Um dia de trabalho como outro qualquer, ou pelo menos tão comum quanto pode ser a rotina de quem passa mais tempo acima das nuvens do que pisando chão firme. Eu, aeromoça da companhia Voazar, às vias de tornar-me co-pilota, se tudo correr bem com os cursos e as benditas provas finais. “Quase lá”, digo a mim mesma enquanto ajeito o coque e confiro o brilho opaco do batom no reflexo da escotilha.
A rotina começa cedo e termina tarde (quando termina). São checagens, apertos de cinto, sorrisos ensaiados e a eterna promessa de que “a sua segurança é a nossa prioridade”, mesmo quando sabemos que, no fundo, estamos todos entregues aos humores caprichosos da física e da sorte. Há dias em que penso que a vida de uma comissária é mais previsível nos ares do que em terra: aqui em cima tudo segue check-lists, protocolos e rotas traçadas; lá embaixo, não há plano de voo que resolva a bagunça da vida real.
Penso na família em terra firme, nas horas de descanso que planejo com mais devoção do que qualquer missa dominical. Imagino-me estirada em algum sofá que não trema com turbulências, com tempo de sobra para não fazer absolutamente nada. Mas logo lembro: investir anos em cursos, certificados e reciclagens não foi barato. Muito menos fácil. Mudar de carreira, agora, seria o mesmo que saltar do avião em pleno voo, sem paraquedas, e ainda por cima sorrindo para a câmera de segurança.
Há espinhos, claro. Todo trabalho tem os seus, e o nosso vem em forma de fuso horário trocado, pés inchados e uma saudade mal disfarçada daquilo que a gente nem percebeu perder. Mas há também as vantagens: navegar entre nuvens translúcidas, assistir ao nascer do sol com a cabeça literalmente nas alturas, flutuar num tubo metálico que, teimosamente, insiste em não cair. Há dias em que penso que, se a humanidade conseguisse viver permanentemente a dez mil metros de altura, talvez o mundo fosse mais leve.
A Voazar carrega esse sonho até no nome. Aquele “Z” foi ideia do marketing, dizem, não por acaso. “Z” de deslizar, de sono, de tranquilidade. Voazzzzzzzar, como quem se entrega a um cochilo depois do almoço, como quem se deixa levar por um barco num mar sem vento. Uma promessa de que tudo vai correr sem sobressaltos, do embarque ao pouso. Às vezes acho graça dessa imagem tão serena, especialmente quando me lembro dos passageiros que enlouquecem se o Wi-Fi oscila por mais de dez segundos.
Falando neles, lá estou eu, prancheta em mãos, conferindo a lista dos que pagarão caro para fingir que estão apenas “se deslocando”. Nome, RG, assento, profissão. Sempre a profissão (meu passatempo favorito). Médico, advogado, empresário, diplomata, pecuarista, jogador de futebol. Uma elite voadora, apinhada em poltronas reclináveis, cada qual acreditando que o céu lhe pertence por direito.
Às vezes imagino o formulário preenchido por outras mãos: operador de máquina, gari, servente de pedreiro, empregada doméstica. Rio sozinha com a cena improvável. Não que essas pessoas não mereçam voar. Merecem, talvez mais do que ninguém. Mas o céu, ao que parece, ainda não foi democratizado. O privilégio continua caro, apertado no assento 2A, com taça de espumante e milhas acumuladas no cartão black ou gold.
Eu mesma, não fosse parte da tripulação, talvez jamais tivesse deixado o chão. É a ironia mais cruel da aviação: estamos sempre em movimento, mas quase nunca vamos a lugar algum.
Checklist concluído. Passageiros a bordo. Acomodo a prancheta e aciono o telefone interno.
— Cabine pronta para a decolagem, comandante.
A resposta vem metálica no fone, e em segundos o motor ruge, o avião corre pela pista e se lança ao ar. Mais uma viagem. Mais um céu a atravessar. E, lá fora, um mundo inteiro que continua a girar.
O ronco dos motores cresce num crescendo dramático, como se o avião respirasse fundo antes do salto inevitável. Aos poucos, a pista começa a correr para trás, e aquele instante em que a terra e o céu disputam a posse da aeronave sempre me parece um breve ato de loucura coletiva. Alguns passageiros, tranquilos como quem pega o ônibus das oito, abrem livros, folheiam revistas, trocam palavras banais sobre negócios e destinos turísticos. Outros, menos acostumados ao capricho da gravidade, cravam as mãos nas poltronas e prendem o ar nos pulmões, como se estivessem em um ritual de sobrevivência.
