Não é de hoje que os centros urbanos convivem com pessoas em situação de rua e mendicância. Trata-se de grupos cada vez maiores de indivíduos que se encontram, literalmente, morando em praças públicas ou debaixo de pontes.
Durante o dia, as maiores aglomerações acontecem em locais de grande fluxo de pessoas, geralmente no entorno de hospitais e órgãos públicos. À noite, geralmente, esses indivíduos perambulam pelas imediações de escolas e igrejas. Muitos se oferecem para cuidar dos veículos que se encontram estacionados próximos desses locais. A grande maioria é composta por viciados em drogas e bebidas alcóolicas.
Há vários relatos de tumulto e violência, inclusive, entre os próprios andarilhos, por mera disputa de território.
As piores consequências desse grave problema social recaem sobre todos nós, cidadãos. Os pedintes se aglomeram na frente de lojas, muitos pedem dinheiro e, quando não são atendidos, xingam e ameaçam as pessoas. Virou rotina, também, a presença desses indivíduos nas proximidades de templos religiosos, principalmente nos horários de celebrações de cultos e missas, oferecendo-se para cuidar dos veículos estacionados nas ruas.
Quem convive com este cenário já se acostumou a dar dinheiro para esses indivíduos, mesmo tendo plena convicção de que esse valor, em pecúnia, servirá não só para alimentar o vício das drogas e bebidas, mas também para incentivar a perpetuidade dessa prática nociva à sociedade.
Esse consentimento tácito é justificado pela falsa sensação de segurança inspirada pelo ato de oferecer dinheiro, eis que, o maior receio do cidadão é o de que seu veículo seja danificado ou, que haja alguma reação violenta por parte desses pedintes, caso não sejam atendidos em seus pleitos.
Por outro lado, não se pode olvidar que há uma cultura arraigada no âmago de cada brasileiro no sentido de que, dar dinheiro ao morador de rua, ao mendigo ou ao andarilho, é um ato de solidariedade e benevolência.
Entretanto, é preciso ter a consciência de que, ao dar dinheiro para essas pessoas que se encontram nas ruas, o cidadão está privando aquele indivíduo da chance de recuperar a sua dignidade humana.
Todos nós sabemos que a droga é um problema multifacetário, que envolve políticas públicas relacionadas à saúde, à educação e à assistência social.
A única forma de retirar essas pessoas das ruas é impedir o fluxo do sistema, é evitar que o ciclo vicioso continue a ter o combustível que o alimenta, que nada mais é do que o dinheiro.
Não adianta “tapar o sol com a peneira”, antes, é preciso enfrentar o problema. A ideia de que esses indivíduos vão furtar, roubar ou danificar veículos para alimentarem o vício da droga e da bebida, não pode servir de lastro para impor ao cidadão a condição de refém desse sistema.
Os municípios, geralmente oferecem centros de referência especializados e destinados a acolher tais pessoas, a exemplo do Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), do Cras (Centro de Referência da Assistência Social), do Conselho Tutelar, dentre outros.
Enfim, se o cidadão deseja, de fato, ajudar esses indivíduos em situação de rua, deve oferecer-lhe um caminho de reabilitação e não oferecer dinheiro. Embora seja mais cômodo desviar do problema, dando dinheiro, é preciso lembrar que estamos alimentando o vício.
Dar dinheiro não vai fazer com que você, cidadão, esteja livre de ser vítima de dano ou de qualquer tipo de violência por parte desses mesmos indivíduos, quando estiverem sob o efeito de drogas.
(Foto: Arquivo pessoal)
*Claudemir Francisco de Souza é advogado em Araçatuba (SP), especializado em "Execução de Políticas de Segurança Pública" e "Gestão da Investigação Criminal", pela ANP/Brasília (DF).
** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação
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