Opinião

Dois realities shows de relacionamento para assistir e refletir sobre o amor

"O Crush Perfeito" e "Amor no Espectro" são estreias recentes na Netflix; ambos abordam relações e a busca por uma relação a dois 

Manu Zambon*  - Hojemais Araçatuba
27/07/20 às 11h23
O Crush Perfeito (Foto: Netflix/Divulgação)

Com o isolamento social, as possibilidades de interação foram drasticamente diminuídas ou transformadas. Isso não é uma novidade, sabemos. Então, percebi que nos últimos tempos, vários realities shows têm aparecido como os mais assistidos em plataformas de streaming, como Netflix.

Seria nosso psicológico tentando suprir essa necessidade de interação real?

Enfim, neste final de semana, fui fisgada por dois desses programas: “O Crush Perfeito” e “Amor no Espectro”, que foram lançados há poucos dias na Netflix.  Achei que estaria diante de dois conteúdos de brisar, como costumo classificar alguns filmes, séries, animes e demais programas, quando quero algo que não exija tanto raciocínio lógico. 

Iniciei a maratona com o “O Crush Perfeito”, versão brasileira da Netflix inspirada no americano "Dating Around". Ele mostra pessoas tendo cinco encontros às cegas com pretendentes diferentes. No começo, achei chato o formato, mas depois fui surpreendida com um fato muito inusitado. Resultado: só parei de assistir quando vi todos os capítulos.

Duas coisas bem interessantes me chamaram a atenção nesse programa. Uma delas foi a escolha dos perfis das pessoas que participam dos encontros. São bem plurais, englobam sexualidade, gênero, religião, profissão, idade etc. Ou seja, requisitos levados em consideração quando buscamos um relacionamento.

O segundo item que me prendeu foi a questão da linguagem corporal, que diz tanto sobre um casal. Em alguns casos, essa conexão é tão forte no programa, que dá até pra adivinhar quem deve ser escolhido no final.

Os episódios são curtos e só mostram, sem enrolação, os encontros e o desfecho. Não tem interrupções para incluir depoimentos dos participantes. É simples e direto.

Já o “Amor no Espectro” não é da Netflix. Foi filmado pela ABC em 2019 e está disponível na plataforma de streaming desde o dia 22 de julho. Cheguei à série por um acaso e que surpresa maravilhosa. Aqui, são abordados relacionamentos amorosos de jovens com espectro do autismo; os seus desafios na hora da conquista e na convivência.

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Não assisti inteiro ainda, mas sem dúvida já dá para deixar essa indicação aqui. O diretor do programa, Cian O´Cleary, disse numa entrevista que ao fazer séries de televisão sobre deficiência, percebeu que entre os jovens com essa condição, muitos estavam querendo encontrar o amor, no entanto, alguns nunca nem tinham tido encontros ao longo de suas vidas.

No total, são sete casais que a série acompanha e é impossível não se apaixonar por essas pessoas, tão autênticas e com visões tão simples e diferentes do que é o amor. Por exemplo (spoiler), em um dos episódios, um rapaz diz, com naturalidade, que o lema dele é não se apaixonar por uma mulher só porque ela é gostosa.

(Foto: Divulgação)

Também gostei muito que nem todos os autistas que participam são heterossexuais. E esse assunto, tabu para uma sociedade excludente, é tratado com a espontaneidade devida. Os pares conversam sobre isso sem aquele julgamento ou medo de ser incompreendido. Eles são o que são e ponto final.

Outro aspecto bem legal é o envolvimento da família e o apoio que a mesma dá, sempre orientando os filhos de maneira leve (como acredito que tenha que ser em todos os lares). Os participantes ainda recebem a ajuda de especialistas em relacionamentos e em vários momentos, dá para perceber que a própria produção da série “interfere” em algumas cenas, mas para ajudar em alguma situação embaraçosa.

Mesmo sendo diferentes, esses programas nos ensinam algumas pequenas lições. Em “O Crush Perfeito”, fica evidente que uma relação pode surgir de um perfil que nunca cogitamos. No “Amor no Espectro”, dá para absorver ensinamentos ainda maiores. Os participantes não escondem quem são nos encontros e no dia a dia, porque no geral, o autista não tem esse filtro que às vezes utilizamos, para omitir informações ou até mentir.

O amor é surpreendente, é inclusivo. As relações são únicas. A condução de um relacionamento pode, e deve, ser algo leve, natural e orgânica. Os reality são um convite para reflitirmos sobre isso.

*Manu Zambon é jornalista, atua no Hojemais Araçatuba cobrindo a área cultural de Araçatuba e região, e tem assistido a realityies shows ultimamente.

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