Há um segundo quase sagrado: o átimo entre a última roda tocando o asfalto e o primeiro corte no ar, em que o avião parece hesitar. E é nesse instante, breve e intenso, que a respiração ofegante de alguns se transforma em olhar de espanto: o chão se despede e, aos trancos e gemidos, a máquina de metal grita seu esforço pela subida, até que, enfim, se desprende por completo da vida rasteira. Logo, a tensão se dissolve. O barulho do esforço dá lugar ao deslizar suave, ao zumbido uniforme que embala o voo. Agora, a quilômetros acima das certezas humanas, cortamos o ar com a leveza de quem ignora a gravidade, e a cada segundo nos afastamos das tribulações miúdas, dos engarrafamentos, das reuniões inúteis, das contas por pagar.
Pego o microfone, ajeito a voz no tom automático e profissional que aprendi a usar: aquele meio sorriso sonoro que conforta passageiros nervosos e entedia os frequentes.
— Senhoras e senhores, sejam bem-vindos a bordo do voo VZ-418, com destino direto a Recife.
Repito: voo direto. Sem escalas. Repito devagar, quase saboreando o privilégio que a frase carrega. Explico que essa rota, recém-inaugurada pela Voazar, é fruto de novas operações da companhia na cidade de Araçatuba. Até pouco tempo atrás, todas as empresas concorrentes faziam ao menos uma escala no caminho, um inconveniente que obrigava o passageiro a repetir check-ins, desembarques e salas de espera.
— Com a Voazar, senhoras e senhores, deslizamos de imediato ao destino.
A frase soa bem, redonda, fluida. Quase um slogan publicitário. Mas, no fundo, há nela uma ironia silenciosa. Porque se voar direto ao destino é um luxo, a vida em terra raramente funciona assim: sempre há escalas, atrasos, conexões perdidas. Talvez seja isso que fascine os humanos em estar a dez mil metros de altura: aqui, ao menos por algumas horas, é possível acreditar que a trajetória da existência pode ser reta, sem desvios, sem turbulências.
O avião estabiliza a rota, e eu caminho pelo corredor com a elegância coreografada de quem disfarça a rotina em leveza. No alto, somos todos iguais, passageiros e tripulação, tentando, cada um à sua maneira, esquecer que cedo ou tarde voltaremos ao chão.
O voo seguia seu curso com a suavidade prometida pela companhia, a calma silenciosa de um tubo de metal riscando o céu com a pretensão de que nada jamais dará errado. Todos, em suas poltronas, tentavam usar o tempo da maneira que lhes parecia mais útil. Afinal, aquilo não era um passeio: era um meio para um fim maior, e esse fim, seja trabalho, reencontro, férias ou fuga. Era questão de foro íntimo.
Pensei que talvez jamais voltassem a se ver. Aquelas dezenas de pessoas, reunidas por acaso dentro de uma cápsula pressurizada a dez mil metros de altura, seguiriam suas vidas separadas e nunca mais cruzariam os próprios caminhos. A não ser, claro, em caso de queda. Nesse cenário, estariam todas ligadas por um destino comum, unidas pela tragédia e pela luta desesperada por continuar existindo. A ficção já se ocupou desse enredo inúmeras vezes, séries e filmes em que os sobreviventes constroem novos laços numa ilha deserta. Mas isso é coisa de roteiro. Aqui, as chances são outras.
O tempo estava do nosso lado. Poucas nuvens bordavam o céu, e a viagem seguia sem contratempos. Mas a natureza, essa velha senhora mal-humorada, não tem palavra. Quando menos se espera, muda de ideia. Para isso, é claro, a aviação civil moderna se gaba de estar preparada: treinamento constante, tecnologia de ponta, protocolos milimétricos. Tudo pensado para que o improvável nunca se torne inevitável.
A paz, no entanto, é sempre relativa. E foi pensando nisso que peguei o microfone e, como de praxe, lembrei aos passageiros que a tripulação era devidamente treinada para imprevistos. Não imaginava, porém, que poucos minutos depois um deles realmente apareceria.
Uma senhora, algumas fileiras à frente, começou a tossir convulsivamente. Logo, a tosse virou engasgo. A mulher lutava por ar, o rosto já tingido de vermelho. Uma outra, que presumi ser a filha, a julgar pelos traços semelhantes, ergueu as mãos no desespero e gritou:
— Um médico! Por favor, um médico!
