Com o intuito de fazer uma introdução ao tema, faz-se necessário apontar a abordagem de duas grandes teóricas: Simone de Beauvoir e Heleieth Saffioti.
No primeiro volume do seu clássico livro "O Segundo Sexo", a filósofa francesa fala sobre a construção social do "ser mulher", que aqui será utilizado para analisar o "ser homem": "Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa que é a feminilidade".
Nesse sentido Saffioti se propõe a esclarecer o que é (ou deveria ser) o "ser mulher" ou "ser homem" e a "feminilidade" ou "masculinidade" enquanto ideologia que reflete "uma estrutura de poder, cuja distribuição é muito desigual em detrimento da mulher".
Segundo a brasileira, "elas são socializadas para desenvolver comportamentos dóceis, contidos, pacíficos. Os homens, ao contrário, são estimulados a desenvolver condutas agressivas, perigosas, que revelam força, coragem [...] homens dispostos a transformar a agressividade em agressão". Essa é a principal expressão do poder representado pelo patriarcado: construção de uma masculinidade violenta que detém o monopólio social.
Agora podemos atingir o ponto central da discussão: as denúncias de assédio e importunação sexual contra professores de duas unidades do Centro Paula Souza (ETEC). A semana do dia 19 de junho foi marcada pela divulgação do afastamento de dois professores de diferentes unidades do Centro Paula Souza.
É de conhecimento mútuo o assédio sofrido por alunas (muitas vezes menores de idade) vindo de seus professores e embora a maioria dos casos não seja denunciada para a polícia ou direção das instituições, não são poucas meninas e mulheres que enfrentam essas situações (podem perguntar para suas filhas, irmãs ou conhecidas).
O fator de maior desconforto nos casos veiculados pela mídia no meio de junho, é justamente o fato de que, devido à pandemia de covid-19 e às medidas de distanciamento social adotadas, as aulas estão acontecendo de maneira remota. Um dos profissionais foi indiciado pela Polícia Civil após se masturbar em frente aos alunos que acompanhavam a vídeoaula.
Embora o professor em questão tenha alegado não saber que estava sendo filmado, é preciso compreender que essa ação é fruto de uma socialização patriarcal. De uma socialização que estimula e exige virilidade e exercício da sexualidade masculina. Não é possível, portanto, falar sobre uma “masculinidade tóxica” porque não existe “masculinidade detox”. A socialização masculina cria homens aptos a exercerem seu poder dentro de uma sociedade patriarcal que legitima essas ações.
Podemos finalizar esse artigo citando novamente Simone de Beauvoir quando diz que “até mesmo o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres”. Precisamos compreender a masculinidade não como algo inerente ao homem enquanto indivíduo, mas a uma socialização destinada a esses homens.
Masculinidade é, portanto, o modo como ele, o homem, se apresenta e se porta perante a sociedade. Não de maneira consciente, mas seguindo os princípios de uma construção social, histórica e política secular. Precisamos debater a masculinidade. Precisamos descontruir a masculinidade. Precisamos destruir a masculinidade. Só assim teremos justiça e paz.
*Breenda Karolainy Penha Siqueira é historiadora e mestranda em educação pela Unesp de Marília