Recentemente, José Roberto de Castro Alves, professor universitário, advogado e escritor brasileiro, tomou posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), como titular da cadeira 26. Dono da maior biblioteca shakespeareana do país, com 5 mil títulos, em seu discurso de posse, o novo imortal, cujo sobrenome já lhe imprime a veia literária, destacou o papel da leitura e das artes na formação da nossa identidade e modos de ser, pensar e existir. Imbuído de sua trajetória literata, que transita dos mais canônicos livros da área jurídica a Guimarães Rosa, Shakespeare e aos Beatles, José Roberto formulou paralelos entre os diferentes caminhos estéticos e suas ressonâncias, sobretudo, afetivas, seguindo os múltiplos personagens e vozes que permeiam suas obras. Ao afirmar que “somos a educação que recebemos. Os livros que lemos. As obras de arte que apreciamos. As músicas que ouvimos. Somos aquilo que nos emociona ”, Castro Alves nos convida a ponderar a respeito das dimensões que nos constituem como seres sociais e, destarte, sobre em que medida a instituição escolar mobiliza essa peculiaridade intrínseca à condição humana.
Se somos, como destaca José Roberto de Castro Alves, aquilo que nos emociona, então, é urgente a reflexão acerca de como a educação opera essa afetividade que, silenciosamente, atravessa-nos e estrutura a nossa maneira de estar no mundo. Entre o sentir e o pensar, ergue-se o território sensível dos processos de ensino-aprendizagem, ou seja, lugar em que a emoção não é uma simples distração ou desvio do intelecto, mas a sua origem – e manancial expansionista - mais genuína e profundamente humana. Contudo, o âmbito escolar moderno, muitas vezes guiado pela lógica neoliberal e capitalista da produtividade e da neutralidade afetiva, ao ignorar ou silenciar vozes à margem, relega a segundo plano o fato de que o conhecimento também pulsa, transpira e vibra. Talvez seja nesse desencontro entre as dimensões do coração e da consciência que a potência transformadora da educação erra a rota quando somente a instrução e a informação técnica são priorizadas. Por conseguinte, a escola deixa de despertar, de formar, de tocar, de encantar, de afetar e, principalmente, de nos convocar ao engajamento para questionar e mudar o status quo.
Ao pensar que somos frutos de experiências sensíveis, a voz de bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, de algum modo, ecoa quando propõe “a educação como prática da liberdade” , realizada na relação viva e afetiva entre sujeitos, mas não na mera transmissão de informações. Como pontua René Depestre, poeta, romancista e ensaísta haitiano, “minha alegria é saber que você é eu e que eu sou fortemente você” . Em termos distintos, estar no mundo é uma experiência afetiva de comunhão estética e política entre corpos e vozes. Portanto, conceber as práticas educativas nesse horizonte é se deixar afetar e permitir que o outro também se transforme na presença do nosso gesto, palavra, olhar ou silêncio. Para além de um singelo receptáculo de conhecimentos, nosso corpo é um potente universo onde se inscrevem e se imprimem as marcas do vivido e da nossa ancestralidade. A partir desses insumos idiossincráticos, ímpares em cada um de nós, podemos ressignificar o vivenciado e atuar como agentes de transformação em nós e no coletivo.
Nessa toada em relação ao campo estético, Lélia Gonzalez (1935-1994), filósofa e antropóloga brasileira, entende que a nossa percepção do mundo é forjada pelos meandros da sensibilidade, nos quais vivências, memórias e cultura jamais se separam. Pelo contrário, estão permanentemente imbricados. Como apontou José Roberto de Castro Alves, afora o aspecto estilístico, cada música ouvida, cada obra de arte contemplada e cada livro lido carregam, por exemplo, histórias, cosmologia ancestral, resistências e potências transformadoras. Sob essa ótica, Frantz Fanon (1925-1961), filósofo político natural das Antilhas francesas, ao refletir sobre as experiências vividas por pessoas negras, ressalta que as marcas deixadas por palavras, olhares e acenos não são neutras, uma vez que podem ferir e aprisionar, mas, a depender das circunstâncias, também emancipar. Nesse lastro, a pedagogia sensível é aquela que reconhece essas cicatrizes e as transforma em potência de ação e criação. É nesse reconhecimento que a emoção revela seu caráter político: não como fragilidade, mas como instrumento mobilizador, insurgente e emancipador.
No horizonte literário, essa inscrição de vida na e pela palavra, por exemplo, é conceituada por Conceição Evaristo, linguista e escritora brasileira, como escrevivência. Escrever, falar ou ensinar é transformar lembranças e matrizes de origem em matéria de mundo, de modo que aquilo que nos tocou, quer seja um abraço, uma música, um quadro, um livro, um canto ou uma flor, converta-se em expressão revolucionária. Assim, a estética e a ética não se dissociam, pois são pilares que abrem caminhos para diferentes e variados repertórios, dignidade, reconhecimento e rupturas.
Quando o novo domiciliado da cadeira 26 da ABL, originalmente ocupada por Guimarães Passos, poeta brasileiro, refere-se ao fato de que os fenômenos afetivamente significativos igualmente nos movem, é importante salientar os pensamentos convergentes de Abdias Nascimento (1914-2011). O escritor e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiras compreendia a arte como uma ferramenta de libertação coletiva. Para o dramaturgo e artista plástico, além da equivocada concepção das fronteiras do luxo intelectual, a sensibilidade estética tem fundamento político, uma vez que pode projetar imagens de futuros sujeitos potentes diante da naturalização da opressão e estagnação. Na contramão, o vigor da esfera artístico-sensível pode fomentar modos outros de ser, pensar e existir.
A travessia entre o sensível e o inteligível, assim como entre o já experenciado e o presentemente refletido, é uma prática cotidiana de autoconstrução. Nesse esteio, Angela Davis, filósofa e ativista socialista norte-americana, discute que o conhecimento se torna revolucionário quando é encarnado e vivido, ou seja, quando deixa de ser apenas um conceito abstrato e se transforma em manifestação que confronta injustiças. Por isso, cada experiência que nos afeta carrega o potencial de se tornar ação libertadora, desde que cultivemos o diálogo coletivo entre o que sentimos e o que pensamos.
Essas relações são sempre tensionadas por histórias, sons, imagens, cheiros e palavras, dentre outros artefatos da disposição sensório-perceptiva, que nos compõem, nos ferem, nos curam e nos empurram para novas paisagens. Dessa feita, no cerne da educação transformadora reside a união indissociável do domínio estético-afeto-cognitivo articulado, porém, perpassado inadvertidamente, pelas contradições, complexidades, incertezas e saberes originários que nos fazem humanos. Trata-se, na verdade, da tessitura de experiências e vivências que perenemente reconfiguram a existência humana. Em consonância com Bakhtin (1895-1975), filósofo da linguagem e historiador russo, a considerar suas discussões quando enfatiza a natureza polifônica da consciência e da multiplicidade de vozes que nos plasmam, somos produtos da interação dialógica com o mundo já vivido e o que hodiernamente se vive. Dito de outra forma, somos seres que se (re)constroem incessantemente na tensão entre si e o outro, bem como, sobretudo, entre o passado e o presente, tal e qual entre a emoção e razão.
Por fim, quem sabe educar seja, antes de tudo, aprender a sentir o que pensamos, e a pensar o que sentimos, de modo que a escola não transmita única e exclusivamente saberes e repertórios técnicos, mas cuide daquilo que emocionalmente nos afeta, nos move e nos humaniza. Afinal, o que a educação faz com o que sentimos define, em larga medida, o tipo de mundo e vivências que podemos imaginar e transformar.
