Afora o completo desdém humano, a crise climática não é apenas um problema científico (epistemológico, pelas lentes da filosofia) de entender as mudanças no sistema terrestre ou uma questão a respeito da nossa existência (ontológico) e o estado dos ecossistemas. O desequilíbrio ambiental é, acima de tudo, um aspecto ético. Nessa toada, questionarmo-nos sobre como devemos agir diante dos conhecimentos que temos (se é que temos?) acerca das consequências catastróficas de nossas ações sobre o planeta é a ordem da vez.
A articulação entre a epistemologia, a ontologia e a ética é uma das intersecções mais fecundas da filosofia, pois explora como conhecemos (epistemologia) o que existe (ontologia) e como devemos agir (ética). Esses três domínios, embora distintos, estão profundamente interconectados, especialmente quando consideramos os desafios globais contemporâneos, como o colapso do meio ambiente que ameaça a continuidade da existência humana.
Embrenhada nos estudos sobre os fundamentos do ser, a ontologia é a seara da filosofia que se ocupa da natureza da existência e da realidade. Desde Parmênides (530-460 a.C.), filósofo grego, até Heidegger (1889-1976), pensador alemão, a ontologia sonda o que é real e como o ser se manifesta no mundo. Em sua atemporal obra Ser e Tempo, além de examinar o conceito de ser (sein) como um fenômeno que pode ser conhecido, Heidegger se debruça sobre como essa contingência se revela por meio da existência humana (dasein). Essa visão nos coloca no esteio da temporalidade e da historicidade, sinalizando que nossa compreensão do que existe está sempre situada em um contexto específico.
A epistemologia, por outro lado, trata da teoria do conhecimento, ou seja, como sabemos o que sabemos. O filósofo grego Platão (428-347 a.C.), em A República, aborda a questão dos conhecimentos verdadeiros por meio de sua célebre alegoria da caverna, onde distingue entre o mundo sensível (de aparências) e o mundo inteligível (das formas). Ademais, Kant (1724-1804), um dos principais pensadores do Iluminismo, no icônico livro Crítica da Razão Pura, discute que nossos conhecimentos do mundo são mediados por categorias, à primeira vista, da mente, o que implica que a realidade que conhecemos é sempre uma construção mental. Apreende-se, assim, que a epistemologia e a ontologia estão entrelaçadas: nosso entendimento do que é (ontologia) é inseparável de como o conhecemos (epistemologia). Em outras palavras, Heidegger aponta que a maneira como o ser é compreendido forja a estrutura dos conhecimentos, enquanto Kant sugere que as modalidades dos saberes moldam a compreensão do ser.
Já a ética funciona como uma ferramenta mediadora entre a ontologia e a epistemologia, com destaque para as implicações dos conhecimentos e da existência no campo da ação. Se a ontologia define o que é real e a epistemologia alude a como conhecemos essa realidade, na contemporaneidade, atravessada pelos descalabros ambientais, a ética possivelmente nos perguntaria: “dado o que vocês humanos sabem – se é que vocês sabem ... (pensaria quieta) - sobre o que existe, como vocês deveriam agir frente ao desmantelamento do meio ambiente?
Nesse sentido ético, Aristóteles (384-322 a.C.), pensador grego, na irreparável publicação Ética a Nicômaco, pontua que a virtude está no agir conforme a razão, idiossincrasia o ser humano. Esse pensamento implica ligações diretas entre a compreensão do que é ser humano (ontologia), como conhecemos nossa essência (epistemologia), além de como devemos viver de acordo com essa natureza (ética). Da mesma forma, Emmanuel Levinas (1906-1995), filósofo francês, em Totalidade e Infinito, propõe que a ética seja primária e que a relação com o outro é o que funda a ontologia, invertendo a ordem tradicional. Essa articulação é vital quando consideramos problemas éticos globais, como a hodierna catástrofe ecológica.
Destarte, a degradação ambiental exemplifica a urgente necessidade de abordagens integradas entre a epistemologia, a ontologia e a ética. Em termos epistemológicos, a ciência do clima fornece conhecimentos robustos e fundamentados sobre as causas antropogênicas do alarmante aquecimento global. No entanto, esse conhecimento por si só não mobiliza a ação. Em termos ontológicos, a funesta turbulência concernente à biosfera coloca em questão a própria existência dos ecossistemas e das formas de vida, particularmente, a humana. Essa interpelação exige reavaliações profundas sobre o que significa existir em um mundo drasticamente alterado. A ética, por sua vez, impõe-nos a responsabilidade de agir com base nesses conhecimentos.
Filósofos como Hans Jonas (1903-1993), de origem alemã, em O Princípio Responsabilidade, assinalam que, diante do poder humano sobre a natureza, deveríamos adotar atitudes éticas de responsabilidade para, por exemplo, com as gerações futuras e o planeta. Essa ponderação joga luz sobre o fato de que a ética não se configura apenas como um apêndice da epistemologia e da ontologia, mas uma parcela essencial da nossa vivência que estrutura como os conhecimentos e os seres se articulam no mundo.
A intersecção entre a epistemologia, a ontologia e a ética revela-se terminantemente fulcral para enfrentar os desafios contemporâneos, como a devastação ambiental. O que conhecemos sobre o mundo e o que consideramos como real influencia diretamente as nossas ações éticas. Diante do cenário em latente perigo de extermínio, sobretudo, devido às onipresentes chamas que fritam o planeta, para além de compreensões mais profundas da desordem ambiental, a filosofia oportuniza igualmente orientações acerca de como deveríamos responder a ela. As discussões filosóficas aqui apresentadas nos remetem à convergência entre conhecer, ser e agir. São esferas indissociáveis da nossa experiência humana cujas consequências são fundamentais para o futuro da humanidade e do planeta.
A ponderar as considerações de Ailton Krenak, filósofo, poeta brasileiro e Imortal da Academia Brasileira de Letra, isto é, “Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. [Portanto], precisamos adiar o fim do mundo suspendendo a ideia de que somos seres especiais na criação, de que estamos fora da natureza” , para além da completa ignorância ou devaneios derivados da cega hipoepisteme, especialmente em relação ao famigerado negacionismo, destruir o planeta seria no mínimo uma conduta homicida. Em bom português, uma grande estupidez coletiva.
