Circunstâncias cotidianas paradoxais atravessam a hodiernidade, nas quais os sentimentos se tornaram programáveis algoritmos e a estesia, uma mera estatística. Nessa tessitura da sociedade do desempenho, como traz à luz Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, embora as vigentes vivências digitais coloquem, aparentemente, o mundo aos nossos pés por meio de um inofensivo toque, o horizonte que se descortina aos nossos olhos normalmente nos anestesia da vida em sua essência concreta. Por consequência, a contemporaneidade, marcada pela hiperconexão e pelo ininterrupto uso das onipresentes telas, tem produzido um fenômeno social inquietante: a uniformização da estesia, ou seja, o embargo do campo sensível e essencialmente humano que nos abre às idiossincrasias do real encarnado, como assevera Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo francês. O pensador argumenta que a realidade é percebida e moldada pelos corpos e pelos sentidos, mas não construída apenas mentalmente, sobretudo na panóplia do âmbito virtual.
Portanto, em vez da experiência estética múltipla, que envolve o encontro dos corpos, bem como suas dimensões e ressonâncias sensoriais e, consequentemente, epistêmicas, os mantos digitais nos conduzem a um regime de visualidade dominante, no qual a aparência prevalece como critério de valor, reconhecimento e existência. No bojo da hodierna lógica capitalista neoliberal, essa ordem moderna de pensamento, por não ser neutra, como nada na vida, inscreve-se na colonialidade do ser, pensar e do saber, reduzindo a humanidade àquilo que é controlável, quantificável e aceitável, principalmente, a considerar o mainstream da meritocracia, ou seja, competitividade e consumo desenfreado.
Oposto à anestesia, a estesia é, nesse sentido, capturada por dispositivos que privilegiam a imagem e a velocidade, em detrimento da experiência densa e profunda do fértil terreno que a realidade suscita. As telas, ao mediarem quase todas as interações, criam um filtro homogeneizador, pois as cores são calibradas, os corpos padronizados, os sons comprimidos, os odores abolidos e muitas vozes abafadas. Em outras palavras, trata-se da elocubração de delírios de pureza e perfeição em meio ao caos da existência complexa, como é de fato a vida-que-se-vive, conforme preconizavam Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895), filósofos alemães. Nessa toada, Achille Mbembe, filósofo, cientista político e professor universitário camaronês, enfatiza a “necropolítica” contemporânea que não se restringe à vida biológica e seus desdobramentos turbulentos e imprevisíveis, mas se estende à uniformização e à celeridade, ao dizimar possibilidades de sentir, ser e pensar fora dos famigerados algoritmos, sempre eles, que irremediavelmente organizam nossos desejos, pensamentos e modus vivendi.
Nesse esteio da potencialidade do encontro dos corpos, Lélia Gonzalez (1935-1994), filósofa e antropóloga brasileira, ao problematizar a amefricanidade, destaca a potencialidade estética das culturas negras, na qual o corpo é território de saber, festa, rito e linguagem. É justamente essa corporeidade que está ameaçada pela estetização artificial da algaravia das ágoras digitais. O que se vende como liberdade criativa é, na verdade, uma prisão estética mercadocêntrica e de servidão que transforma até a arte e os afetos em mercadorias para consumo rápido, regida pelo fluxo interminável de informações (claro, todas mercantilizadas e algoritmizadas).
Ademais, bell hooks (1952-2021), artista e ativista antirracista estadunidense, na obra Anseios: Raça, Gênero e Políticas Culturais , discute a arte como espaço de cura e resistência. No entanto, quando reduzida a simulacros mercantis, a manifestação artística perde sua potência de interpelar e de fomentar novas formas de ser, pensar e existir. Na contramão do encontro com a materialidade da pintura, da textura da escultura, do cheiro da narrativa silenciosa dos encontros e dos afetos, bem como do som que vibra no corpo durante um tambor, por exemplo, somos meramente confinados a imagens bidimensionais que, mesmo photoshopicamente belas, a princípio, não nos impactam com profundidade. A estesia plena, que exige o tato, o paladar, o cheiro, o som, dentre outras peculiaridades da subjetividade humana, é simplesmente substituída por uma amputada e claudicante fruição estético-afetiva, dominada por um vislumbre fugaz para as telas e pela presta coreografia dos dedos que constituem um balé de ausências, ao impor a monocultura perceptiva, inevitavelmente marcada pela pressa, aparência e superficialidade.
