Opinião

Adeus, arquiteto do rock

"Se falarmos de personalidades ligadas à revolução cultural e sexual, impossível não citar Little Richard"

Renato Costa*
09/05/20 às 18h26
Performance no filme Master Rock And Roll, de 1957 (Foto: Everett Collection)

Pode-se dizer que 2020 chegou com “os dois pés no peito”. Pode-se dizer, também, que midiaticamente falando, muitas mortes passarão despercebidas devido a atenção quase toda voltada à pandemia de covid-19.

Seja lá como for, é importante dizer o quão lamentável é a perda da lenda Little Richard, falecido hoje (9), aos 87 anos. A notícia foi dada pelo filho do artista, Danny Penniman, ao jornal The Rolling Stone, mas sem divulgar a causa da morte.

Richard já tinha sofrido um derrame e há alguns anos vinha passando por problemas de saúde. Prova de sua fragilidade é que nos últimos anos vinha se apresentando somente sentado devido a uma cirurgia no quadril em 2009. Mais tarde, em 2013, acabou anunciando sua aposentadoria.

Se falarmos de personalidades ligadas à revolução cultural e sexual, impossível não citar Little Richard. Nascido em 1932 no estado da Georgia, Richard Penniman, seu nome de batismo, vinha de uma família com 12 irmãos. Rebelde desde cedo, deixou o lar aos 15 anos para trabalhar com um vendedor de óleo de serpente pelas estradas sulistas.

Cantava desde cedo. A música era seu entretenimento pelos vilarejos onde passava. Também chegou a lavar pratos num restaurante da rodoviária de Macon, sua cidade natal. No entanto, seu talento para o canto era notório. Influenciado pelo gospel, deu ainda mais êxtase ao seu rhythm’n’blues. Mais acelerado e agressivo, cheio de insinuações sexuais, tanto na performance como nas letras, como disse Billy Idol hoje em suas redes sociais: “Little Richard foi um dos arquitetos do rock”.

Em meados da década de 1950, Nova Orleans ainda não estava preparada para enfrentar o furacão Little Richard, como diz o jornalista italiano Florent Mazzoleni em seu icônico livro As raízes do rock. Ainda segundo o autor, o músico abriu definitivamente as portas para liberdade de expressão artística naquela época. Negro e bissexual, não foi aceito na sua família religiosa, mas sem dúvida abraçado por todo mundo com sua música incendiária e libidinosa.

 

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Foi gravando algumas faixas para a Peacock, em Houston, em 1954, e enviando demos para Art Rupe, dono da Specialty Records, que ele iniciu sua trajetória como fenômeno da música. Negros e brancos não poderiam mais se separar ainda em épocas de segregação. Richard unia todos por uma causa em comum: a liberdade.     

Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones e todos os grandes nomes do rock só aconteceram depois do grito agudo e agressivo “awopbopaloobopalopbamboom” de Richard, em pé, inquieto, segundo antes de “agredir” virtuosamente seu piano e fazer todos remexerem – época em que mexer os quadris era censurado na TV norte-americana.

Inocente ou hipocritamente, hoje, muitos fãs de rock criticam outros gêneros musicais, como funk, por exemplo, devido o teor erótico ou até pornográfico de seu conteúdo. Mas o rock, em seu princípio, não se importava quase com outra coisa a não ser pelo sexo.

Tutti Frutti , a clássica das clássicas de Richard, como lembra Florent Mazzoleni, expressa: “Tutti frutti, good booty / If it don’t fit, don’t force it / You can grease it, make it easy”. Traduzindo para o português: “Tutti Frutti, bundinha gostosa / Se não está entrando é melhor não forçar / Podemos lubrificar para facilitar”]. No entanto, na gravação, a poetisa Dorothy LaBostrie deu um polimento ao trecho.

Egocêntrico, com seu topete e visual espalhafatoso, influenciou de Elvis Presley a Rolling Stones. De Beatles a Carol King. De Beach Boys a Billy Idol. E ainda influencia. Seus hits como Tutti Frutti , Long Tall Sally , Rip it Up , Good Golly Miss Holly e Lucille vão ficar para a posterioridade como “estudo” para o verdadeiro rock’n’roll.

(Foto: Arquivo Pessoal)

 

*Renato Costa é jornalista, fundador do E-commerce Sebo Gagá e criador do documentário sobre rock "Araçatuba Depois da Meia-Noite"

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação


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