Eis que um homem de meia-idade, com a calma solene de quem sabe o que faz, levantou-se do assento e, com um olhar rápido em minha direção, pediu permissão para se aproximar. Assenti com um leve movimento de cabeça. Era médico, não havia dúvida.
Em segundos, estava ao lado da mulher. Ergueu-a do assento, posicionou-se por trás e, com firmeza clínica, envolveu-lhe o tórax com os braços. Uma, duas, três, quatro puxadas precisas. O rosto, antes rubro e agônico, alternava-se agora entre tons de roxo e suspiros irregulares. Na décima tentativa, um pequeno projétil de amendoim cruzou o corredor, livre enfim da glote que quase lhe dera um antecipado fim.
Aplausos tímidos irromperam. A mulher respirava. A família soluçava agradecimentos ao médico, esse herói de ocasião que transformara uma tragédia iminente em anedota de viagem.
Felizmente, tudo voltou ao normal. O zumbido do avião retomou sua cadência. Faltavam duas horas para Recife.
Conjecturei, então, que talvez o desfecho tivesse sido outro. Se os passageiros fossem de classe mais baixa, aqueles que, momentos antes, imaginei impossíveis de se ver num voo como aquele, a senhora talvez tivesse ali mesmo encontrado o seu fim. Em meio a risos e conversas ansiosas pelo destino sonhado, pago com o esforço inteiro de uma vida, a morte teria chegado discreta, sem pompa nem milagre, porque nem sempre há um médico por perto quando se é pobre.
Imaginei ainda outras possibilidades. Uma pane elétrica, por exemplo. Ou um erro humano qualquer, desses que as máquinas não perdoam. Quem garante? No fundo, nada é impossível. Gosto, sempre que posso, de conversar com os passageiros durante o voo. Saber-lhes os anseios, ouvir suas histórias, tentar entender de que matéria são feitos seus sonhos. Às vezes são banais, às vezes tolos, às vezes até comoventes, mas sempre humanos. E eu, de meu lado, cumpro esse pequeno papel: informar, orientar, entreter, servir.
Naquela viagem, porém, houve um encontro que escapou ao comum.
Um rapaz de uns trinta e oito anos chamou-me a atenção. Estava sozinho, silencioso, mergulhado em grossos livros de títulos que jamais ouvi pronunciar. Confesso: nunca fui dada aos livros. Também nunca me foram devidamente apresentados. Talvez, se tivessem sido, eu teria cultivado esse hábito. Minha leitura, quando muito, restringia-se a manuais técnicos, procedimentos de bordo, protocolos de emergência e, vez ou outra, a alguma história da aviação. Nada além disso. Nunca romance, nunca poesia, nunca ficção.
A curiosidade me venceu. Aproximei-me.
— Me chamo Augusto — disse ele, erguendo os olhos do papel com um sorriso tímido. — Mas não sou grande, apesar do nome.
Rimos. Perguntei-lhe como conseguia ler tanto tempo sem pausa.
— Coisas do hábito — respondeu. — Leio para angariar melhores referências aos meus escritos. Afinal, esse é meu jugo. Sou escritor.
Contou-me que viajava a Recife para participar de sua primeira Bienal Literária. Mostrou-me, com certo orgulho infantil, um bloco de notas abarrotado de rabiscos e ideias. Linhas tortas, frases incompletas, palavras riscadas e reescritas, um caos ordenado que, para ele, fazia todo sentido.
E aquilo me fez pensar.
Enquanto muitos conversavam trivialidades ou cochilavam para que o tempo passasse mais depressa, aquele homem gastava suas horas tentando refinar o pensamento. Mas não pude evitar a pergunta silenciosa que ecoou em mim: de que lhe valeria aquilo? O que ganharia com tantas palavras alinhadas no papel? Dinheiro? Prestígio? Talvez nada. Talvez tudo. Não entrei nesse mérito (nem teria coragem).
Talvez percebendo meu silêncio curioso, Augusto resolveu aprofundar o diálogo. Fechou o livro com delicadeza e, num impulso espontâneo, propôs-me um desafio.
— Quer tentar algo? — disse, com um brilho quase infantil no olhar. — Vamos criar um poema agora, aqui mesmo.
Sorri, desconcertada. Eu, que mal sabia a diferença entre estrofe e parágrafo, que nunca escrevera nada além de relatórios e instruções de voo, agora era convidada a criar poesia a dez mil metros de altura.
