Vinte e um de setembro de 2020, data instituída pela Lei Federal nº 11.133/2005 que marca o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, e também o sexto mês desde o decreto estadual que estipulou a quarentena durante a pandemia. O que nos leva a questionar: como essas pessoas estão sendo representadas nos discursos do Governo do Estado de São Paulo e na grande imprensa em meio à crise atual?
Apesar da legislação e as iniciativas de inclusão social já implantadas, aproveito a data para questionar sobre os espaços e narrativas desenvolvidas especialmente para essas pessoas em tempos de pandemia.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), uma em cada sete pessoas no mundo tem alguma deficiência. No Brasil, segundo o Censo Demográfico de 2010, cerca de 24% da população têm alguma deficiência, o que corresponde a quase 46 milhões de pessoas.
Apesar de configurar uma parcela significativa da população, e embora o Brasil esteja em quinto lugar no ranking mundial de países com acessibilidade, pessoas com deficiência representam uma minoria na sociedade, visto que ocupam espaços desiguais no exercício dos direitos e oportunidades em razão da invisibilidade no meio social.
A Base de Dados dos Direitos da Pessoa com Deficiência, da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPcD), mostra que no Estado de São Paulo, entre os mais de 41 milhões de paulistanos, mais de 3 milhões de pessoas têm deficiência, cerca de 7,29% da população do Estado.
As consequências das mudanças causadas pela pandemia do novo coronavírus são mais acentuadas para as pessoas com deficiência, que já vivenciam dificuldades no acesso a direitos básicos como educação, transporte e saúde. A necessidade de apoio e cuidados de terceiros nos afazeres rotineiros, em um cenário de pandemia e isolamento social, são desafios que excedem os obstáculos já vividos por essa parcela da população.
Analisando seis das coletivas de imprensa do governador João Dória, identifiquei que não houveram menções diretas a medidas ou inciativas de apoio às pessoas com deficiência, com exceção de um dos eventos que contou com a presença da SEDPcD. É justamente por meio da Secretaria que foram desenvolvidas o total de 36 ações de apoio ao PCD, sendo 60% destas parte do cronograma comum da pasta e 40% em medidas emergenciais de atendimento no contexto de pandemia.
Nesta perspectiva, fica claro como a prática inclusiva, seja nas narrativas do governo ou da imprensa em geral, pode promover uma cobertura que dê visibilidade às pessoas com deficiência em tempos de pandemia e, principalmente, como a comunicação produz efeitos significativos de representatividade nos discursos de governo, chamando a atenção para a necessidade de criação de políticas públicas emergenciais para este grupo mais vulnerável da sociedade.
Foto: Arquivo pessoal
*Renata Juliotti é jornalista com ênfase na comunicação inclusiva, pesquisadora e mestranda em comunicação social pela Universidade Metodista de São Paulo