A resistência a essa maneira de viver super uniformizada passa por um projeto radical de humanização que deve resgatar a estesia em sua totalidade vivida. Significa devolver à trajetória humana sua função de experiência viva, no avesso da redutível experiência com as reles cansativas e enfadonhas telas. Significa reocupar os espaços da rua, da praça, da roda, da conversa no bar, onde os corpos podem novamente ser artefatos e obras mananciais. Significa cultivar práticas que envolvam todos os sentidos, tais como: cozinhar coletivamente, reunir amigos, ouvir o som dos tambores, tocar a argila, sentir o perfume das ervas e a brisa dos ventos, caminhar descalço na terra, vivenciar o encanto das florestas. Segundo Sueli Carneiro, filósofa, escritora e ativista antirracista do movimento social negro brasileiro, a luta contra a desumanização é também uma contenda em disputa com a redução ou desvalorização do sensível.
Com base nesses pressupostos, independentemente de credo religioso, mas como uma das ocasiões no Brasil nas quais os corpos se afetam e se transformam reciprocamente, talvez trazer à baila as vivências de fé transcorridas, especialmente, durante este mês de outubro, possa ser a expressão viva daquilo que ainda nos faz humanos, ou seja, o olhar, o encontro, o cuidado e a partilha altruísta. Ao longo da Via Dutra, em São Paulo, ergue-se um espetáculo silencioso de humanidade compartilhada. Tendas improvisadas acolhem corpos caminhantes de diferentes idades, credos, etnias e classes sociais, unidos por um mesmo fio de fé. Ali, onde a estrada se torna extensão da alma coletiva, a fé se materializa nos corpos e gestos, devolvendo ao sensível sua função de comunhão. Cada abrigo, erguido à custa de muito trabalho e esmero coletivo, com o envolvimento de inúmeros núcleos sociais, é uma morada provisória da humanidade reencontrada e uma estação estética em que o acolhimento e o cuidado se convertem em linguagem viva da presença dos corpos. A doação sem cálculo restitui à vida o sentido do sagrado partilhado; o toque, o alimento e o descanso, providos sem, a rigor, o menor interesse pecuniário, tornam-se artefatos de solidariedade e catarses da sensibilidade humana. O caminhar conjunto rompe o isolamento e devolve à fé sua dimensão corpórea e comunitária. A estrada se transforma em ateliê do humano, onde o sensível e a emoção são, para além do pensamento, vividos e compartilhados pela epifania dos corpos. Nos gestos gratuitos, o humano se refaz como experiência viva de empatia. Desse modo, na partilha dos corpos cansados, alguns quase dilacerados, e na fé que dá ritmo ao evento sociocultural, a estesia parece encontrar sua plenitude política, epistêmica e afetiva.
Destarte, a peregrinação possivelmente se revela como uma expressiva contranarrativa à digital anestesia cotidiana, uma vez que se configura como um ato estético-afetivo de resistência, no qual a fé encarnada e o cuidado mútuo reencantam o mundo e reafirmam a beleza radical de existir com e para o outro. Indubitavelmente, esse episódio não é o único recorte possível para o encontro dos corpos; existem muitos outros, inclusive de outros matizes religiosos, mas este se revela particularmente significativo, posto que nada é mercantilizado. À primeira vista, todos os movimentos se realizam como doação plena, em nome exclusivo da fé, o que evidencia o vigor do sensível, da comunhão humana, assim como da intercorporeidade, como afirmaria Merleau-Ponty.
Certamente, a proposta desta reflexão não é demonizar as tecnologias, mas restituir o equilíbrio. Até porque o mundo dos dias de hoje seria inconcebível sem as ferramentas tecnológicas. No entanto, talvez a "justa medida” aristotélica, ou seja, agir com moderação, ao evitar tanto o excesso quanto a deficiência em nossas ações e virtudes, possa ser uma das formas de se resgatar a estesia na sua essência estético-afetivo-epistêmica e, por conseguinte, o bem comum e a excelência moral. Nesse esteio, sobreleva ressaltar que a ética (do grego ethos, "costume", "hábito" ou "caráter") para Aristóteles (384 - 322 a.C.), filósofo grego, está diretamente relacionada à ideia de virtude (areté) e da felicidade ( eudaimonia ).
Dessa forma, se a estesia é a condição para a liberdade, tal e qual para o alargamento da episteme e da humanização, é preciso prospectar políticas do sensível que enfrentem a tirania e a ditadura das epidérmicas vivências digitais de modo a reinstaurarem a potência dos corpos como mediadores de mundos outros ainda não vividos. A formação humanística, nesse contexto, é inseparável da pluralização oriunda da experiência estético-afetivo-corpórea, pois é no sentir, em sua plenitude, que se forja, diante da multidiversidade, a responsabilidade ontológica em relação à vibração dos seres e do mundo que nos cerca, além da possibilidade do comum, do diálogo, dos saberes, da esperança e do bem viver, como pontua Krenak, líder indígena, filósofo brasileiro e Imortal da Academia Brasileira de Letras, cuja cosmovisão está centrada na conexão entre corpos vivos em uma Terra viva.