— Escrever — explicou ele, pegando o bloco de notas — é um ato composto por três facetas: ler, observar e escrever. Não precisa mais que isso.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, começou a rabiscar. A caneta deslizou pelo papel como quem já conhece o caminho. Em poucos segundos, ergueu a cabeça e leu em voz baixa o que acabara de nascer:
“Escrevo como quem tem medo de que esse avião caia.
Que não me valha, cair no mar, no morro, na cidade
Antes uma cilada
Medo de que o meu destino, embora sabido,
seja hoje uma vala entre destroços
Corpos rijos
Sem memórias
Vida despedaçada.”
Fiquei em silêncio. Aquelas linhas simples e improvisadas continham mais verdade do que qualquer manual de segurança que já tinha decorado.
Ali estava, condensado em poucos versos, tudo o que ninguém dizia em voz alta: o medo da morte, a consciência da fragilidade, a inutilidade de qualquer plano diante do imprevisível. Era irônico pensar que, em caso de acidente, o médico talvez pudesse socorrer feridos, o engenheiro talvez encontrasse saídas técnicas, o advogado talvez orientasse as famílias nos tribunais. Mas só o escritor seria capaz de nomear o que realmente se sente no instante em que a queda parece inevitável.
Para meu espanto primeiro, como que em prenúncio, a voz metálica da cabine rompeu a calmaria. Uma turbulência se aproximava, originada de forma intempestiva, sem causa anunciada. Aquelas informações que, no treinamento, nos ensinaram a tratar com naturalidade, ganharam um peso diferente quando ouvi na frequência do rádio o leve vacilo do comandante.
O céu, momentos antes de um azul quase literário, agora se encapelava em cinzas. Foi nesse instante que percebi como tudo pode mudar em questão de minutos, e como nenhum manual de bordo prepara, de fato, para a sensação de estar suspenso entre o que pode e o que pode não acontecer.
Peguei o microfone com as mãos um pouco mais úmidas do que o habitual. Meu tom, embora treinado, saiu diferente, mais grave, mais humano, quase trêmulo. Tentei disfarçar:
— Atenção, senhores passageiros: peço que afivelem os cintos de segurança e mantenham-se sentados. Uma turbulência de rotina se aproxima, por força de nuvens carregadas. Estamos a uma hora do destino.
O anúncio ecoou pela cabine como quem tenta fingir que está tudo sob controle. Era mentira. Nada estava. O avião começou a vibrar em intervalos irregulares, como se um coração nervoso pulsasse sob a fuselagem. As luzes oscilaram. Um copo rolou pelo corredor. O bebê no assento 14C começou a chorar.
Olhei em volta e vi que o medo, antes tímido, agora circulava livre entre as poltronas. As conversas cessaram, os olhares buscaram as janelas, como se houvesse ali alguma resposta. Pensei no médico do amendoim. De que adiantaria sua perícia se o avião caísse? E os engenheiros, com seus cálculos impecáveis, poderiam, de dentro da cabine, mudar o curso do vento?
Foi então que olhei novamente para Augusto. Ele não se movia. Continuava com a caneta na mão, escrevendo com calma quase insolente. Como se, diante da iminência do desastre, a única atitude sensata fosse nomeá-lo.
Sentei-me. Afivelei o cinto com um estalo seco, o gesto automático dos que já fizeram isso centenas de vezes. Mantive os olhos atentos a tudo e a todos. Lá fora, as primeiras luzes dos relâmpagos cortavam o horizonte. Não era uma tempestade qualquer. Havia algo de brutal e repentino naquele céu que, minutos antes, parecia tão dócil.
Embora acostumada a situações de turbulência, aquelas palavras lidas por Augusto, simples e improváveis, ainda ecoavam em mim como um presságio. Talvez, se não as tivesse ouvido, eu estivesse ali apenas cumprindo protocolos, com a mente anestesiada pela técnica. Mas agora, não. Agora, cada sacolejo da fuselagem parecia confirmar o que ele escrevera: que o destino, embora sabido, pode se transformar em vala em questão de segundos.
O avião convulsionava no ar, e o painel de avisos piscava intermitente, como um coração em taquicardia. Estávamos perto do destino — ironicamente, sempre estamos.
O telefone da cabine tocou. Atendi com a voz mais estável que consegui reunir.
