e podiam até, imaginem, passear com elas.

Foi aí que o Gabo disse: “Andava à deriva, sem afeto, sem ambições, como uma estrela errante no sistema planetário de Úrsula.” Na solidão que a humanidade se colocou, ainda errante e sem afeto, cresceu entre os passantes, a empatia. Podia olhar e realmente ver alguém. Podia curar as dores da alma com chá ensinado pela avó do conhecido que desenhava embaixo das árvores e conversava com os pandas.

As placas das cidades que antes eram demarcação, foram tomadas pelas plantas e árvores que criaram a sombra propícia para os amantes da leitura e dos amores proibidos. Houve boatos que as próprias árvores e plantas arrumavam desculpas quando os enamorados eram procurados por lá.

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Parecia a reinvenção de uma sociedade nova, que se vivo, um historiador inglês poderia chamá-la de a Era dos Recomeços. Porque os habitantes andavam tranquilos dessa vez, de mão dada e sorriso estampado, sejam os gatos, cachorros, tigres e homens. Não tinha sinal vermelho, tinha respeito.

Os peixes e pássaros papeavam entre si, se indignavam lá de cima, como que os humanos precisaram estar com a ponta dos pés no precipício para começar a construir um mundo que não tenha fronteiras, que os amores não tenham regras e que esse papel que nós valorizamos tanto, que dominou os últimos séculos, se tornou apenas papel de parede.

Loucura eu sei. Talvez esse  parágrafo seja substituído por uma receita, não sei, tomara que não.

Nessas andanças dentro dos meus livros, Gabo me disse: “A vida não é o que a gente viveu, e sim o que se lembra e como se lembra para contá-la”. Então, me lembro assim, e você?

*Janaína Nascimento é professora de história e uma das fundadoras do clube do livro “Entre Nós; Extremos”, de Araçatuba.

**  Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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