Opinião

(R)Existência

"É possível romper com o ciclo que nos leva cada dia mais em direção a um futuro sombrio"

Andréia Stankiewicz*
16/11/19 às 12h00

A marca da violência vem nos acompanhando desde que nascemos: através da mutilação cirúrgica do corpo das mulheres que se tornam mães; da prematuridade iatrogênica pela suposição tecnocêntrica do tempo “ideal” de se vir ao mundo; da separação puerperal inescrupulosa dos corpos em fusão (díade mãe-bebê); da falsa ideia tão propagada de que colo e carinho fazem mal; dos desmames precoces e abruptos; das emoções humanas caladas com bicos de borracha, excesso de açúcar e objetos de consumo de todo tipo; das telas hipnóticas que amortecem os sentidos.

Todos os dias, crianças crescem vilipendiadas, sob gritos, ameaças e castigos, sem voz e sem vez. Apanham e não morrem (pelo menos não na maioria das vezes). São terceirizadas, negligenciadas, abandonadas. Não podem brincar, pois não há tempo a perder: inglês, francês, natação, computação... Ou então vivem como figurantes imersas em um cenário de profundos contrastes e desigualdades. São obrigadas a se adaptar a uma sociedade adoecida, e quando isso não acontece são rotuladas, diagnosticadas e medicalizadas.

Se tornam adultos com ansiedade, depressão, doenças crônicas, câncer. Tomadas pelo medo, pela raiva e pela dor. As farmácias e igrejas se multiplicam. Haja remédio e fé para curar os corações destroçados. A crença de que a vida é dura e o sofrimento, um mal necessário, constitui a base da sociopatia tal qual ela se apresenta. Herança que vai sendo transmitida de geração em geração.

Contudo, é chegada a era da informação e da consciência. É possível romper com o ciclo que nos leva cada dia mais em direção a um futuro sombrio e cultivar nas gerações vindouras sementes de amor e paz. Revolucionar a forma de nascer, cuidar, educar e crescer. Priorizar a infância em prol de um mundo melhor: humanizar o parto, garantir direitos, investir na saúde, educar com amor. Para que não precisemos apenas sobreviver, resistir. Para que possamos, plena e livremente, EXISTIR!

Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar .” (Nelson Mandela)

(Foto: Arquivo pessoal)


*Andréia Stankiewicz é dentista odontopediatra funcional e maternoinfantil, com habilitação em odontologia hospitalar, especialista em aleitamento materno e doula. Mãe da Luiza e do Pedro.

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