— Temos falhas elétricas nas turbinas — disse o comandante, baixo, como quem confessa um pecado. — Ainda acreditamos ser possível um pouso de emergência. Não alardeie. Prepare-se.
Coloquei-me à disposição, como sempre. Nessas horas, a frieza profissional não é escolha, é instinto. Mas por dentro, algo já começava a ruir, não tanto pelo medo da queda, mas pela consciência de que nada do que eu sabia fazer seria suficiente.
Foi então que olhei novamente para Augusto. Ali estava ele, firme, concentrado, escrevendo com a serenidade de quem rabisca a lista de compras. Anotava frases retiradas de um livro que tinha em mãos: As Intermitências da Morte. Sorri, meio incrédula: que outra leitura seria mais apropriada naquele momento?
E foi nessa imagem que me peguei pensando, quase com ironia amarga, que talvez, se tudo desse errado, o único relato que restaria daquela noite seria o que ele escrevia ali, a caneta, entre solavancos e relâmpagos. Que, no meio do caos, não seriam os protocolos, nem as leis da engenharia, nem mesmo o heroísmo médico a nos salvar do esquecimento. Seriam as palavras.
A mente fervilhava. Era um turbilhão de pensamentos que não chegavam a se formar por completo. Estilhaços de consciência que se chocavam uns contra os outros sem ordem nem coerência. Naquela sucessão de acontecimentos, mal havia tempo para pensar nas escolhas feitas e em suas consequências. Tudo aquilo que, no chão firme, parecia tão lógico, a utilidade de umas funções, a aparente inutilidade de outras tornava-se agora, irrelevante diante do caos iminente, que não obedecia a lógica alguma.
O diário de bordo registraria tudo: altitude, coordenadas, velocidade, falhas. Mas não registraria o que se passava dentro de cada um de nós. Não contaria sobre o suor frio escorrendo pelas costas, nem sobre o silêncio denso que se impôs quando todos entenderam, sem que ninguém dissesse, que algo estava profundamente errado.
A confusão se instalou. O controle, até então tão cuidadosamente mantido, escapou pelos dedos como areia fina. O avião, aquela máquina orgulhosa, produto de séculos de ciência e engenharia, estava agora à deriva, entregue a um céu mais negro que o pior inferno imaginado.
De todos os presentes, nenhum, por mais instruído, hábil ou experiente que fosse, podia fazer algo que rompesse a agonia dos que caminhavam sobre a corda bamba do destino. O médico não podia deter a queda. O engenheiro não podia consertar o vento. O comandante não podia desviar do inevitável. E eu… eu não podia fazer mais do que observar.
Fechei os olhos entre lágrimas. A lembrança da infância veio primeiro: as tardes correndo descalça, o cheiro da chuva no quintal, os sonhos que ainda não sabiam seu próprio nome. Depois veio a juventude, com seus amores errados e suas urgências tolas. Por fim, a maturidade, ou aquilo que eu chamava de maturidade, que talvez nunca me chegasse.
Pensei que, se escapasse daquela, escreveria um livro. Um livro de memórias. E que talvez Augusto me ajudasse, se também sobrevivesse.
O silêncio caiu pesado. Os motores cessaram. Restava apenas o vento, arrastando-nos em queda livre para um destino incerto. O avião sacudia como um brinquedo frágil nas mãos de um deus distraído. Abri os olhos com um grito, e, de repente, todos me olhavam.
Acordava?
No telefone, a voz metálica rompeu o transe:
— Senhoras, senhores e tripulantes da Voazar, preparar para o pouso em Recife.
Acordei de um pesadelo. Chorava. Não sabia ao certo quando as lágrimas começaram a cair, mas sentia nelas um alívio que eu não sabia nomear. Augusto talvez soubesse. Virei-me e encontrei-o no olhar de quem, agora, eu achava ser Augusto. Ele sorriu. Nesse instante, já não sabia se aquele homem tinha mesmo esse nome, se realmente escrevia ou se fora apenas um personagem inventado pela minha consciência para me ensinar algo que eu sempre recusara a entender.
O desespero descansava. O pouso era certo. E a morte, ao menos por enquanto, adiava-se.
Mas um pensamento ficou com a força de uma epifania:
Talvez, se a morte nos aguardasse no chão, o mais útil de todos fosse aquele que escreve. Ou talvez a pergunta certa, desde o início, não fosse “há um médico a bordo?” nem “há um engenheiro?”
Talvez a pergunta certa fosse: há um escritor a bordo?
