Opinião

Copa de 1986, Plano Cruzado e o televisor Mitsubishi

"Guardo comigo uma tragicomédia de 40 anos (Copas de 1986/1990)"

Antônio Reis (*)
18/07/26 às 11h20
Foto: IA

Copa do Mundo chegando ao fim, com boas ou más lembranças que ficarão para sempre ou se diluirão antes da próxima. Não revelo quantas já acompanhei para que não descubram minha idade. Foram algumas, e delas tenho muitas lembranças, boas e más. Guardo comigo uma tragicomédia de 40 anos (Copas de 1986/1990).

Aos fatos. No distante 1986, o País passaria pelas primeiras eleições gerais/nacionais da pós-redemocratização, menos para presidente da República. Os eleitores iam eleger deputados e senadores constituintes, uma responsabilidade e tanto. O matreiro José Sarney, então ocupante do Planalto, de olho nas urnas, lançou o Plano Cruzado em fevereiro, um pacote econômico supostamente destinado a combater a inflação galopante.

O governo congelou preços, confiscou boi no pasto porque pecuaristas (é agro que fala, né?) não abasteciam os frigoríficos com o objetivo de sabotar o plano. As donas de casa mais crédulas se tornaram fiscais do Sarney. Quando algum comércio era flagrado remarcando preços, partiam para a ação: “Em nome do presidente Sarney, eu fecho este supermercado”. Aplausos da geral, imagens na Globo, manchetes nos jornais. Preços sob controle. Adeus, inflação.

Embalada pela euforia do Cruzado, a Mitsubishi lançou uma campanha promocional. Quem comprasse um televisor da marca para assistir à Copa do México, em 1986, teria o dinheiro de volta quatro anos depois, na Copa da Itália. A TV Mitsubishi era a mais top, a mais cara das lojas de varejo. Tudo leva a crer que a campanha tenha sido bem-sucedida. O fracasso ficou por conta da Seleção Brasileira, que a França mandou para casa mais cedo.

Veio a Copa de 90. Meu vizinho, à época já um senhor aposentado, falante pelos cotovelos, não se continha de entusiasmo. No exato dia em que a compra de sua Mitsubishi completara quatro anos, logo de manhãzinha, meteu a nota fiscal no bolso, deu partida no Fusqueta cor de pitanga e, cheio de planos, foi buscar sua grana.

Horas depois, o homem me chamou ao portão, murcho feito girassol em dia de sol quente. Trazia nas mãos algumas moedas, suficientes para não mais que dois picolés. Ele se esquecera de que, nas eleições de 1986, o governo e seus aliados fizeram cabelo, barba e bigode e, mal as urnas foram apuradas, o Plano Cruzado foi jogado no lixo, num dos maiores estelionatos eleitorais da nossa história. A inflação voltou com força, e o dinheiro “investido” na Mitsubishi tinha virado pó.

Foto: Divulgação

(*) Antônio Reis é jornalista, assessor de imprensa e fotógrafo diletante

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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