Segue trecho
Ipsis litteris
de matéria publicada pelo portal Carta Capital:
Militantes bolsonaristas rasgaram e colocaram fogo em um outdoor contrário ao presidente na cidade de Penápolis, interior de São Paulo na madrugada desta terça-feira 15, um dia após o cartaz ser instalado. A imagem dizia: “Sou penapolense e não fecho com Bolsonaro”. Ela foi colocada por cima de uma outra manifestação favorável ao presidente, que trazia a mensagem de que a cidade está fechada com o ex-capitão. Um vídeo do incêndio foi divulgado em grupos de Whatsapp da cidade. Os autores ainda não foram identificados. O protesto contra Bolsonaro foi feito pelo ex-prefeito da cidade, o médico João D’Elia, de 70 anos. Ele e seu filho, o jornalista Felipe D’Elia, pagaram 1.350 reais para o cartaz ser colocado no outdoor. Felipe compartilhou a troca em suas redes sociais e passou a receber em suas redes mensagens de cunho LGBTfóbico e ameaças de morte. “Eu só queria mostrar que não é todo penapolense que apoia Bolsonaro, por isso fiz questão de assinar. Não é uma opinião da cidade, é minha. Fiquei surpreso com as ameaças recebidas. Isso mostra quem está nesse governo, o que ele valoriza e estimula. É só violência em cima de violência”, conta João.”
Por certo, estamos próximos das eleições municipais de 2020, mas a corrida presidencial de 2018 (e 2022?) parece ainda aflorar na pele de muitos eleitores.
A intolerância com o próximo, com perdão a fala do médico João D’Elia, não é fruto deste governo, como sugere. Ela está enraizada desde o Brasil colonial, época a qual a estigmatização não era feita de forma velada (como nos tempos atuais, engajada com palavras bonitas e formais).
No entanto, devemos reconhecer que o líder do Executivo não é afeito a declarações pacificadoras, como manda o figurino. Muito pelo contrário, seu perfil confrontoso realmente valoriza a conduta agressiva do seu eleitor que ateou fogo no objeto.
Não podemos falar que o presidente também o estimula, afinal, referido criminoso (digo criminoso, pois atentou contra patrimônio de uma empresa privada que nada tem a ver com o caso) tomaria tal atitude qualquer fosse o governante, tendo em vista a intolerância estar na sua personalidade.
O filho do João e jornalista Felipe, também vítima de crimes LGBTfóbico recebeu ameaças de morte. O título do presente artigo deixa claro, desta forma, o posicionamento do autor: estamos adoecendo... como sociedade!
Apesar de acreditar que o sujeito que o ameaçou tão somente assim agiu por estar acobertado por seu smartphone (o ameaçaria presencialmente?), temos por certo que vivemos em país democrático, no qual, aquele mesmo objeto expositor de anúncios que aduzia que João não estava fechado com Bolsonaro, dizia, anteriormente, que toda Penápolis estava fechada com o capitão. Isso mesmo, o MESMO outdoor, anteriormente tratava que toda uma cidade estava fechada com o presidente da República.
Ora, se um cidadão penapolense não se sentiu representado por tal anúncio, não pode dizer que não “fecha” com este político? Agiu certamente, na verdade, pois assinou com seu próprio nome o recado, deixando claro que se tratava de posicionamento pessoal...
Sem pensar nas consequências de seus atos, o criminoso, mal percebeu que sem querer, seu ato banal fragilizou um pouco mais a democracia.
Sem o devido diálogo, a recusa da permissão ao lugar de fala do outro, retira pouco a pouco a legitimidade de seu voto. Afinal, para algo ser legítimo, deve ser reconhecido por todos, não somente pela lei. O rompimento desta ideia de igualdade coloca em risco a democracia em si, fazendo com que o regime nacional “normal” passe de livre para autoritário. Tal movimento não é rápido e depende de uma conjuntura repetida de atitudes como a do “caso outdoor”.
Antes de vangloriar um regime desta espécie, apenas se lembre que o líder autoritário não governa para o povo, mas para perpetuação do seu poder e de si mesmo. Não queira ser o culpado por isso, não adoeça.
(Foto: arquivo pessoal)
*Maycon Mazziero é advogado, pós-graduando em Direito Penal e Processo Penal, pós-graduando em Direito Previdenciário e pós-graduando em Direito Constitucioal aplicado. Atua na área criminal, de família, dentre outras áreas do direito.
** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
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