As mudanças climáticas e o extremismo ideológico representam, respectivamente, contundentes ameaças de destruição ambiental e social que, juntas, podem traçar o destino da humanidade. Esses percalços são impulsionados por desigualdades históricas que perpetuam injustiças e agravam o ressentimento social, ampliando o fosso entre os sujeitos e, por conseguinte, intensificando as tensões civis globais. Logo, o que antes poderia ser visto como crises separadas agora se entrelaça em riscos devastadores. Diante do iminente desmantelamento da humanidade, mais que enfrentar essas mazelas, é preciso promover a renovação ética e estrutural no que se refere à relação entre os seres humanos e o meio ambiente.
O aquecimento global, contundente prenúncio apocalíptico, com consequências no aumento do nível do mar e nos eventos climáticos extremos, vem se intensificando nas últimas décadas. Tragédias como as ocorridas em maio passado, no Rio Grande do Sul, e recentemente na Espanha, são marcas irrefutáveis dos finais do tempo. A partir das ponderações do filósofo e crítico social Frantz Fanon (1925-1961) , conhecido por suas posições em relação às dinâmicas de desumanização, é possível compreender como as mudanças climáticas, de algum modo, estão a relacionadas à lógica colonial, entremeada com sistemas históricos de opressão. Em Os Condenados da Terra, o psiquiatra natural das Antilhas francesas aborda de que modo o colonialismo subjugou tanto o povo quanto a terra de nações colonizadas, fenômeno social responsável pela exploração ambiental e pela população nativa. Com base nas concepções de Fanon, é patente afirmar que a destruição do meio ambiente é, em muitos casos, um reflexo da desumanização de comunidades inteiras. Essa análise ressoa na instabilidade climática uma vez que os recursos naturais são exauridos de forma insustentável para meramente atender às demandas de um sistema econômico neoliberal que, ao privilegiar o lucro sobre a vida, desumaniza a nossa existência. Apreende-se, com isso, que a busca pela justiça ambiental está profundamente imbricada com a luta contra opressões históricas. No mais, a desordem climática é também uma questão ética, visto que ela desafia a nossa responsabilidade coletiva em relação ao bem-estar das gerações presentes e futuras, bem como à preservação do planeta. Ao negligenciar as vozes das comunidades marginalizadas e ao ignorar os danos ecológicos, igualmente, traímos os princípios fundamentais de justiça, solidariedade e respeito à dignidade humana.
Nessa toada, Foucault (1926-1984), filósofo francês, aponta que é preciso olhar para governamentalidade das nações de modo que possamos entender como o poder exerce controle sobre as populações e a natureza. O pensador da célebre Collège de France ressalta que o Estado moderno só se constitui por meio de mecanismos de regulação social e das práticas da biopolítica, ou seja, como o poder decide sobre o que viabiliza a vida humana e quem pode ou deve viver. Na turbulência climática hodierna, por exemplo, esse mecanismo dirigido se manifesta na priorização de indústrias destrutivas em prol de ganhos e do consumo, tal e qual na negligência das coletividades mais vulneráveis.
Enquanto as mudanças climáticas ameaçam a sobrevivência física da humanidade e do próprio planeta, o extremismo ideológico desintegra o tecido social, uma vez que incita ambientes nos quais os diálogos multidiversos são suprimidos por uma monocultura, o que inevitavelmente redunda na violência civil. Nesse sentido, a filósofa socialista estadunidense Angela Davis propõe processos de análise crítica dos sistemas de opressão e defende que, na raiz da radicalização, está o desejo de domínio, o qual relega e reprime diferentes grupos sociais. Esse fundamentalismo é particularmente violento contra os grupos minoritários tais como a comunidade LGBTQIAPN+, os imigrantes, as pessoas pretas, as mulheres, dentre outras, dificultando a expansão coletiva e exacerbando a fragmentação e a desigualdade social.
