Opinião

Gestos que dão sentido à vida

"Dona Missé simbolizava igualmente 'o amor que promove', a força bem temperada da mulher brasileira, cujos caminhos Cora Coralina sempre indicou às pessoas de boa vontade"

Hélio Negri*
13/12/20 às 13h15
Dona Missé simbolizava igualmente “o amor que promove”, a força bem temperada da mulher brasileira (Foto: Reprodução)

Haverá coisa melhor que servir durante uma vida aos misteriosos propósitos de Deus, procurar pelo exemplo inspirar outras vidas e deixar – como legado – o gesto da mão estendida como síntese de compaixão para com seu semelhante? Caso a pergunta fosse feita à dona Missé Rodrigues de Moraes e Souza, ela bem poderia apropriar-se das palavras de sua conterrânea Cora Coralina e dizer que “isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.”

 Acostumada às coisas simples na Fazenda Ribeirão Grande em Itajá, no extremo sul de Goiás, ela colheu em profusão aqueles valores familiares que moldam pessoas em gente de bem, fáceis de lidar, benevolentes no tratamento com seus iguais, solidárias por inspiração maior. 

Ao lado do marido, Idomeno de Moraes e Souza, mudou-se para Araçatuba por volta dos anos 1960. Goianos são parte integrante da nossa história e o casal logo se adaptou aos costumes locais, bem como seus filhos Miguel e Isabel, de quem o casal sempre se mostrou orgulhoso. Tornou-se rapidamente e de forma natural, uma presença imprescindível na vida araçatubense. Não viveu em vão.

Dedicar-se às atividades sociais foi como um chamado, um ideal de servir a que se entregou de corpo e alma. Serviu em especial à Apae, entidade que presidiu por muitos anos, só deixando o cargo em razão da idade avançada, mas ainda assim emprestando seus conhecimentos às diretorias que a sucederam. Ismênia Kaysserlian (que a assessorou durante muitos anos) via o trabalho de dona Missé como uma luz interior pulsante, capaz de gestos grandiosos cheios de humanidade e amor.

Uma grande dama que Araçatuba perdeu recentemente, mas com uma história marcante onde se misturam a simplicidade de quem nasceu no campo e depois a sensibilidade nata para descobrir e entender que ninguém deve deixar de lado pessoas especiais, curvar-se aos imprevistos que rondam uma grande parcela da sociedade ou simplesmente virar as costas ao sofrimento dos esquecidos pelos poderes públicos. Sabia lidar com esse viés político.

Culta e experiente, viajante contumaz, na vida real parecia levar ao pé da letra os versos transformadores da grande poeta. E foi tudo e por inteiro o que Cora Coralina deixou como testamento lírico e prático: foi “colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta, o silêncio que respeita, a alegria que contagia, a lágrima que corre, o olhar que acaricia...”. 

Para quem teve o privilégio de conviver em sua companhia, acompanhar seu trabalho diuturno a favor da Apae (onde foi “uma estrela que brilhou intensamente”, nas palavras da ex-presidente da Adefa, Regina Rocha) e desfrutar de sua conversa calma e protetora, dona Missé simbolizava igualmente “o amor que promove” , a força bem temperada da mulher brasileira, cujos caminhos Cora Coralina sempre indicou às pessoas de boa vontade.

Pensando bem, as duas doceiras goianas (porque dona Missé fazia cocadas para ajudar as instituições sociais) tinham muitas outras coisas em comum, uma delas a de saber agradecer pela vida, este magnífico dom divino. E desejavam, ambas, que a vida não fosse curta, nem longa demais, mas que fosse intensa, verdadeira e pura enquanto durasse. 

Pessoas assim, são inspirações. E deixam saudade!

Hélio Negri é jornalista, radialista, diretor regional da Unip, Universidade Paulista, campus de Araçatuba. 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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