Ao trabalhar com arte, trabalhamos também as relações,
as corpas
, a mente, a pedagogia e o autoconhecimento no lugar mais íntimo que temos em nós, e construímos sempre um lugar em que possamos nos expressar e nos posicionar.
Teatro é além de se indignar com o outro ou com alguma situação, é olhar para dentro de você e compreender o seu lugar no mundo, compreender sua relação com a sociedade e não se limitar em quebrar as barreiras da separação, da hierarquização e do controle sob o outro.
Segundo Augusto Boal, “Todo teatro é necessariamente político [...] teatro é uma arma. Uma arma muito eficiente. Por isso, é necessário lutar por ele [...] o teatro pode ser igualmente uma arma de liberação, para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar”.
Ano em ano o Festara se reinventa, se renova e provoca transformações e neste ano não poderia ser diferente. Trazendo novas possibilidades de conexão e de luta artística, o festival reafirma que não podemos prosseguir sem acesso à arte, às diferenças - no sentido de individualidades - e à informação.
Em um cenário político social caótico que nos encontramos, é de extrema importância ressignificar as armas certas para lutar, ressaltando que a classe artística foi a primeira a parar as atividades diante da pandemia e é uma das que mais sentem os impactos do isolamento social.
Tendo em vista que as artes da cena são um exercício do aqui e agora, do tato, do contato com o outro, da troca com o público, o teatro é além de um jogo de improviso e interpretação, ele é também um grito de socorro, de aviso e talvez até uma previsão; a arte de comunicar é visionária e sentir a si e o outro com sensibilidade, é uma revolução.
Reconhecer o poder da transformação a partir das armas que nos são oferecidas é um grande desafio para o Festara 2020 que mais uma vez se posicionou de maneira ativa para a reconstrução e manutenção de novas formas do fazer artístico, dando voz e espaço aos artistas locais que são importantes para a evolução e alteração do que é arte no contexto municipal e global ou seja, do micro para o macro.
O momento é de separação, de distanciamento e de muita tristeza por tantas vidas que perdemos nesse período, mas o que será da arte pós-pandemia? Quais armas teremos que usar? Quais artistas seguirão firmes e resistentes?
Deixo aqui registrado que nessa experiência pandêmica sem fim iminente, que o teatro não pode ser outra coisa senão revolta, a classe artística que acredita nas metamorfoses que implica a arte, deve seguir lutando em meio ao caos.
É importante dizer também sobre a importância da participação do Estado, pois as autoridades e entidades precisam intervir de maneira positiva para que o Festara, os artistas e outros festivais de arte sejam mantidos com segurança e liberdade.
Arquivo pessoal
*Ludmila Lopes é atriz formada pelo curso técnico em arte dramática pelo Senac de Araçatuba (SP) e graduanda em Artes Cênicas (licenciatura), pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourado) e arte-educadora
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