Opinião

Afinal, o que nos faz humanos?

São auspiciosas metas a cumprir, bens a serem conquistados, relações a serem construídas e, assim, é claro, o eldorado de deleite imperecível a ser alcançado.

Francisco Estefogo
15/02/24 às 18h00

Uma recorrente definição sobre a nossa condição de humanos, muitas vezes petrificadas nas liturgias científicas e didáticas, recai no fato de sermos, a priori, animais racionais. No entanto, à vista da iminente deflagração do planeta, dada as recentes situações catastróficas de destruição, avalanches, extermínios de biomas, incluindo a fauna, a flora e, por mais chocante que seja, até de outras pessoas, é patente afirmar que a racionalidade é o que menos usamos para o bem viver do coletivo, como afirma Krenak, ambientalista, filósofo e escritor brasileiro. Antes que a nossa espécie seja definitivamente rebaixada para homo ignorans , talvez a reflexão sobre o que, na contemporaneidade, ainda nos legitima como seres humanos seja absolutamente providencial.

Diante da hodiernidade, atravessada pelas garras do capitalismo que promete incontáveis facilidades de modos de viver, afora ascensões, promoções, sucesso, beleza e até viagens ao espaço, quando não, futuras habitações em outros planetas, ou seja, a idílica felicidade eterna dos famigerados contos de fada, selada pelo “e viveram felizes para sempre”, a competição se acirra e, por conseguinte, o individualismo e ambição se fortalecem. São auspiciosas metas a cumprir, bens a serem conquistados, relações a serem construídas e, assim, é claro, o eldorado de deleite imperecível a ser alcançado. Nesse movimento cego de busca pelo prazer e júbilo infinitos, a qualquer custo, os nossos desejos se afloram e, por vezes, domina-nos. A ditadura da banalização da felicidade ganha relevo e passa ser obrigatória, tornando-se quase um direito constitucional. Frente a esse cenário de inúmeros recursos, principalmente tecnológicos, estéticos e de mobilidade, as nossas angústias, assim como as vontades, aumentam e nos atormentam. À vista disso, segundo o filósofo brasileiro Isaías Pessoti, “o mundo moderno se configura como ansiógeno, pois estamos angustiados a toda hora”. Nesse esteio, Kierkegaard (1813-1855), filósofo existencialista dinamarquês, ratifica que quanto mais possibilidades teremos, maiores serão as nossas angústias potenciais. Essa fragilidade, isto é, a lacuna entre o ávido querer e o objeto de aspiração, é o pulo do gato para o feroz apetite do marketing. Mais precisamente, trata-se das narrativas que prometem uma “vida de sucesso e performance em que você tem que bater meta em várias áreas, tem que performar o tempo inteiro e o marketing diz que é possível, uma espécie de otimismo como virtude cívica” , como alerta Luís Felipe Pondé, filósofo brasileiro. 

Essa conjuntura de busca desmedida pela realização dos nossos “sonhos” que, a propósito, o marketing adora enaltecer para nos sensibilizar, torna-nos, no mínimo, alienados, descolando-nos de forma visceral e absoluta do cosmo e da nossa ancestralidade, como adverte Krenak.  Uma vez apartados e, muito pior, sendo opositores da natureza, dado que a devastamos por pura cobiça desenfreada, retroalimentamos a autodestruição, atividade que, em tese, invalida-nos como humanos. Ademais, no afã da busca pelo “prazer extasiante que a gente não quer perder” , de acordo com Krenak, a segregação da humanidade se instaura como se fosse uma conjuntura beligerante ‘fria’, pois a materialidade sobrepõe a própria vida. Nessa luta, perdemos a memória ancestral, desmantelamos a potência da coletividade e uniformizamos a cosmovisão, à conta da funesta demanda dos atraentes e sedutores artifícios do capital. Dessa forma, temos dificuldades de construir conexões afetuosas com o outro e, certamente, com a natureza, já que o nosso viver se resume à mera dicotomia sujeito-objeto.  Nessa perspectiva, fazemos parte de um novo tipo de humanidade, distantes do outro e do meio ambiente.

Nessa toada, como o nossa vivência, a rigor, esmera-se na concretização dos nossos sonhos, aqueles que o marketing nos enxota goela e abaixo para nos seduzir, além de vivermos num cenário que preconiza o domínio da felicidade plena e do perene bem-estar, podemos entender que a sociedade está atravessada pela algofobia, ou seja, o “medo generalizado da dor ”, segundo Byung-Chul Han, filósofo, ensaísta sul-coreano e professor da Universidade de Berlim. Atrelado a isso, o pensador enfatiza a crescente solidão, o isolamento e a ilusão, frente, por exemplo, ao indefectível celular que, como um fármaco digital, encurta qualquer distância entre as pessoas e viabiliza tudo o que é consumível a um mero toque na tela. Destarte, nos dias de hoje parece não haver desafios, frustrações, sofrimentos e dores. Dito de outra forma, estamos submersos numa vivência que nos deslegitima como humanos, posto que, “uma vida sem dor não é humana” , conforme salienta Chul Han.

Possivelmente, no silêncio da noite, quando já não estamos, em tese, na frenética labuta pela realização dos anseios contemporâneos, possamos nos entregar aos braços de Morfeu e, entorpecidos por devaneios imaginativos e de redenção, resgatar o que nos faz humanos, especialmente, no que se refere à importância do outro para o nosso viver, assim como do nosso vínculo como parte integrante do Cosmo. Como uma ode à força da imensidão estrelar, Fernando Pessoa (1888-1935), poeta e filósofo português, por meio do seu heterônimo Álvaro de Campos, ensina-nos a imergir nessa remissão humana ao rogar aos mistérios noturnos para “torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito/Só humanitariamente é que se pode viver/Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos, Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver. Só assim, ó noite, ou eu nunca poderei ser assim” [humano].

“ Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Francisco Estefogo
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