Opinião

E esse tal de terroir?

Artigo explica termo utilizado no universo dos vinhos

Neila Storti Moterani*
02/10/19 às 09h48

Como é possível uma mesma uva, cultivada em locais diferentes, produzir vinhos tão distintos em aromas e sabores? Como é possível a quantidade de luz, incidência de chuva e até mesmo o clima de uma região influenciar tão profundamente na elaboração de um vinho? O conjunto desses e muitos outros fatores que conferem a personalidade ao vinho são chamados de terroir.

Para quem está entrando agora no universo do vinho, muitas palavras são verdadeiras incógnitas. Terroir é uma delas. Mas vamos desmistificar e entender o que significa o termo e saber porque ele é tão importante.

De origem francesa, a palavra terroir não tem tradução e provém do latim (terratorium), que originalmente significa uma extensão limitada de terra. Na tradução livre, “solo” seria um bom significado para ela, mas o terroir é muito mais que isso.

Segundo a OIV (Organização Mundial da Vinha e do Vinho), o terroir é um conceito que remete a um espaço no qual está se desenvolvendo um conhecimento coletivo das interações entre o ambiente físico e biológico e as práticas enológicas aplicadas, proporcionando características distintas aos produtos originários deste espaço. Ou seja, o terroir desempenha papel fundamental na produção de um vinho.

Os principais pontos que compõem o terroir são: clima, solo, terreno e cultura. Além de serem de extrema importância no cultivo da uva, cada uma destas variáveis reflete diretamente na qualidade do vinho. Inclusive sub-regiões dentro de uma mesma localidade possuem características próprias.

A vinícola chilena Undurraga possui uma linha de vinhos chamada Terroir Hunter, em que seus produtores mapearam o Chile de norte a sul em busca dos melhores terroirs do país. O resultado da pesquisa são 17 rótulos diferentes que refletem as características únicas de cada região.

Como esses fatores influenciam no vinho? Se a região é chuvosa, fria ou quente, se no solo há presença de minerais como rochas e pedras, se o terreno é regular ou inclinado, qual a altitude do local em relação ao mar, além das técnicas de condução da parreira que as pessoas de determinada região utilizam no processo.

O respeito pelas características do terroir é uma tradição muito antiga no velho mundo e muitos produtores jovens de vinícolas do novo mundo, como Chile e Argentina, vêm se atentando para isso. Certa vez, li uma entrevista do enólogo Leo Erazo, da vinícola Altos Las Hormigas, que dizia que o enólogo tem que ter a capacidade e humildade de se colocar à serviço do terroir e não querer ser o protagonista do vinho.

Provar um vinho que é o reflexo autêntico de sua região e seus costumes é uma experiência única. Os vinhos mais emblemáticos são o retrato fiel de seu terroir, sendo impossível reproduzi-los em qualquer outra parte do mundo devido a combinação única presente em suas origens.

Podemos usar como exemplo o chablis, vinho branco do norte da França ou um champanhe; o barolo, produzido na região do Piemonte; um amarone, da região de Vêneto; um rioja, na Espanha, entre outros.

Inclusive, todos esses vinhos que traduzem seu terroir de forma autêntica, harmonizam perfeitamente com pratos típicos de suas regiões, uma vez que compartilham o mesmo DNA. Mas harmonização é assunto para nossa próxima coluna!

*Neila Storti Moterani tem 33 anos, é jornalista por formação e enófila por vocação.

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