A Defensoria Pública de São Paulo acionou a Prefeitura de Araçatuba (SP), com o objetivo de garantir que a população seja efetivamente ouvida no processo de revisão do Plano Diretor do município. Além do Executivo, o órgão também acionou o Legislativo e o MP (Ministério Público), informou nota.
A nota técnica foi elaborada em 23 março pelo Núcleo Especializado de Habitação e Urbanismo da Defensoria, a pedido da defensora pública Nelise Christino de Castro Santos Ogawa, que atua na unidade de Araçatuba. O documento afirma que o processo de participação da sociedade civil foi falho e não observou a legislação vigente sobre o tema.
O Plano Diretor de Araçatuba é estabelecido pela Lei Complementar 168, de 6 de outubro de 2006 e norteia o desenvolvimento do município em seus aspectos econômico, físico e social, que deve ser revisado a cada dez anos.
Denúncia
A Defensoria informa em nota distribuída à imprensa, que recebeu denúncias da sociedade civil, informando que o processo não contou com a efetiva participação popular.
Na nota técnica, consta que a revisão do Plano Diretor de Araçatuba contraria diretamente os ditames da gestão democrática da cidade e aponta algumas falhas que teriam ocorrido no decorrer do processo.
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O fato do Plano Diretor ser um elemento integrador de toda a sociedade para a realização de um ideário de cidade traz a necessidade de que haja plena e efetiva participação popular na sua elaboração, implementação e revisão
”, diz a nota.
(Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)
Câmara Técnica
Entre várias questões apontadas no documento, estão falhas que vão desde a comunicação sobre a revisão do Plano Diretor, falta de acessibilidade no portal da Prefeitura na área destinada a esses trâmites, incompatível com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, até a inexpressiva participação da sociedade civil.
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A única instância em que se verifica a tentativa de diálogo com a população é por meio da formulação da Câmara Técnica, prevista em decreto para funcionar com representantes de todas as secretarias municipais e membros da sociedade civil indicados por entidades, associações ou membros do poder público
”.
Participação
A Defensoria afirma que não houve apresentação dos motivos para a escolha das entidades que compuseram o colegiado e que o mais recomendável para ampliar a participação e mobilização social seria a abertura de chamamento público.
A Câmara Técnica teria realizado apenas duas reuniões. Na primeira, em março de 2020, segundo a ata, 20 entidades foram convidadas por e-mail, mas apenas cinco compareceram. Na lista de presença da reunião constam apenas sete participantes, sendo três da Prefeitura e quatro pessoas da empresa contratada para o procedimento, a Cetec Lins.
Já na listagem seguinte, que não possui data ou referência de qual reunião se refere, há assinatura de nove representantes da Prefeitura e apenas cinco de entidades não governamentais.
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O processo participativo previa a realização de 18 oficinas espalhadas pelo Município, com locais de reuniões diversos, a serem realizadas entre os dias 3 de março de 2020 e 31 de maio de 2020. Contudo, em razão da pandemia Covid-19, somente duas reuniões participativas foram realizadas, não havendo notícias, sobre o reagendamento das demais, nem mesmo pela via digital
”.
Descrença
Ainda nos debates registrados em ata, a Defensoria destaca que revelou-se uma grande descrença prévia em relação à participação social, relatando que a população não se interessa pelo tema, demonstrando que a entidade responsável pela articulação social tem baixa perspectiva em relação aos resultados de sua própria função.
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Apesar da relevância do colegiado em questão como um fiscalizador da revisão do Plano Diretor, o fato é que apenas em 26 de novembro de 2021 é realizada a 2ª Reunião da Câmara Técnica, já apresentando a Minuta do Projeto de Lei do Plano Diretor. Inclusive, naquele momento já estava agendada a data de 07/12/21 para audiência pública, oportunidade em que pretendiam encerrar as discussões e enviar para a Câmara, o que somente não aconteceu diante das manifestações populares em sentido contrário. Nesta reunião, estavam presentes 29 pessoas, sendo possível aferir de uma que 15 eram funcionários da Prefeitura, 1 vereador e 2 representantes da CETEC
”.
Participação popular
O documento destaca que, nos documentos organizados pela Prefeitura, pode-se dizer que os trabalhos de participação popular na revisão se deram em 2020 e 2021 em sua maior parte, coincidindo com um momento crítico da pandemia. Sem a possibilidade de reuniões e oficinas durante a pandemia, optou-se pela realização de questionários on-line sobre os equipamentos em funcionamento da cidade.
Os questionários foram publicados via Google Forms, porém, a Defensoria verificou algumas barreiras digitais no processo participativo. Mesmo a ideia sendo considerada dinâmica e inovadora, teve pouca aplicação para pessoas desprovidas de conhecimentos e recursos tecnológicos.
