A vida acadêmica trouxe-me muitos aprendizados. Comecei a dar aula de inglês aos 17 anos, quando ainda morava em Itaquera, São Paulo. Formei-me em tradução e interpretação em 2012 e, como muitos, trabalhava para pagar os estudos superiores. A primeira escola onde dei aula, em Itaquera, tinha um público bem diverso e heterogêneo – brancos, negros, jovens e velhos. Era um ambiente divertido, com colegas de trabalho que tinham estilos de vida bem parecidos com o meu.
Já aos 22 anos, mudei-me para Araçatuba, trabalhei em outras escolas de inglês e comecei também a dar aulas particulares. Eu continuava a mesma, acreditando na educação e na formação continuada, mas o público já não era aquele tão diverso e heterogêneo de outrora.
Desde então, faço reflexões contínuas sobre a educação e principalmente sobre o ensino de língua estrangeira. Não posso reclamar, já que muitas pessoas querem ou precisam aprender o idioma. Mas falta algo. Fica um vazio.
Sou negra. Sou da periferia. E nem sempre isso foi tão claro para mim. Encarava as coisas com tranquilidade e não me atentava aos sinais que a vida em uma sociedade racista por tradição me dava. Hoje, quando olho para trás e vejo as pegadas cravadas na estrada de minha vida acadêmica, vejo que há poucos passos negros junto aos meus: do ensino fundamental à pós-graduação eu poderia contar em apenas uma mão quantos colegas negros eu tinha.
Essa inquietação fica ainda mais latente no ambiente de trabalho. No ensino de inglês, dentro das ‘seletas’ salas de aula de cursos particulares, há um número irrisório de alunos negros e posso afirmar que não só os gestores, mas também os colegas de profissão não se atentam a isso.
Podemos falar sobre bolsas, cotas e outras ações afirmativas que, com árdua luta, cumprem seu papel de equalizadores dos gigantes cânions que se formaram entra a população negra e branca. Mas ainda não chegamos lá. Para refletir, finalizo com o mesmo questionamento feito no título: com quantas pessoas negras você já estudou em seu curso de inglês, em sua faculdade pública ou em sua escola particular?
Pare, olhe, atente-se; a realidade é bem clara, mas muitos ainda preferem manter-se na escuridão de seus preconceitos.
(Foto: Michelle Letícia/Divulgação)
*Maria Fernanda da Mata é tradutora e intérprete (português/inglês) e professora de inglês particular e do ensino fundamental; possui pós-graduada em docência do ensino técnico e superior e idealizadora do “The Black Project”, que oferece aulas de inglês afrocentradas