Ademais, Slavoj Žižek , filósofo esloveno, por sua vez, explora a ideia de como a intransigência e a ideologia mascararam o medo coletivo frente ao caos. Segundo o professor do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana, em tempos de desajustes, há uma tendência de buscar figuras de liderança autoritárias e soluções radicais, como forma de evitar a complexidade e responsabilidade compartilhada. Para além das atrocidades oriundas de gestões ditatoriais, esse expediente é visível na forma como alguns líderes governamentais extremistas promovem a negação das mudanças climáticas e incentivam a política de arena, isto é, “nós contra eles”, segregatória abordagem que enrobustece ainda mais a situação de falências ambientais e sociais.
Os círculos sociais historicamente desfavorecidos sentem os efeitos das mudanças climáticas e do fanatismo ideológico de maneira mais profunda. Nesse esteio, a filósofa e ativista Audre Lorde (1934-1992) ressaltava que “as ferramentas do mestre nunca desmontarão a casa do mestre.” Para a escritora estadunidense, poeta e ativista feminista, a luta deve ser coletiva e diversa, calcada nas vozes de grupos que, na trajetória histórica, foram excluídos das decisões políticas. Assim, Lorde reforça a necessidade de promover perspectivas interseccionais para resistir ao premente colapso global e buscar alternativas insurgentes latentemente transformadoras. Em consonância, a filósofa brasileira Djamila Ribeiro destaca que as opressões raciais e de gênero intensificam as vulnerabilidades frente as calamidades. O acesso desigual aos recursos mínimos para uma vida digna — como água potável, saneamento e áreas seguras contra desastres naturais — é resultado direto de uma estrutura social hierarquizada e racista, o que reforça a urgência de incluir a justiça social na pauta do debate ambiental.
A despeito da gravidade do cenário, há ainda possibilidades de resistência que desenham caminhos de esperança. Pensadores como David Hume (1711-1776) aludem que a cooperação é uma característica inerente ao ser humano, mas requer condições de igualdade para prosperar. O historiador e ensaísta nascido na Escócia acreditava que o egoísmo não é o único motor das ações humanas. Similarmente, há espaços para o altruísmo e a solidariedade, especialmente em períodos difíceis. Esse pensamento é ressoado por Cornel West , filósofo, escritor, ator, crítico social e ativista dos direitos humanos, ao advogar que o amor e a justiça são forças revolucionárias para transformar sociedades em tempos de adversidades e de desesperança. Outra filósofa contemporânea, Judith Butler, com base na ideia da “precariedade”, que abrange as ameaças que todos nós enfrentamos, argumenta que ao reconhecermos as fragilidades comuns entre nós seres humanos e a natureza, podemos desenvolver a ética do cuidado e da proteção mútua. Essa visão de interdependência pode ser o alicerce para repensar nossa relação com a Terra e uns com os outros, redirecionando o foco dos elos de dominação para relações de aliança, conexão, igualdade e compaixão.
Apesar de o caminho da sensatez estar consideravelmente rabiscado, e a contar que a mediocridade não é destino, mas opção, nosso futuro depende do reconhecimento do vínculo entre a opressão social e a degradação ambiental. As mudanças climáticas e o fundamentalismo ideológico podem ser, de fato, potencialmente a “última pá de terra” da cova da humanidade. Chegar a esse patamar significa ignorar uma lição elementar da tradição iluminista: compreender as razões uns dos outros e revisar posições polarizadas. Para tanto, talvez, seja necessário transcendermos o medo, o individualismo, o preconceito, a soberba, o ódio, além de reconhecer nossa correlação e agir com justiça e empatia. A diversidade de perspectivas não é apenas uma característica imanente na humanidade, mas necessária para redesenhar horizontes onde as diferenças sejam vivenciadas, respeitadas e, em consequência, as injustiças sociais e ambientais sejam corrigidas. Nessa raia, Hanna Arendt (1906-1975) , filósofa política alemã de origem judaica, ao afirmar que “a pluralidade é a lei da Terra e a Terra é a própria quintessência da condição humana” , de alguma maneira, posterga o momento em que a terra se fechará sobre nós.
