*Helerson de Almeida Balderramas é professor universitário, articulista gastronômico e sobrinho do jornalista Dalmo Pessoa
A história que eu sabia desde criança, era a de um jovem entusiasta, que recém-formado no ensino secundário científico da Era Vargas, foi para a capital paulista tentar a vida. Nascido em São Luiz do Guaricanga, distrito de Presidente Alves (SP), filho de ferroviário da NOB, carregou em sua bagagem o brio de um grande batalhador que com sua inteligência e brilhantismo, logo conquistou a tribuna jornalística como comentarista esportivo na cidade sede dos grandes times.
Ainda em Bauru, onde residiu até os 19 anos, conheceu Maria Tereza de Barros, sua esposa, com a qual se casou em 1963. Teve três filhos: Daniel, Jonas e Davi; três nomes bíblicos ratificando a educação cristã protestante dada por seus pais.
Nunca deixou de mandar notícias à família e olha que naquela época não haviam as facilidades tecnológicas da contemporaneidade. As longas cartas contando sobre as oportunidades da “pauliceia” reuniam os cinco irmãos, ávidos por notícias do irmão mais velho: Rubens, Dalte, Danilo, Roseli e Roselene (minha mãe), na barra da saia de sua mãe Iracema Pessoa de Almeida.
Dalmo jamais negou seu passado humilde. Pelo contrário, investiu grandes esforços na recuperação das terras de seus ancestrais no interior paulista, perdidas com a crise cafeeira. Pelas ruas de Bauru, conheceu Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, nessa época eram parceiros de pelada no time da molecada na vila ferroviária de Curuçá. Ambos fizeram história no futebol, Pelé com bola no pé, e Dalmo na tribuna esportiva.
A comunicação é a tônica dessa história de vida profissional. Trabalhou na mídia impressa e emissoras de rádio e TV: Rádio Tupi, Rádio Record, Jornal Notícias Populares, TV Gazeta, Jornal A Gazeta Esportiva, Rádio Bandeirantes e Rede Vida.
Cobriu sete Copas do Mundo e por muitos anos atuou como comentarista do programa "Mesa Redonda". Aliás, foi precursor nesse tipo de quadro, com um estilo contundente que lhe era peculiar: inflamava os debates com as polêmicas da arbitragem e política dos clubes esportivos. Suas fontes eram chamadas de “raposas felpudas”.
Tinha uma vida social intensa na metrópole paulistana. O “bom de bola”, como era anunciado pelos âncoras, gostava de usar em suas crônicas e comentários esportivos, adágios e cultas expressões, como: “justiça de fancaria” (trabalho malfeito) e “part pris” (opinião preconcebida), “quem fala muito dá bom-dia pra cavalo” ou “o bom cabrito não berra”.
Meu tio sempre pedia para alguém passar na banca e comprar todos os jornais. Naquela época, eu ainda garoto, não entendi a razão, já que todas as notícias daquela data eram as mesmas! Posteriormente compreendi, quando uma vez me falou que “o importante da notícia está nas entrelinhas”.
Como se não bastasse toda a trajetória de sucesso na carreira jornalística, Dalmo Pessoa ainda se aventurou nas trilhas da política na “selva de pedra”. Foi vereador da capital paulista em dois mandatos, de 1983-1988 e de 1993-1996, finalizando a legislatura como 1º. Secretário da Mesa Diretora.
O altruísmo era uma de suas virtudes latentes. Estava sempre disposto a ajudar; aos parentes e amigos, não media esforços. Aqui fica registrado minha eterna gratidão pela tutoria incondicional quando do transplante e tratamento de meu pai (seu cunhado), assim também socorreu a muitos outros necessitados. Em sua jornada, Dalmo foi ainda diretor comercial do Hospital IGESP e diretor administrativo do plano de saúde Trasmontano.
Era meu companheiro de bons vinhos nas festas de família. No dia 6 de outubro de 2020, aos 79 anos (11/08/1941-2020), partiu acometido por um agravamento de pneumonia aguda. Muitas foram as homenagens à “lenda da crônica esportiva brasileira” noticiadas em toda mídia e nas redes sociais, que no tempo presente de distanciamento social não supriram a honrosa e necessária despedida.
Permanece nos familiares, amigos e apreciadores a saudosa lembrança e o referencial da certeza que temos, “porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos.” (Efésios, 2:10).