O Brutalista , ganhador de 3 Oscars 2025 (melhor ator, fotografia e trilha sonora original) é atravessado por narrativas densas e simbólicas sobre a trajetória de um arquiteto refugiado e sua luta para consolidar-se nos Estados Unidos. O longa retrata o percurso de László Tóth, brilhantemente interpretado por Adrien Brody, um judeu húngaro que, após sobreviver ao Holocausto e iludido pelo – famigerado - sonho americano, emigra para a terra do Tio Sam em busca de reconstruir sua vida e carreira. Imerso nas cicatrizes do pós-guerra, László Tóth se entrega ao refúgio ilusório e efêmero das armadilhas das drogas, buscando entorpecer as memórias dilacerantes do Holocausto que ainda o assombram. Às voltas com dificuldades financeiras, discriminação e constante sensação de deslocamento, não hesita em aceitar uma proposta ambiciosa do industrial Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) para projetar um monumento modernista de grande escala. A relação entre o emigrante fragilizado da Hungria e o empresário americano rico e influente é marcada por instâncias abusivas emocionais de controle e dominação das fraquezas advindas da busca desesperada por pertencimento e sucesso em um novo país. A obra cinematográfica, com um orçamento surpreendentemente modesto de “apenas” US$ 10 milhões, a considerar uma produção dessa escala, que levou 7 anos para ser finalizada, evoca tensões entre as fragilidades humanas e sua exploração, ao ressaltar como nossas vulnerabilidades podem se tornar alvos de tirania para os opressores e dominadores.
Nessa toada, Achille Mbembe, filósofo e cientista político camaronês, ao discutir a necropolítica, ou seja, o controle sobre a vidas de quem pode viver e quem deve morrer, demonstra como as estruturas de poder se mantêm pela perpetuação da suscetibilidade, o que determina, então, quais vidas são dignas de proteção e quais podem ser descartadas. No filme, a luta do principal personagem por credibilidade ilustra essa persistência das desigualdades, pois revela como a opressão se reinventa ao longo da história para se ajustar a novas formas de subjugação.
Ademais, Frantz Fanon (1925-1961), filósofo político natural das Antilhas francesas, no atemporal Os Condenados da Terra , expõe como a colonização impõe fragilizados modos de ser, pensar, viver e desejar aos dominados, levando-os, portanto, a contingências de vulnerabilidade estrutural. Em O Brutalista , que remonta ao final dos anos 40, além de lutar contra as dificuldades impostas por sua condição de ser estrangeiro, László também enfrenta a coerção de sua criatividade por aqueles que veem nele uma oportunidade de ganho sem a devida legitimidade. Esse cenário reflete como os sistemas de dominação e opressão operam ao se aproveitarem das inseguranças daqueles que buscam abrigo, acolhimento e novas oportunidades de recomeçar a vida.
Na contramão da deliberada intolerância e abuso dos tiranos, Gloria Anzaldúa (1942-2004), estudiosa norte-americana da teoria cultural chicana, feminista e queer, em La Frontera , reflete sobre como as identidades marginalizadas, embora sejam constantemente usurpadas, também possuem potenciais de resistência. Ainda que desafiador, ao carregar consigo indeléveis marcas do passado e das fronteiras simbólicas que atravessou, o emigrante de Budapeste poderia, por exemplo, negociar sua posição dentro de um espaço que o concebe como um forasteiro a ser explorado.
No mais, Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, em a Pedagogia do Oprimido , argumenta que a consciência crítica é fundamental para romper com os ciclos de opressão. No entanto, enquanto os oprimidos ainda desconhecem sua condição e suas potentes possibilidades de resistência, tornam-se suscetíveis à manipulação e ao abuso por parte dos detentores do poder. No filme, é possível observar como o protagonista confronta sistemas que se apropriam de sua criatividade, ao mesmo tempo em que lhe negam autonomia e reconhecimento.
Dessa forma, O Brutalista viceja que, além de ser uma condição inerente aos sujeitos, a fragilidade humana se caracteriza como um fator determinante nas relações de poder, frequentemente instrumentalizadas por aqueles que desejam perpetuar a desigualdade, a servidão e a opressão. Assim, a produção de baixíssimo custo para os padrões hollidianos, dirigida por Brady Corbet, 36 anos, dialoga com questões concernentes a como, por exemplo, a nossa vulnerabilidade, identidade e estruturas sócio-histórico-culturais forjam a nossa existência. A fragilidade humana, longe de ser um traço que deva ser ocultado ou negado, é, destarte, um ponto de partida para resistir aos alvos do opressores e reconstruir as relações sociais.
Ao reconhecer a vulnerabilidade como um dos aspectos centrais da condição humana, é possível repensar as dinâmicas de poder que tentam usá-la como uma opressiva ferramenta de controle. A reflexão sobre as identidades humilhadas, muitas vezes fragmentadas e desafiadas por forças externas, traz à baila as potencialidades de mudanças e transformações, visto que, segundo Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês, “ não há relação de poder sem resistência sem escapatória ou fuga, sem inversão eventual; toda relação de poder implica, então, pelo menos de modo virtual, uma estratégia de luta” . Em outras palavras, são os embates com as estruturas de poder, principalmente potencializados na e pela coletividade, que tornam possível oportunizar novas formas de ser, pensar e existir.
