Inspirada no poema “Da calma ao silêncio” de Conceição Evaristo, linguista e escritora brasileira, a 36ª Bienal de São Paulo, inaugurada em 6 de setembro, ilumina a odisseia da humanidade como ações em constantes movimentos de experiências para além da materialidade do digitalmente subserviente contexto contemporâneo que, fragmentado por desigualdades e preconceitos, bem como pela erosão do respeito e da ética, demanda recriar os vínculos, questionar as desigualdades e valorizar a escuta responsiva como fundamentos para um novo viver.
Nesse sentido, a megaexposição de artes, intitulada “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática” , com 125 participações individuais e coletivas, propõe reflexões críticas sobre a pluralidade da condição humana na seara da velocidade do estético-ostentativo mundo colonial-capitalista, que sequestra a língua e o corpo, ao impor a urgência, a produtividade, a ditadura das telas, a uniformização, o utilitarismo, tal e qual o permanente estado de alerta. Assim, ao tomar os versos de Evaristo como horizonte emancipatório, o evento cultural paulistano afirma trajetórias não lineares ou já conhecidas, valorizando a diferença, a alteridade e os gestos que não seguem as estradas centrais já percorridas, mas abrem possibilidades outras de se prospectar novas formas de ser, pensar e existir.
No avesso da pressa da vida moderna, a primeira estrofe do poema ( “Quando eu morder a palavra,/por favor, não me apressem,/ quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo,/ para assim versejar o âmago das coisas) , numa perspectiva política e existencial, evoca a imersão profunda na linguagem, no pensamento e no próprio existir. Trata-se de ir além da superfície, desvelando o âmago e as vivências que, muitas vezes, a celeridade da vida moderna oculta, quando não apaga. O eu lírico de Evaristo propõe um ato de resistência ontológica e epistemológica, pois demorar-se na palavra se refere à insurgência contra a lógica do consumo rápido e à busca pela essência dos fenômenos por intermédio de termos da nossa língua que nos cercam ininterruptamente. Para além de um veículo de comunicação, a linguista mineira convoca a linguagem como percurso de lastreamento, transformação e revelação do que se oculta às pupilas e, por conseguinte, só pode ser individualmente vivido, experenciado e sentido.
Ao destacar a potência do olhar atento, com a estrofe “Quando meu olhar se perder no nada,/por favor, não me despertem,/quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento”/ , Evaristo reivindica o direito de se perder e de se deixar levar pelo “nada”, que definitivamente não é vazio, mas um terreno fértil de pausa e de silêncio. Afora a materialidade da realidade decorrente do dilúvio de informações que, longe de esclarecer, distanciam-nos do recolhimento e da escuta de nós mesmos, a atenção ao infinitamente pequeno abre oportunidades para que o mundo se revele em sua delicadeza e sutileza. Destarte, o olhar que se perde “no nada” torna-se um gesto político e poético de galhardia, numa prática de desviar-se das expectativas de contínua produtividade e de reconhecer que a humanidade se constrói também nos intervalos, nas pausas, nos detalhes que escapam às famigeradas telas, nas brechas do visível e na esfera do oculto.
Ao mobilizar o movimento no terceiro trecho da poesia metafórica e sensorial, ou seja, “Quando meus pés abrandarem na marcha,/ por favor, não me forcem./Caminhar para quê?/Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na aparente inércia./Nem todo viandante anda estradas,/há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”/ , a literata pós-moderna pleiteia o direito de suspender o tempo do galopante progresso neoliberal para habitar e se deleitar na pausa. O que parece passividade é, na verdade, outro estilo de atividade interior, contemplativa, poética, epistêmica. É nesse “não fazer” que a autora de Belo Horizonte encontra a potência de perceber e criar, pois aquele que caminha não precisa seguir estradas pré-traçadas, visíveis, utilitárias, universalmente concebidas. Existem mundos latentes, invisíveis à pressa, inacessíveis ao cálculo e à efemeridade das onipresentes telas. Esses universos só se revelam a quem aceita a introspecção, a escuta poética, o sublime, o diferente. A quietação aqui não é ausência, mas um potencial epistemológico e de resistência de um novo porvir.
Nesse esteio do lirismo poético, Audre Lorde (1934-1992), escritora, filósofa e poeta norte-americana, assevera que “a poesia não é um luxo”, mas um modo de nomear realidades outras, intangíveis aos olhos, e nos tornar plenos como humanos. O indizível de Evaristo é fértil, grávido de mundos outros nunca concebidos, tampouco vividos. É uma latência que fala, que cria, que insurge e transforma. Assim, a poesia se torna uma via de acesso desses territórios interditados pela pressa do modus operandi hodierno. Na Bienal, os mundos de ancestralidade, de memória e de dor não dita se materializam em obras, performances e instalações que reconhecem o direito de parar, de escutar o soturno e de idealizar outras formas de existência. Há uma aposta na contemplação como lugar de criação e na palavra como corpo vivo. Portanto, existir é também saber parar, silenciar e escutar o campo velado que pulsa sob a superfície da realidade, em meio à agitação incessante que tudo visceralmente exige e consome.
Nesse ponto, ao se alinhar com as proposições do poema no que diz respeito à oferta de um espaço-tempo que potencializa o silêncio, a pausa, a escuta profunda e a criação plural, a 36ª Bienal de São Paulo objetiva o poema de Conceição Evaristo de maneira contundente. Quando, ao nos aquietarmos e interrompermos a ressonância caótica da contemporaneidade, particularmente, da cacofonia do mundinho das telas, a exposição permite escutarmos o que a arte, com a sua idiossincrasia silenciosa, tem a nos dizer e, por conseguinte, concebê-la como um instrumento de sensibilização, resistência, criação e descoberta de caminhos alternativos de existência e presença do mundo.
