Opinião

Alteridade e sociedade digital 

"As redes sociais e todos seus braços trouxeram para seu mundo disputas que poderiam ser resolvidas pelas facilidades dos contatos. Ao contrário: as redes sociais amplificaram o desrespeito à alteridade e se tornaram veículos para justificar o extermínio por meio de novas formas de linguagens, inclusive, tal como lançar mão da palavra 'cancelamento'"

Rubens A. Correa*
02/06/21 às 19h30

Alteridade é um conceito muito caro no campo da filosofia e da antropologia. Do ponto de vista conceitual e de uma forma bem simplificada, alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro em todas as circunstâncias e, sobretudo, naqueles momentos de dor, angústia e sofrimento do outro. Mas, principalmente, alteridade se refere ao reconhecimento do outro como parte de uma cultura diferente da minha e, portanto, por ser apenas diferente deve ser reconhecido e respeitado para que a convivência seja possível e respeitosa. 

Historicamente, a alteridade sempre foi um conceito pouco praticado pelas sociedades humanas nos mais diferentes espaços e temporalidades. No mundo greco-romano o outro é o “bárbaro”, aquele que não falando a língua oficial, não tem o direito de compartilhar dos mesmos direitos e, por isso, vistos como inferiores. Na Europa medieval, o outro é o herético, ou seja, aquele que por diferentes razões não segue os ritos e tradições religiosas oficiais estabelecidas pelo cristianismo católico.  

Não reconhecer o outro como alguém que faz parte da cultura humana, no sentido mais plural, resultou no extermínio e na violência praticadas por lideranças – políticas, econômicas e religiosas - e seguidores contra todos aqueles que representam o “desvio” daquilo que é considerado o correto, o normal, o virtuoso. E nesse longo processo histórico de não reconhecimento do outro, práticas de exclusão e extermínio torna-se dominante e justificadas por tese e retórica embasadas na ameaça que o outro, supostamente, poderia causar ao grupo dominante. 

Na modernidade, as revoluções e o alargamento do horizonte geográfico ampliaram a intolerância dos que se consideravam vencedores diante daqueles que por razões várias foram eleitos não como o outro, mas o “diferente a ser eliminado”, o que não pensa como o dominante e, portanto, podem ser explorados para fins de acumulação.

Indígenas, negros, operários, imigrante, pobres, e ampliando o espectro do não reconhecimento do valor do outro, as mulheres e os homoafetivos, tornam-se as vítimas preferenciais da moderna forma de intolerância e de eliminação dos chamados “intrusos”. 

O efeito mais recente das (não) práticas da alteridade tem se dado com o advento, na contemporaneidade, por conta dos mecanismos instrumentalizados pela tecnologia digital que levou para ambiente virtual disputas sobre a vida real.

As redes sociais e todos seus braços trouxeram para seu mundo disputas que poderiam ser resolvidas pelas facilidades dos contatos. Ao contrário: as redes sociais amplificaram o desrespeito à alteridade e se tornaram veículos para justificar o extermínio por meio de novas formas de linguagens, inclusive, tal como lançar mão da palavra “cancelamento”. 

A sociedade digital, por meio de suas redes sociais ou profissionais, reafirma a realidade histórica, dando maior verbalização a opiniões e menos ao conhecimento. Opiniões pessoais só fazem sentido quando embasadas em conhecimento científico, pois que, do contrário, se transforma em preconceito. As redes sociais, fenômeno do individualismo e narcisismo, além de braço da sociedade digital, são tudo menos o reconhecimento do outro, quando apenas sugere ou exige um like. 

(Foto: Divulgação)

*Rubens A. Correa* é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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