A revolução tecnológica se configura como um inexorável modus operandi da contemporaneidade cujas implicações se enveredam por searas éticas, sociais, políticas e ontológicas. Nessa toada, Marilena Chauí, escritora e filósofa brasileira, ao recentemente afirmar que “não vivemos uma mudança tecnológica, mas uma mutação civilizacional” , convida-nos a refletir sobre a profundidade e os desdobramentos das constantes transformações que invariavelmente atravessam nosso tempo.
A modificação tecnológica refere-se ao desenvolvimento de ferramentas e processos que forjam nossas práticas cotidianas, enquanto a mutação civilizacional envolve reconfigurações abrangentes de valores, estruturas e formas de organização social. Para compreender essa diferença, a distinção que Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, delineia entre "trabalho", "obra" e "ação" pode ser de grande valia. No contexto atual, a obsessão tecnológica parece priorizar o "trabalho", ou seja, a manutenção da vida decorrente da produção incessante. No entanto, esse indefectível fetiche “high-tech” negligencia a "ação", isto é, a possibilidade de criar novos modos de vida e formas de interação humana. Essa mera preservação da existência dificilmente produz algo inédito. Pelo contrário. Só reproduz. Consequentemente, não há novas “obras”.
Por outro lado, Achille Mbembe, filósofo camaronês, discute perspectivas fundamentais para compreender essa metamorfose dos dias de hoje como reestruturações no regime de poder e existência. O pensador propõe, por exemplo, o conceito de "necropolítica" para descrever como, na era contemporânea, o poder é exercido por meio do controle sobre quem vive e quem morre. Nesse sentido, a mutação civilizacional necessária não se limita à tecnologia, mas envolve também o respeito à dignidade humana em um mundo cada vez mais desigual, alienado, injusto e opressor.
Ademais, baseada nas proposições sobre a colonialidade de poder, concebidas por Anibal Quijano (1928-2018), pensador humanista peruano, a filósofa argentina Maria Lugones contribui para essas discussões com o conceito de "colonialidade de gênero". Como as estruturas tecnológicas não são neutras, a estudiosa aponta que esses artefatos frequentemente carregam e reproduzem hierarquias coloniais, raciais e de gênero. A mutação civilizacional que vivemos não pode ser compreendida sem o reconhecimento de que as tecnologias digitais, como a onipresente inteligência artificial, perpetuam essas composições ao sistematizar e normatizar exclusões e desigualdades.
Nesse esteio, Martin Heidegger (1889-1976), filósofo alemão, em A Questão da Técnica , alerta para o risco de nos tornarmos servos das próprias tecnologias que criamos, ao permitimos que elas transformem o mundo em acervos de recursos para a funesta exploração e a reles reprodução. Porém, enquanto Heidegger reflete a partir do Norte Global, filósofos como Frantz Fanon (1925-1961), de Martinica, e bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, destacam que, além de material, essa expropriação é igualmente simbólica, política e cultural, o que desproporcionalmente afeta as populações racializadas no Sul Global.
Nesse sentido, a ética ubuntu, filosofia central em muitas tradições africanas cuja essência é a interação respeitosa com os outros e sustentada na noção de um “nós” que se reconhece como componente inseparável do tecido social, oportuniza perspectivas alternativas para o debate acerca da mutação civilizacional. O princípio de "eu sou porque nós somos" desafia o individualismo exacerbado que caracteriza particularmente a modernidade ocidental. Nesse esteio, Sylvia Wynter, filósofa jamaicana, argumenta que a humanidade precisa superar o "modelo de sujeito" eurocêntrico que domina as noções de progresso e desenvolvimento. Segundo a pensadora, a civilização só será revolucionária, do ponto de vista da humanização, ao reconhecermos a possibilidade de desenvolvermos múltiplas formas de ser, pensar e existir, inspiradas em vivências de todos os recantos do mundo.
Se, como afirma Marilena Chauí, estamos diante de uma mutação civilizacional, essa transição enseja reflexões sobre o que queremos preservar e o que devemos abandonar. À luz da convergência das ponderações acima, é patente afirmar que a verdadeira revolução não reside apenas em avanços técnicos, mas em expansões sociais, éticas e culturais. A mutação civilizacional que precisamos demanda rupturas com a lógica colonial e capitalista que trata vidas humanas e a natureza como descartáveis e mercantilizáveis. Talvez assim possamos conceber um futuro em que as tecnologias estejam a serviço de uma civilização mais justa, ética, plural, produtiva e solidária. Não se trata apenas de uma tarefa filosófica, mas um clamor urgente, coletivo, prático, político e existencial para não somente reproduzirmos o status quo.
