O título acima pareceu estranho para você? Acredito que sim, mas foi proposital. Quero mesmo que você reflita sobre: o que uma redação de vestibular tem a ver com recheios? Recheios do quê?
Vou explicar a metáfora do bolo (para quem gosta de doces) ou do lanche (para aqueles que são dos salgados). Pense: a grande maioria dos bolos leva, na massa, basicamente, alguns poucos ingredientes como leite, farinha e ovos. Comer um bolo simples assim é sempre melhor do que não comer nada, mas se ele tivesse um recheio, de chocolate, por exemplo, ficaria bem melhor, não é?
A mesma ideia serve para o lanche. Pão com manteiga é bom. Mas se puder acrescentar hambúrguer, ovos, salada e queijo, com certeza ficará melhor. Pois bem, com os textos produzidos para vestibular, o raciocínio é o mesmo. As maiores notas – e consequentemente as vagas nos vestibulares – ficarão para quem escrever além do básico.
Mas o que é o básico em redação? É a estrutura, as etapas que expliquei nessa mesma coluna nos textos anteriores de semanas atrás. Mostrei a você, leitor, que a dissertação é o gênero textual mais solicitado nos vestibulares e que no modelo Enem é preciso respeitar uma fórmula que começa com a tese (introdução), depois vem a argumentação (desenvolvimento) e, por fim, a conclusão.
Entretanto, os mais de seis milhões de candidatos que farão redação do Enem em janeiro já conhecem este modelo. Para você evitar o senso comum, seu diferencial será o recheio, cujo nome técnico é repertório.
Trata-se de todo o conhecimento que o candidato conseguiu acumular em toda sua vida em experiências de educação formal, na escola, com as várias disciplinas, mas especialmente na educação informal, conquistada fora do ambiente escolar. São os valores familiares, religiosos, os livros, os filmes, as séries, as músicas, enfim, todo o seu conhecimento de mundo.
Quanto mais repertório o candidato conseguir usar para defender seu ponto de vista de forma diferenciada dos demais, mais pontos pode acumular. Daí a necessidade do uso de referências e alusões que figuratizem, concretizem, as ideias do autor.
Quanto mais o candidato conseguir escrever e provar o seu ponto de vista de forma diferenciada (citando obras, filmes, séries, personalidades, etc), mais perto ficará da graduação. Ou seja: invista em criar recheios interessantes, saborosos, que atraiam o apetite do corretor para o seu texto. E boa prova!
*Ayne Regina Gonçalves Salviano é professora de redação, jornalista e mestre em comunicação e semiótica