Opinião

Sessenta e cinco anos sem a artista do Brasil mais famosa no mundo

"Ao lado de dezenas de compositores e intérpretes, Carmen ajudou a popularizar o que hoje conhecemos como samba. A “Pequena Notável”, apelido que ganhou do radialista César Ladeira devido ao seu grande sucesso e baixa estatura, bateu vários recordes"

Guilherme Leal*
11/08/20 às 17h56

O que é ser brasileiro? O que representa a nossa brasilidade? Talvez se um estrangeiro fosse responder a essa pergunta, iria usar alguns adjetivos como: ser alegre, vibrante, afetuoso, gostar de samba e carnaval.

Essa imagem do Brasil que se perpetua até hoje foi difundida pela primeira vez de maneira vitoriosa pela mais famosa artista que já tivemos: Carmen Miranda. Neste mês de agosto, o mundo artístico lembra os 65 anos de sua morte.

Carmen Miranda levou o nome do Brasil para os palcos e telonas dos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Assim como milhares de pessoas, eu, que escrevo este texto, também estive em isolamento social. “Quarentenado”, resolvi encarar alguns desafios literários e um deles era devorar a biografia de Carmen Miranda escrita pelo colega jornalista Ruy Castro. Me tornei fã de ambos.

Carmen nasceu em Portugal, mas veio para o Rio de Janeiro aos 10 meses de idade. Ela mesma se chamava de carioca e brasileira, o que ficaria nítido em suas canções no futuro. Recusava o rótulo de europeia lançado por alguns desafetos.

De família simples, Carmen foi descoberta enquanto cantava e ajudava a mãe a servir o almoço aos fregueses da hospedaria da família. Ela também ajudou a complementar o orçamento doméstico trabalhando em uma loja de chapéus, no Centro do Rio. 

Em 1930, anos 20 anos, gravou seu primeiro sucesso. “Taí” (eu fiz tudo pra você gostar de mim), de Joubert de Carvalho, foi uma febre. A música é conhecida até hoje já embalou novelas da TV Globo e é sempre lembrada nos bailes de Carnaval.

Ao lado de dezenas de compositores e intérpretes, Carmen ajudou a popularizar o que hoje conhecemos como samba. A “Pequena Notável”, apelido que ganhou do radialista César Ladeira devido ao seu grande sucesso e baixa estatura, bateu vários recordes.

Ela foi a primeira mulher a fazer publicidade no rádio. Por causa dela, o governo do presidente Getúlio Vargas, em plena ditadura do Estado Novo, permitiu que as emissoras vendessem espaço na programação, profissionalizando o veículo e beneficiando centenas de profissionais.

Foram muitos sucessos nesse período como “Uva de Caminhão”, “Minha Embaixada Chegou”, “Me dá, Me dá”, “E O Mundo não se Acabou”, “Ela Diz Que Tem”, “Camisa Listada”, “Recenseamento”, “Mamãe Eu Quero” e aquela que viria a eternizar a personagem e que a levaria para os Estados Unidos, “O Que É Que a Baiana Tem?”, composição de Dorival Caymm

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Ainda no Brasil, e com apenas 30 anos, ela tinha contratos com gravadoras como a RCA, era amiga de pessoas importantes no governo e estrela do famoso Cassino da Urca. Foi lá que conheceu um milionário dono de teatros americanos, assinou um contrato e zarpou num navio para a Broadway com pompas e honras de Estado. Era o Brasil indo vencer na América.

Nos Estados Unidos, não demorou muito e se tornou um sucesso em Hollywood. Carmen foi, providencialmente, um símbolo da “política da boa vizinhança”, que consistia no lançamento de filmes ambientados em países da América Latina como Cuba (sim antes do embargo), Argentina e Brasil.

A primeira aparição de Carmen nas telonas da terra do “Tio Sam”, foi em “Serenata Tropical”, vestida com seu turbante e balangandãs, cantando “South American Way”.

As histórias desses filmes eram muito vagas e Carmen fazia basicamente o mesmo papel relegado às estrelas latinas na época pela indústria cinematográfica. A latina temperamental. Entretanto, seus números musicais eram um sucesso e fizeram com que sua popularidade e sua baiana a transformassem num fenômeno.

Em 1945, Carmen Miranda foi a mulher mais bem paga dos Estados Unidos. Era uma profissional que não tinha medo de pegar no batente e que pagaria caro por isso. Carmen chegava a se apresentar até seis vezes por noite.

Ela tinha poucas exigências, mas uma delas era sempre cantar em inglês ou em português, a língua do seu país. Naquela época, e até hoje, muitos americanos pensavam que no Brasil se falava espanhol.

Carmen Miranda morreu de enfarte aos 46 anos no dia 5 de agosto de 1955, em sua casa em Los Angeles, mas suas marcas na música, no cinema, na moda e no jeito de ser dos brasileiros e, principalmente de como o mundo enxerga o Brasil, permanecem até hoje.

Foto: Arquivo pessoal

*Guilherme Leal é jornalista, assessor de imprensa e apreciador da história artística popular brasileira, desde a música sertaneja raiz até o “quem matou Odete Roitman?”. 

* * Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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