Opinião

Bonecas reborn e amores sintéticos: prólogos da desumanização?

Esses eventos parecem ser sintomas de episódios sociais recorrentes e, por conseguinte, a alvorada de prólogos da desumanização contemporânea.

Francisco Estefogo
17/06/25 às 18h00

Mais que paradoxais, vivemos tempos “pra” lá de inusitados e sombrios, nos quais as indefectíveis tecnologias da pseudo ininterrupta conexão, tais como as redes sociais e a inteligência artificial (IA) que, a rigor, ao se remeterem ao afeto e à aproximação, voltam-se contra os seus próprios princípios basilares, teoricamente, integradores. Em termos mais precisos, a utopia de um mundo mais colaborativo está naufragada em efêmeras automáticas curtidas, isolamentos, intuições e filtros embelezadores desprovidos de sapiência, racionalidade e criticidade. No avesso, cedemos lugar à vigilância, ao controle, à espetacularização, ao narcisismo digital e às relações simbólicas.

Em pleno século XXI, por exemplo, testemunhamos fenômenos que, à primeira vista, parecem fofos, inofensivos ou até curiosos: a adoção das bonecas reborn como substitutas emocionais da prole, e os casamentos com personagens criados pela IA como alternativa à convivência humana. Esses eventos parecem ser sintomas de episódios sociais recorrentes e, por conseguinte, a alvorada de prólogos da desumanização contemporânea. Além da exclusão do outro, fato que nos enclausura em bolhas da mera repetição, performance e espelhos algorítmicos, tais ocorrências, de algum modo, imprimem a recusa de viver a intersubjetividade da alteridade real. 

Surgidos há quase 30 anos nos EUA, os pequerruchos reborn , atualmente com suas feições hiper-realistas, choros mecânicos e grifadas roupas infantis, dentre outras características diferentes dos modelos originais, vêm sendo tratados como equivalentes às crianças reais. Afora os limites da ludicidade e de tratamentos terapêuticos para doenças como Alzheimer, demência e ansiedade, certamente, sob supervisão profissional, não raro, as cobiçadas miniaturas humanas são objetos de vínculos afetivos profundos, que envolvem diários cuidados com higiene, vestimenta, batismo, uso do SUS para consultas e, pasmem, até registro de nascimento em cartórios. Igualmente, há relatos de compromissos que são cancelados porque o neném não pode ficar sozinho, quando, pior, não o levam para o local de trabalho. Além disso, como se o Brasil não tivesse outras pautas sociais importantíssimas para se discutir, tais como educação, segurança e saúde, há anos severamente claudicantes, recentemente três iniciativas legislativas deram entrada na Câmara para abordar questões desde a restrição de atendimentos médicos a esses artefatos lúdicos até a criação de políticas de acolhimento para os sujeitos que desenvolvem laços emocionais com os tais “corpos manipuláveis”, embora essas medidas tenham certo mérito atinentes a possíveis problemas mentais. Em relação aos desdobramentos da IA, no Japão e em outros países, há registros de pessoas casando-se com figuras fictícias, construindo relacionamentos com entidades inexistentes ou programadas para retroalimentar o afeto, sem jamais oferecer oportunidades epistemológicas, o imprevisível  e a potência da diversidade.

Para além do distanciamento das idiossincrasias da vida-que-se-vive, como advertiam Marx e Engels, filósofos alemães do século XIX, na contramão da crescente dificuldade de criar e manter relacionamentos reais, ao preferir a previsibilidade emocional dos recém-nascidos artificiais ou dos crushes da IA, a dimensão ética fica comprometida. Nesse sentido, segundo Emmanuel Levinas (1906-1995), filósofo francês, como a ética nasce no encontro com o outro que inadvertidamente nos escapa, nos questiona e nos desinstala, é a interpelação do outro que rompe a autossuficiência destrutiva. Nessa toada, os meandros éticos titubeiam, visto que os referidos brinquedos humanoides não sofrem, não exigem nada, tampouco contradizem alguém. Na mesma raia, o algoritmo afetuoso da IA não abandona, não se nega e não é real. Essa nova moda nada mais é que a fuga ontológica do mosaico social, da pluralidade, bem como da empatia, ou seja, uma simulação das uniões sem os imprescindíveis dividendos da reciprocidade.

Apreende-se, assim, que a IA “sedutora e carinhosa” e os pituxos reborn são sinais de tempos em que a relação humana parece estar estetizada e domesticada ao ponto de tornar-se descartável. Ao escolher viver apenas com simulacros, criamos um mundo cor de rosa em que tudo gira em torno do desejo narcísico de completude, sem fissuras ou dramas, o que se distancia da vida-que-se-vive marxista. Esse processo é agravado pela lógica neoliberal do irrefreável consumo afetivo. Como denuncia Achille Mbembe, filósofo camaronês, em Crítica da Razão Negra, o mundo moderno mercantiliza até mesmo a vida, ao transformar corpos e experiências em compráveis mercadorias. Os bebês reborn e os cônjuges da IA não estão fora dessa lógica, posto que são produtos afetivos formatados à imagem e semelhança dos desejos egoístas de um sujeito isolado, consumidor de companhia, mas não construtor de um relacionamento amável legítimo. Há relatos de ganhos mensais decorrentes das vendas das composições ultrarrealistas de até R$ 300 mil mensais, com os seus famigerados desdobramentos nas redes sociais, sempre elas, quem acumulam 2,6 milhões de curtidas e têm 5,3 milhões de visualizações. 

O forte apego com os fofuxos reborn , muitas vezes compreendidos como substituição por perdas gestacionais ou afetivas, revela similarmente uma tentativa de negação da perda. Em vez de elaborar o luto, fabricamos sua recusa por meio de produtos de silicone. Nesse esteio, a psicóloga e filósofa portuguesa Grada Kilomba, ao conceber a “memória interditada” e a “ violência do silêncio ”, entende que essa tendência de troca do inanimado por relações humanas reais não se trata apenas da lembrança de perdas palpáveis, mas da supressão da dolorida ausência e da vulnerabilidade, idiossincrasias constitutivas da humanidade. Ademais, de acordo com a filósofa Judith Butler, filósofa pós-estruturalista americana, ao nos escondermos da vida como ela é, e substituí-la por protótipos fabricados, negamos a própria condição humana. 

A desumanização hodierna não é apenas política, social ou econômica; é ontológica, afetiva, relacional e existencial, infiltrando-se nas subjetividades como dor não reconhecida. A substituição do que é concreto por modelos ilusórios revela o nosso esvaziamento, covardia e superficialidade como ser-em-relação. Frente ao onipresente vislumbre dos pitocos reborn e dos enlaces com os sintéticos figurantes da IA, urge que se discuta a ética da alteridade, da estética da convivência e da política do afeto real. Mais do que criticar esses fluxos da contemporaneidade (que logo vão passar), é preciso reencantar e resgatar o humano da sua inerente fragilidade,  medo e potência, além de recuperar a imprescindível afeição com o outro e, sobretudo, reaprender a amar o que não pode ser programado nem previsto. 

Afinal, como escreveu bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, “o amor é um ato de vontade — tanto a intenção como a ação. Amar é lutar conscientemente contra a alienação”. Destarte, só há passionalidade humana onde há essa intenção que não deveria ser simulada, pois o amor, quando é programável, já não é encontro: é algoritmo. E o outro, então, já não é outro: é um reflexo manipulado como uma marionete, assim como as controversas réplicas antropomórficas de plástico.

Membro da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é docente da Universidade de Taubaté e da FATEC-Taubaté. Também é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela UNIFESP e PUCSP.

* *Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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