Opinião

Um mito para chamar de seu

"Humano requer força, como a experiência ancestral, mas exige, também, compreensão, pelos mitos, ou pela história, ou pela ciência"

Rubens Arantes Correa*
26/11/20 às 21h30

Todas sociedades humanas se constroem pelo trabalho, pelos costumes, pelas tradições observadas nas mais diferentes formas artísticas – pintura corporal, fabricação de artefatos, danças, músicas... Enfim, os humanos são humanos porque são cultura. A cultura nos define como humanos. Línguas, apropriações culinárias, jeito de andar e de sentar, movimentos corporais, porque temos esses móveis em casa e não outros... Tudo isso faz parte de nossas opções e escolhas. Os humanos são essencialmente cultura e alguma coisa natureza.

Não bastasse isso, os humanos constroem no imaginário os mitos, a primeira forma humana de ligação com a ancestralidade, forças que possam intervir, seja na forma de proteção, seja na forma de explicação para eventos que não conseguem compreender. Humano requer força, como a experiência ancestral, mas exige, também, compreensão, pelos mitos, ou pela história, ou pela ciência.

Paul Veyne, grande historiador francês, ao escrever Os Gregos Acreditavam em seus Mitos, questiona, como deve ser o papel do historiador: É verdade tudo isso? Ou apenas alguma coisa produzida pelo desejo e pelo pensamento? A história, entendida como interpretação, constrói mitos, imagens... E aí nascem mitos de ancestralidade, de culto patriótico e cívico.

Por que dizer tudo isso?  Porque a cada mês do ano comemoramos uma data específica e no caso de novembro, lembramos a causa afrodescendente, tão pertinente, tão presente no nosso dia a dia. O preconceito contra o negro no Brasil está presente nos ambientes mais cotidianos: nas escolas, universidades, nos mercados, nos esportes... O Brasil foi construído sobre o imaginário da exclusão, da violência, que continuam em marcha.

Contudo, precisamos lembrar a lição de Veyne: Vamos construir um mito?  Todo movimento social e cultural sempre aponta para essa direção: não há movimento sem liderança, que com o tempo se transforma em mito. Por que Zumbi é mito fundador do movimento negro? A documentação mostra que temos contradições... É história e esse é o papel do historiador.

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No Brasil, no fim do século 19 e começo do 20, poucos intelectuais negros se apresentaram como negros. Ser contra a escravidão, todos foram. Até Joaquim Nabuco. Quem assumiu mesmo a condição de ser negro foram Luís Gama, José do Patrocínio, Lima Barreto, Manoel Bomfim.

Dizer que personagens históricos, isolados, representam o ideal de igualdade racial é de uma pobreza imensa. Dizer que Nilo Peçanha é referência ao movimento negro de hoje somente pelo fato de ser negro (algo que nunca assumiu) é de uma pobreza intelectual muito grande. O mesmo raciocínio se aplica a Joaquim Barbosa, único negro no STF.  E daí?

O movimento pelos direitos humanos não precisa dessas referências. Ou vamos construir mitos, artificiais?

Arquivo pessoal

 
*Rubens Arantes Correa* é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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