Opinião

Quem é o artista?

"É isso o que produzirá, o que vive, o que vê, o que sente, o que o faz sangrar"

Flávia Baxhix* - Hojemais Araçatuba
09/11/19 às 18h00

Ele tem uma certeza e apenas algumas poucas ideias sobre o que produzirá no futuro. Nessa premissa é que se inspira e deixa-se atravessar pelas banalidades e pela rotina no ambiente ao qual está imerso. Ele não é de meios termos! Precisa que tudo transborde em si, que nada o anestesie.

Sente sede de sons, fome de imagens, náusea de injustiça, raiva de preconceito, curiosidade, êxtase pelas descobertas e gratidão pelos encontros. Vive o mundo que se apresenta a ele e o transpõe na arte que faz. É isso o que produzirá, o que vive, o que vê, o que sente, o que o faz sangrar.

A arte deve questionar. É preciso lembrar-se disso! Se o artista não se deixa impactar pela fome, pela dor, pela miséria moral e financeira, que perguntas lançará ao universo? Que arte fará? Não esperem nada, nenhuma previsão, a vida por si só é imprevisível. A certeza que ele tem é que tudo é uma questão de perspectiva do olhar e por isso ele não tem expectativa que o que faz seja aceito por todos. Ele sabe que o não ser aceito não é uma falha, é só um ponto de vista. Afinal, quem gosta de ver suas fraquezas estampadas numa fotografia?

É mais fácil correr quando não se pode encarar. É mais fácil não ver que uma simples atitude menos egoísta poderia transformar o mundo de muitos. É mais fácil não consumir arte e delegá-la ao poço da marginalidade. A humanidade é assim, foge de si!

Mas o artista segue rejeitando qualquer rótulo que possa encerrá-lo num porão qualquer de produção em nome da aceitação. Ele escapa das armadilhas de definição. Não faz isto ou aquilo, faz isto e aquilo, faz o que o mundo mostra a ele.

O que desperta seu processo criativo passeia por um largo campo. Cada olhar, cada atitude, um respirar suave ou um suspiro de morte, tudo toma sua atenção e o coloca em estado de questionamento. Ele não sabe o que fará no futuro, mas permanece atento às subjetividades que invadem a alma e são as engrenagens que fazem girar a roda da produção. Aceitem ou não, assim age o artista. Nem sempre trazendo o “belo” para sua sala de estar.


*Flávia Baxhix é artista multimídia, fotógrafa e arte educadora no programa Pontos MIS do Museu da Imagem e do Som -SP.

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