O Vale da Celulose em Mato Grosso do Sul continua a se expandir, e Bataguassu, município com 24 mil habitantes e localizado a cerca de 130 quilômetros de Três Lagoas, se prepara para receber um investimento bilionário da Bracell. A empresa brasileira, controlada por empresários asiáticos, pretende erguer uma fábrica de celulose de R$ 16 bilhões no local. Com a previsão de licença de instalação até o fim do ano e o início da terraplanagem no primeiro semestre de 2026, as obras devem se estender por 38 meses.
No entanto, uma reportagem do Correio do Estado destaca uma abordagem que diverge significativamente do padrão estabelecido por outras grandes indústrias do setor já instaladas na região, como as que operam em Três Lagoas. Ao contrário de suas "irmãs" da celulose, a Bracell, pelo menos por enquanto, não tem planos de investir na construção de casas para abrigar futuros funcionários.
DEMANDA HABITACIONAL
Desde já, a cidade de Bataguassu, e até mesmo municípios paulistas próximos, enfrentam uma escassez de imóveis residenciais para compra ou aluguel. Essa realidade já impacta os próprios funcionários da Bracell em outras cidades, que tiveram suas transferências adiadas justamente pela falta de moradia na região.
O estudo sobre os impactos do bilionário empreendimento, divulgado pela empresa em meados de abril, não faz menção a qualquer investimento para mitigar o problema habitacional. O documento fala apenas em alojamentos provisórios. Esse é o ponto que acende o alerta. A fábrica da Bracell deve atrair até 12 mil pessoas no pico das obras, e cerca de 2 mil funcionários fixos após a entrada em operação.
A falta de um planejamento habitacional robusto por parte da empresa pode gerar uma pressão sem precedentes sobre o mercado imobiliário e a infraestrutura de Bataguassu. O aumento abrupto da população, sem a contrapartida de novas moradias, pode levar à disparada nos preços de aluguéis e imóveis, dificultando a vida tanto dos trabalhadores que chegam quanto dos moradores locais. A situação pode sobrecarregar serviços essenciais como saúde, educação e saneamento, mesmo com a previsão de alojamentos fora da área urbana para não impactar diretamente o sistema de saneamento local.
CONTRASTE
A estratégia da Bracell se destaca quando comparada aos modelos adotados por outras grandes indústrias do Vale da Celulose:
Arauco em Inocência: A empresa chilena, que está investindo cerca de R$ 25 bilhões na construção de uma fábrica em Inocência – com início de operação previsto para o final de 2027 –, anunciou a construção de cerca de 700 casas para parte de seus futuros trabalhadores, além de providenciar alojamentos para os temporários.
Suzano em Ribas do Rio Pardo e Três Lagoas: A Suzano, que investiu R$ 22,3 bilhões na fábrica de Ribas do Rio Pardo (em operação desde julho de 2023), construiu 954 unidades habitacionais próprias para ajudar a conter a especulação imobiliária. Essas casas, de dois e três quartos, foram cedidas aos moradores com uma taxa de uso, e a empresa já sinalizou a possibilidade de venda futura com condições especiais. Essa iniciativa replicou o modelo de sucesso da Suzano em Três Lagoas, onde a empresa também construiu casas após a inauguração de sua fábrica em 2009 para suprir a demanda e frear a disparada nos preços dos imóveis, que chegou a 400% em Ribas do Rio Pardo. A Suzano reforçou que essa ação é baseada na "experiência positiva obtida pela companhia na construção da primeira fábrica em Três Lagoas".
Procurada pelo Correio do Estado, a Bracell informou em nota que "está em fase de estudo ambiental, etapa fundamental para subsidiar a decisão sobre a possível instalação de uma unidade industrial em Mato Grosso do Sul. Caso o projeto avance, a empresa adotará medidas estruturadas de suporte aos colaboradores, alinhadas ao desenvolvimento sustentável e às necessidades locais".