Entrevistas
Quanto às entrevistas presenciais e oficinas, verificou-se um total de 371 respostas. Porém, a adesão foi menor ainda nos meios digitais; foram 90 respostas coletadas entre 10 de março de 2020 e 29 de agosto de 2020, sendo feitas 58 contribuições por meio de propostas on-line entre 31 de outubro de 2020 e 10 de novembro de 2021.
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Um elemento gritante em todo procedimento de participação foi a ausência de qualquer diagnóstico que avaliasse quais os impactos positivos e negativos do Plano Diretor vigente. Sem tal tipo de estudo, que levante dados sobre o desenvolvimento da cidade nos últimos 10 anos, fica impossível haver uma participação social efetiva, em que os cidadãos entendam quais mudanças desejam no planejamento urbano
”.
O diagnóstico foi apresentado apenas no final de todo procedimento de revisão, juntamente com o prognóstico, e não houve espaço para a participação popular entre essas duas fases, segundo a Defensora.
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O diagnóstico/prognóstico foi apresentado em dezembro de 2021, data em que já estava agendada audiência pública para apresentação da minuta e envio à Câmara. No tocante a Audiência Pública realizada, esta foi única e ocorrida em dezembro de 2021, com o intuito de apresentação do Plano Diretor e não de discussão ou esclarecimento de dúvidas da população
”.
Para Defensoria, divulgação da revisão do Plano Diretor foi frágil
Entre as 16 conclusões enumeradas no documento, os defensores Rafael Negreiros Dantas de Lima e Allan Ramalho Ferreira, coordenadores do núcleo, destacam que a divulgação da revisão do Plano foi frágil, realizando-se quase exclusivamente pelas plataformas oficiais do governo. O grupo de trabalho para revisão do Plano Diretor não pode ser visto como etapa participativa, mas sim como simples reunião entre Prefeitura e fundação contratada para realização do procedimento, segundo eles.
“Não há relatos de tentativas de articulação de entidades da sociedade civil, associações, ONG´s, lideranças comunitárias, por exemplo. É possível deduzir que a baixa adesão da população reflete a falha na ampla divulgação, além de se poder afirmar que a divulgação não se revelou condizente com o artigo 4, inciso I da Resolução nº 25/2005 do Ministério das Cidades, que regulamenta a ampla comunicação pública, através dos meios de comunicação social de massa disponíveis”,
pontuam.
E acrescenta:
“Um grave vício participativo do procedimento foi a ausência de diagnóstico prévio, impedindo que a informação ampla sobre a cidade empoderasse a população para as etapas participativas. O diagnóstico foi apresentado apenas ao final do procedimento junto com o prognóstico, não havendo espaço para a participação popular entre essas duas fases, não tendo sido garantido aos cidadãos, de forma prévia às instâncias participativas, um conhecimento integral e profundo do desenvolvimento da cidade na última década, seus problemas e a relação destas questões com o Plano Diretor e o Zoneamento do Município. O diagnóstico/prognóstico foi apresentado em dezembro de 2021, data em que já estava agendada audiência pública para apresentação da minuta e envio à Câmara. Além disso não consta a existência de plano de trabalho, ou de apresentação de estudos com antecedência. O processo participativo, portanto, não se revelou condizente com o artigo 4, II da Resolução nº 25/2005 do Ministério das Cidades, que regulamenta a apresentação de estudos e propostas sobre o plano diretor para a população, de forma prévia”.
Outro lado
Por e-mail, a reportagem do
Hojemais Araçatuba
enviou questionamentos ao Executivo, para saber qual era a posição da Prefeitura em relação ao assunto e se seria revisto ou recomeçado o processo de divulgação da revisão do Plano Diretor. Em resposta, a administração municipal apenas confirmou que foi notificada e que respondeu a todos os questionamentos feitos pela Defensoria Pública, a fim de esclarecer os fatos.
Denúncia
Em dezembro do ano passado, o Plano Diretor foi alvo de denúncia no Ministério Público, feita por grupo formado por lideranças de diferentes segmentos e cidadãos, movimento que ganhou o nome de
“A cidade é nossa”.
Por meio de uma petição on-line, que colheu mais de 100 assinaturas, o intuito do grupo era fazer a Prefeitura retroceder o processo e providenciar a ampliação da participação popular.
O movimento alegou que a audiência pública consistia em uma apresentação para um público limitado e que não ofereceria a efetiva oportunidade para a abordagem aprofundada das temáticas pelos moradores, movimentos, associações, academia e os diversos segmentos da sociedade. O grupo também apontou falta de comunicação da Prefeitura com a população e ausência de transparência no processo.
Após a denúncia, a Prefeitura se manifestou e encaminhou ao Ministério Público, documento onde afirma que devido às solicitações dos presentes na audiência pública, realizada em 7 de dezembro, o Executivo, junto com a Cetec Lins, estenderiam o prazo para envio de contribuições por parte da sociedade antes da formatação final do Plano Diretor, e marcariam uma nova audiência, que não chegou a ser agendada, em janeiro.