Opinião

Na passagem, a eternidade

"Nossa história foi assim. Sempre intensa. Ali nasceu uma grande amizade e admiração que levamos para o palco e para a vida"

Paula Liberati*
16/12/19 às 14h19

A vida é mesmo uma passagem. E o quanto nos abrimos para os encontros de qualidade, enquanto aqui estamos, é o que nos definirá além mar, além céu, além terra.

No dia 25 de novembro deste perturbado ano de 2019, deixou de estar presente entre nós o grande amigo, dramaturgo referência nacional e jornalista Zen Salles, maranhense que adotou São Paulo como sua cidade.

Foi na megalópole que, um dia, nos encontramos na vida real. Após o impacto de ter visto sua premiada peça “Pororoca”, fiz contato com ele via Facebook e de pronto ele já abriu seus braços e virei sua diva “facebookiana”. Ele dizia que iríamos fazer algo.

Uma noite, as estrelas conspiraram e nos encontramos no underground Teatro Cemitério de Automóveis e nos abraçamos como se sempre nos conhecêssemos.

Nossa história foi assim. Sempre intensa. Ali nasceu uma grande amizade e admiração que levamos para o palco e para a vida.

Zen foi um transgressor. Artista livre, pensador sedento. Era força e Carnaval. Vivia com a pele e o peito abertos. Um artista assim não sobrevive mesmo muito tempo neste caos.

Zen era luz. Iluminou muitas vidas com seus textos. Deixou peças profundas e polêmicas. Íamos montar um infantojuvenil que sabíamos que seria censurado em tempos obscuros como este. Mas juntos, seguíamos abraçados. Na vida e na arte.

Zen amava as mulheres, sabia de onde vinha. Zen era mestre dos encontros, dos seus próprios e dos que achava que deveriam acontecer. Assim conheci muita gente amada.

Um destes amigos me disse: “Paula, eles morrem e morre um pouco de nós, porque morre este olhar sobre o que somos”. Zen morreu e morreu uma Paula que amávamos. Mas eu sigo viva e ele seguirá vivo em mim, porque vive sua coragem inspiradora, seu amor transbordante pela vida e pela arte. Zen era arte e vida. Zen seguirá vivo em mim e em tantos encontros potentes que se permitiu viver.

Mas, também, Zen seguirá vivo na história da arte brasileira, pois um escritor, seja de teatro, cinema ou romance, é um ser eterno. Esse é um dos grandes poderes mágicos da arte. Enquanto uns passarão (e que passem!), os artistas permanecerão. Zen permanece.

Viva Zen Salles, que não poderia ter partido de outra maneira a não ser do seu imenso coração!
Vivamos nós, porque isso tudo é mesmo passageiro. Ainda bem!

(Foto: Clayton Khan)

*Paula Liberati é mãe, atriz, performer e adora se aventurar. Mas, antes de tudo, é uma apaixonada.

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