Opinião

Espelho, espelho, eu

"Então, se reconhecemos no outro aquilo que temos em nós mesmos, por qual razão o reconhecimento de tal fato em si é tão difícil? Qual é o sentido de ver a idiotice ou a beleza do outro e negá-las a si próprio?"

Artieli Peruzzo*
13/05/20 às 19h30

Na minha infância, minha mãe, instintivamente consciente daquilo que a filha poderia escutar dos outros, me ensinou algo extremamente valioso, não muito educado dependendo do contexto, porém, valioso! Ela me disse que se alguém, por exemplo, me chamasse de boba na escola, um colega talvez, que a minha resposta deveria ser: “Só um bobo reconhece o outro”.

À medida que fui crescendo, me dei conta de algo poderoso: também poderia dar a mesma resposta depois de um elogio. Por que não? Oras, só uma pessoa bonita reconhece a outra. E nesse momento, o riso desconcertante sempre foi inevitável. Reconhecer a luz quando só se acredita na sombra, requer olhos prontos para enxergar a verdadeira luminosidade. Que fique claro: só valorizamos a percepção de uma por meio da outra.

Então, se reconhecemos no outro aquilo que temos em nós mesmos, por qual razão o reconhecimento de tal fato em si é tão difícil? Qual é o sentido de ver a idiotice ou a beleza do outro e negá-las a si próprio?

Entendo que não há uma “receita de bolo” que reduza toda a singularidade contida em um indivíduo. Muito menos que seja capaz de dar uma resposta cartesiana para tais questionamentos. Seria algo muito pretensioso e distante da essência que torna cada um de nós seres ímpares.

 

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Entretanto, a resistência e a negação de si mesmo, de certo modo, mantêm a sobrevivência daqueles que não se permitem, ou simplesmente não querem acessar as próprias informações contidas fora do campo da consciência. Para esses, é um ganho de tempo que lhes permite sobreviver na ilusão de que as respostas e a responsabilidade de ser quem se é, venham de fora.

Nas experiências com os outros, nos vemos em seus reflexos, que assim como os espelhos, nos mostram a nossa própria imagem, nua e crua. Alguns enxergam, mas em seguida desviam o olhar, outros fecham os olhos para não encararem de frente. Existem aqueles que olham desconfiados. Há também quem diga que o espelho está sujo, mas somente os destemidos enxergam, para além daquilo que os olhos podem ver, a imensidão de ser sombra e luz em um só “eu”.


Foto: Arquivo Pessoal

*Artieli Peruzzo, terapeuta com formação internacional em leitura biológica e memória e Informação pelo Instituto Salgado de Saúde Integral


** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.


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