Opinião

Sobre “Bastilhas” que caem

"Assim como foram criados e mantidos lugares de memória com nomes de responsáveis por horrores, deveríamos criar o mesmo para aqueles que foram subjugados"

Carolina Cerqueira Cruz*
19/07/20 às 18h41

Como defensora do patrimônio histórico que sou, venho aqui colocar algumas questões sobre o recente movimento social de destruição de monumentos. Não há dúvidas sobre as atrocidades que foram cometidas por aqueles ali imortalizados e que estão sendo atacados, como o rei Leopoldo II da Bélgica. Mas destruir e agir com a mesma violência do outrora nomeado explorador seria o suficiente? Podemos silenciar aquilo que deveria servir de lição para que não cometamos os mesmos erros do passado? Podemos apagar aquilo que foi perverso?

É nesse momento que caio na minha eterna contradição, a paixão avassaladora que nutria pela Queda da Bastilha. Um sentimento tão intenso que já foi um requisito para que possíveis pretendentes pudessem falar comigo. O cara deveria saber a data, o filósofo que deu embasamento teórico para o movimento e até o porquê da invenção da guilhotina.

No mês de julho de 1789, uma voz naquela multidão oprimida (que precisava de pólvora) gritou “para a Bastilha”. E quando lá chegaram não foi somente o abastecimento para as armas que moveu tantas vozes silenciadas. Os franceses, com as mãos, arrancaram os tijolos feudais daquela prisão política. A forma com que a tão temida foi tomada trouxe o desfecho revolucionário que conhecemos.  

Apesar de tamanha violência, as pessoas acreditaram que poderiam refazer a sociedade e suas instituições. Logo após a sua queda temos a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Com passar do tempo compreendi que era essa a ideia que me fazia amar a Revolução Francesa, ser obstinada por aquela construção no chão.

O que devemos lembrar e o que gostaríamos de esquecer? Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Museu da Inconfidência” afirma que toda história é um remorso. Guerras, exploração, genocídios, ditaduras, revoluções e escravidão são só alguns exemplos de grandes e dolorosos arrependimentos. Não devemos reverenciar tamanhos erros, mas também não podemos apaga-los.

Assim como foram criados e mantidos lugares de memória com nomes de responsáveis por horrores, deveríamos criar o mesmo para aqueles que foram subjugados. As memórias devem coexistir. Que tal não decapitarmos a estátua de Cristóvão Colombo, e sim, construirmos locais que tragam lembranças dos povos pré-colombianos?

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Direitos, como a direito à igualdade e liberdade, foram conquistados com um alto custo humano.  Eu que chorei vendo o Museu Histórico Nacional pegando fogo e falei sobre o primeiro patrimônio histórico de Araçatuba na Universidade de Coimbra, sei que o direito à memória é um direito universal. Tanto daquele que fere como daquele que foi ferido.

Se você mutila o outro, pelo fato dele ter cometido injustiças, acaba agindo como ele.

Espero que não façamos como fizeram os Astecas, que destruíram a memória dos povos conquistados. Mas, depois, foram subjugados pelos espanhóis, que por sua vez, também buscaram o silêncio dos ora dominados. A História não é para corações fracos.

Sempre fui uma apaixonada por monumentos e sei bem o poder de uma representação. Mas em contraposição me emociono vendo as imagens da queda do muro de Berlim, a magia de uma Alemanha reunificada. Por isso, peço respeito com pontos fracos da historiadora que aqui escreve. Que possamos brindar as revoluções que trazem evoluções e as nossas contradições

Foto: arquivo pessoal

*Carolina Cerqueira Cruz, um coração que dança no mundo, historiadora, advogada e uma das fundadoras do clube do livro “Entre nós; extremos”, de Araçatuba.

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação


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