Opinião

Meu encontro com a covid

"Como paciente, foi assustador ter contato com essa realidade. Fui envolvida em um lençol, fui direcionada até uma sala reservada para pacientes de covid. Lá, um médico me informou que provavelmente estava contaminada e disse que eu seria testada"

Heloísa Helena Silva Pancotti*
28/10/20 às 21h40

Eu sempre fiz questão de obedecer as regras sanitárias impostas, usando máscara e álcool em gel, lavando as mãos com frequência, tirando os sapatos na entrada de casa, retiro as roupas de trabalho assim que chego, desinfeto tudo o que entra em casa. Virei ávida consumidora de todo tipo de desinfetantes em spray, líquidos etc.

Nada disso impediu que eu contraísse a covid-19. Fiquei me questionando onde eu teria errado, porque em todas as vezes em que eu saí de casa, tomei todos os cuidados e segui as recomendações.

O elo fraco do meu esquema protetivo foi o contato rápido com uma pessoa que não usava máscara. Mesmo nas melhores atitudes, a falta de máscara pode prejudicar pessoas que você ama e você mesmo(a). A pessoa que me contaminou me ama e eu a ela, não foi de propósito, não havia como ela saber que carregava o vírus. É nesse contexto que mora o perigo, pois é impossível saber se você está carregando o vírus ou não, principalmente quando se está assintomático.

Eu tive muita sorte. Meus sintomas foram leves, sequer tive febre, o que prejudicou que eu identificasse os sintomas iniciais. Como colunista deste veículo, achei que deveria relatar minha experiência para que pudesse ser útil para todos.

Os primeiros sintomas me chegaram em forma de cansaço. Não um cansaço normal, uma exaustão, uma prostração mental e física. Sou uma pessoa extremamente ativa, com uma rotina de trabalho e estudos intensa; não percebi o que estava acontecendo, achei que precisava descansar.

Depois disso, começou um resfriado, aparentemente bobo. Tosse seca, garganta raspando, mas como eu já tinha tido esses sintomas e já havia feito outros testes que deram negativo, não dei importância.

Foi então que tudo começou a piorar, cinco dias depois dos primeiros sintomas. Passei o final de semana de cama, não tinha vontade de comer, levantar ou fazer qualquer coisa; perdi o olfato e o paladar. Tive dificuldade em me levantar da cama, sensação de desmaio, indisposição. Resolvi procurar o pronto-socorro do meu plano de saúde. Lá a pandemia me mostrou a sua terrível face.

O protocolo de atendimento dos pacientes de covid é necessário para proteger a vida dos profissionais de saúde que são, na verdade, a categoria que mais se contamina no trabalho e a mais necessária no combate a essa doença.

Como paciente, foi assustador ter contato com essa realidade. Fui envolvida em um lençol, fui direcionada até uma sala reservada para pacientes de covid. Lá, um médico me informou que provavelmente estava contaminada e disse que eu seria testada. Mas eu vi uma outra face da doença: enxerguei o medo nos olhos dos trabalhadores da saúde. Por vê-los trabalhar de forma tão humanizada, enfrentando esse medo, aqui eu rendo os meus mais sinceros agradecimentos.

Uma enfermeira veio colher o PCR - já adianto que o procedimento é horrível - me explicou que eu estava sendo monitorada e que deveria ir direto pra casa. Me informou até que dia duraria minha segregação e quais normas eu deveria seguir para não contaminar minha família, as pessoas que vivem comigo.

Fui tratada com medicamentos próprios - nada de cloroquina ou ivermectina - e fui prisioneira de meu quarto até o final do período que os médicos determinaram que deveria evitar sair.

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Me questionei: de que adiantou tanto cuidado? Pois bem, caro leitor, adiantou muito, adiantou tudo! Eu liguei para todos que tiveram contato comigo, eu não contaminei ninguém, nem mesmo meu marido e filho. A minha preocupação em seguir as regras, protegeu aqueles que eu amo.

Estar trancada no meu próprio quarto não foi de todo mal, é um ambiente confortável. O que machuca e abala mentalmente é a falta do toque, do carinho, de estar sozinha, de dormir sozinha, a falta do carinho daquelas pessoas que você quer bem e que te fazem bem.

A ciência ainda não sabe com certeza como se comporta o vírus, como se dá a transmissão, porque algumas pessoas não contraem a doença e outras sim. Todo cuidado é pouco.

Essa minha história é um alerta. Tenho visto as ruas cheias, os restaurantes cheios e muitas pessoas que insistem em não usar máscara. Fuja dessas pessoas! Não frequente lugares que permitem a circulação de pessoas sem máscara.

A humanidade já enfrentou muitos desafios como esse, em todos saiu-se fortalecida. Sairemos dessa fortalecidos, enquanto a solução não é encontrada, protejam-se, protejam aqueles que convivem com vocês.

Hoje, já curada há semanas, ainda tenho dores de cabeça, ainda tenho cansaço, ainda sinto exaustão mental. Tive sintomas leves, repito. Os médicos me disseram que a máscara me protegeu, diminuiu a carga viral a que eu fui exposta e isso fez toda a diferença. Não precisei de internação, não sofri nada parecido com o que sofrem as pessoas hospitalizadas em razão da doença.

Apelo ao bom senso: use máscara, siga as normas de higiene. É um ato de amor.

Arquivo pessoal

*Heloísa Helena Silva Pancotti é advogada, consultora jurídica, professora universitária e autora da obra “Previdência Social e transgêneros”.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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