Opinião

Tempos pandêmicos

"Temos, portanto, uma situação de fato. A pandemia nos colocou em casa, no ambiente mais pessoal, da convivência diária com pessoas que julgamos indispensáveis para nossa existência"

Rubens Arantes Correa*
26/05/20 às 19h30

Uma peste provocada por ratos, associada à guerra e à crise climática, foi o suficiente para condenar a Europa no século XIV à uma enorme crise demográfica e econômica, chegando a ocorrer, em algumas localidades, o decréscimo populacional entorno de 80%. Numa época de pouco conhecimento científico e médico-hospitalar, os europeus mergulharam na mais profunda obscuridade religiosa para explicarem pra si mesmos, o que estava acontecendo naquele momento.

Na América, a partir do século XVI com a colonização europeia, doenças trazidas pelos colonizadores foram introduzidas no continente, como gripe, sarampo, varíola, entre outras, que foram responsáveis, associadas à guerra e à escravidão, pelo genocídio de diversas comunidades indígenas nativas. Nesse caso, a mentalidade em vigência absorveu o episódio como sendo um caso da luta do cristianismo contra as populações bárbaras e selvagens.

Esses são apenas dois dos muitos episódios da história da relação entre humanidade e doenças; uma história muito mais íntima do que pensamos, seja nas mais diferentes formas – bacteriológicas ou viróticas.  Stefan Ujvari, médico infectologista brasileiro, em seu livro A História da Humanidade contado pelos Vírus (Editora Contexto, 2020), mostra como agentes infecciosos que condenam nossa existência estão mais presentes no curso da história do que supúnhamos.

No decorrer do século XX , novas investidas extremamente graves para os humanos, como a gripe espanhola, no contexto da Primeira Guerra Mundial, seguidas por gripes surgidas nos mais diversos lugares do planeta e depois propagados para o resto do mundo, além da Aids, Sars, ebola, H1N1, já entrando no século XXI.

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Agora, vivemos uma nova pandemia causada por um vírus desconhecido pela ciência médica, que já fez estrago em escala mundial desde o final do ano passado, quando surgiu na China.  Vidas humanas ceifadas, cenas extremamente chocantes de caminhões transladando corpos em caixões, como as que foram mostradas na Itália, e até mesmo o ato mais respeitoso para com os entes queridos que falecem não podendo ser velados e homenageados pelos seus parentes, dada a letalidade do agente transmissor, como se vê diariamente no Brasil. 

Temos, portanto, uma situação de fato. A pandemia nos colocou em casa, no ambiente mais pessoal, da convivência diária com pessoas que julgamos  indispensáveis para nossa existência. E ficamos surpresos com isso, pois nos damos conta que podemos trabalhar e estudar num ambiente pessoal, ao contrário, do que nos foi ensinado sobre estratégias de trabalho corporativo.

Resta-nos, diferentemente dos europeus do século XIV e dos, também, colonizadores europeus do século XVI, refletir sobre esse modelo de sociedade baseado na financeirização da vida, no individualismo atroz, no desrespeito aos valores de justiça social e respeito à dignidade humana e, por fim, na busca do equilíbrio entre economia e meio ambiente.

(Foto: arquivo pessoal)

*Rubens Arantes Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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